quarta-feira, 13 de outubro de 2010

do urubu e da gaivota

a dele deitava-se negra


e desistia do ar devagar


a dela tremia de espuma


ao ângulo de um outro quebrar


e sem que as árvores os vissem


trocaram em asas caladas


a terra pelo mar

terça-feira, 12 de outubro de 2010

perguntou porque a palavra saiu destituída de sonho




duas vezes repetiu a palavra, real e objectiva
para que não mais caíssem linhas cortadas, águas
de gravidade, sem transparência, sem limpidez
sobre a boca de terra húmida e fértil.

decidida e triste virou o olhar, ferida
contrária ao que supunha escrito.
não gostou, achou vulgar, perguntou porque
antes e de outra forma não lhe falou de fogo no lado direito
da mistura de cores branca e rubra cobrindo o rosto
de uma viagem de joelhos, mãos estendidas
o estado febril, suor por dentro, palpitações de galope
voos de asas à volta dos postes, canções na língua de Jacques
um jardim de plantas de firmes raízes, flores descosidas
intermediárias e interventivas
um poema escondido sobre buganvílias, brancas e suspensas.


uma maçã luzidia rolou em desafio
indício, provocação, porque … a palavra, por duas vezes
saiu destituída de sonho, perseguida sem arte pela ausência emotiva
falta de sensível, insólida, inconstruída.

ergueu-se a nuvem de pó cinzento, ruiu o castelo
paus e espadas, as cartas negras de um baralho
sem vislumbre de ouro ou prata

e o tapete alado desfiou no peso plúmbeo da palavra
vulgar, repetida, por duas vezes, sem intervalo –

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

espumas

aquela direcção de espuma branca e sigo

o mar sobe-me pelas pernas

enquanto desce espreita

e de lado repete

é morno e sei que brinca

e a minha mão vai abrindo devagar

de polegar inútil ao líquido


de lado ele faz e desfaz as costas

e as pernas do meu desenho

molhado em séculos ao mesmo som

gasta tudo o que repete

e deixa-me as pernas vazias


é então que nesse espaço solto

entre ossos e mar

nasce devagar um engano de carne seca

de peso a quatro vezes a espinha


e o mar agora só sobe sem som

perpendicular a mim - a espuma

e uma cama velha de coral

domingo, 10 de outubro de 2010

Um céu e nada mais


Vincent Van Gogh


Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

Ana Luísa Amaral, in “Às Vezes o Paraíso”

sábado, 9 de outubro de 2010

a mulher mais bonita do mundo


Edward Hooper "Verão"

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

o quarto de Van Gogh - punhos sobre a alma


O quarto de Van Gogh

começou por punhos pequenos na vidraça
o ruído batente, surdo e intermitente, incansado
em movimentos de alerta: acorda, é hora, acorda.
os olhos graves e exaustos eram portas pesadas
e a grande casa dos sonhos e da memória
um vazio, um grande vazio e um armário –

a chuva pediu ajuda ao vento, bateu com estrondo
a cor verde da gelosia, exterior, em desamparo
abandonada, acordou o sono ao som férreo de uma aldraba.

punhos de água sobre a alma e aos poucos se recorda a irrealidade
um novo espaço se desvenda como um filme de autor, em desespero;
último capítulo, os óculos sujos, as mãos suadas sobre o manuscrito
o enredo:

naquela noite era a selva. um actor saltava em altos de embondeiro.
uma liana, solta e leve, acenava numa sombra escura de vermelho.
um grifo escutava em silêncio o grito de floresta
esperava a hora da grande garra, do voo certeiro.
na clareira corria uma gazela dirigida à sanzala
onde onde onde
se esfuma a irrealidade.

sobre a mesa cai a jarra.
espalham-se as flores, escorre a água, mia o gato

acorda, é hora, acorda
punhos sobre a alma -
amanhã é sábado -

mas a chuva pára, o vento sossega
a mão ausente embala e o cérebro adormece

não quer saber de nada -

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Não adormeças


Gerhard Richter 1962

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A fome do firmamento

O amante é como um irmão gémeo morto à nascença.

