a dele deitava-se negra
e desistia do ar devagar
a dela tremia de espuma
ao ângulo de um outro quebrar
e sem que as árvores os vissem
trocaram em asas caladas
a terra pelo mar
a dele deitava-se negra
e desistia do ar devagar
a dela tremia de espuma
ao ângulo de um outro quebrar
e sem que as árvores os vissem
trocaram em asas caladas
a terra pelo mar
aquela direcção de espuma branca e sigo
o mar sobe-me pelas pernas
enquanto desce espreita
e de lado repete
é morno e sei que brinca
e a minha mão vai abrindo devagar
de polegar inútil ao líquido
de lado ele faz e desfaz as costas
e as pernas do meu desenho
molhado em séculos ao mesmo som
gasta tudo o que repete
e deixa-me as pernas vazias
é então que nesse espaço solto
entre ossos e mar
nasce devagar um engano de carne seca
de peso a quatro vezes a espinha
e o mar agora só sobe sem som
perpendicular a mim - a espuma
e uma cama velha de coral
caras calmas cheias de olhos que pairam lá em cima e brincam como o urubu. há um mapa no quadro da aula que falha como falha o ar condicionado e as caras são lentamente enfiadas em sacos enquanto rezam o sentimento de um ocidental.
a cidade não é a minha de rio assustado com as luzes da noite ou passeio das virtudes de gaivotas amestradas sem mãe. é uma cidade de cara tapada e pele de seringueira largada na esquina de um teatro triste de renda amarelada. dentro dela há arcas fundas azuis onde gelam peixes gigantes embalsamados com caras. ouvem-se os passos da mãe ao longe e o ar é quente de bicho a arfar e ninguém olha porque ali acaba a estrada.
e então a mãe vem lamber a cidade em rio mais largo que todas as línguas
antigamente havia apenas dois milhões de caras e quatro de olhos fechados, diziam as raízes. papel frio ou caras e os contos dos olhos demasiado quentes para encadernar. e dizem agora que o urubu brinca comigo e que há comida que só liberta o veneno ao sétimo dia para descansar. e eu descansei.
Manaos, 2010