O sol fecundou uma terra-planeta, casa breve parcialmente comida pela estrela rival predadora, devorada por dentes da carnívora galáxia.
A grande cortina cobriu a casa para que o último filho do amor sobrevivesse. Às escuras, sem ser visto para não desvanecer.
Metade do planeta numa eterna noite errando,
amputado.
A outra metade - a presa; arrancada de tão visível, de tanto ser luz, alimento desfeito no ninho das paredes da nebulosa sangrenta.
A casa não girou. Alguém esquecido de dar corda à nativa esfera pendente no universo, onde a noite é sempre noite desprovida de seda, o dia é sempre dia inseguro animal à espera da sua vez.
Onde a noite é cúmplice pela morte do amante.
Onde o que foi dia, e gente, e jardim da casa
morre na boca do pássaro.

Já lá vem o cometa batedor
de radar e garras -
o espaço crepuscular não tem opção.

caras entre línguas

caras calmas cheias de olhos que pairam lá em cima e brincam como o urubu. há um mapa no quadro da aula que falha como falha o ar condicionado e as caras são lentamente enfiadas em sacos enquanto rezam o sentimento de um ocidental.


a cidade não é a minha de rio assustado com as luzes da noite ou passeio das virtudes de gaivotas amestradas sem mãe. é uma cidade de cara tapada e pele de seringueira largada na esquina de um teatro triste de renda amarelada. dentro dela há arcas fundas azuis onde gelam peixes gigantes embalsamados com caras. ouvem-se os passos da mãe ao longe e o ar é quente de bicho a arfar e ninguém olha porque ali acaba a estrada.


e então a mãe vem lamber a cidade em rio mais largo que todas as línguas

antigamente havia apenas dois milhões de caras e quatro de olhos fechados, diziam as raízes. papel frio ou caras e os contos dos olhos demasiado quentes para encadernar. e dizem agora que o urubu brinca comigo e que há comida que só liberta o veneno ao sétimo dia para descansar. e eu descansei.


Manaos, 2010

desígnio de um passeio pela cidade


Kandinsky


a carapaça, pois a carapaça, de cera fraca
e apenas uma lágrima, chega, suficiente
para voltar ao estado líquido, um néctar de abelha
doce, cedendo à luz da seda, ao sentimento
triste, muito triste, como antigamente
de não ter :

ruas nas tuas mãos e areias de medida
parando o tempo – sem saída
margens de rios, afluentes plenos
– sobre a manta dos sentidos
e olhos caídos como águias sobre nuvens e calendários
esgotando os impossíveis lugares, como se presentes
e não imaginários, suaves e tácteis, duplicados
de cores enroladas nos braços e dedos como gazelas
pelos cabelos, pelos olhos, pela cara, pelas costelas
como desígnio de um silêncio desmentido
pelo ruído dos lábios -

e um sabor raro –

terça-feira, 5 de outubro de 2010

ALGUÉM ME REPETIA


Gerhard Richter


A voz é grave e rouca.
Na mesa ao lado, chora uma criança que não conhece a memória.
Há uma voz quente que um dia me falou ao ouvido.
Dizia-me.
Tentava explicar-me os ventos, as marés,
o terno refúgio dos dias que estão longe.
Eu julgo que dormia aninhada, com os olhos brilhantes e o coração atento.
Talvez tenha sentido uma mão leve a percorrer-me as costas. Talvez devagar.
Fazia movimentos circulares. Talvez tentasse mostrar-me o caminho.
Dizia-me.
Eu não compreendi porque vivia como se recordasse já.
Não há tempo para o presente quando se está fechado na memória.
Disse.
Não vivia do passado. Não era isso que tentava dizer: Havia em mim a certeza
da recordação futura - como a espiral de onde não se sai.
A voz começou a delirar em círculos. Ofendidos talvez, os círculos.
Eu estava no centro desse som que baixava como se a qualquer momento
pudesse abater-se sobre mim. Sem me sufocar talvez.
Dizia. Dizia.
A linguagem tornava-se cada vez mais estranha e imprópria.
Como nos sonhos em que se procura gritar
talvez agitasse os braços levemente.
Mas nenhuma voz nos cabe nas mãos, nem nas palavras.
Eu habito a quente loucura do poema sólido que em mim se concretiza.
Eu habito a quente loucura do poema sólido que em mim se concretiza.
Alguém repetia.
Mas a voz era cada vez mais líquida e talvez não coubesse no poema.
As mãos arrastavam o corpo para o lugar onde a minha solidão
talvez recordasse a voz. Dizia-me. Para que mais rápido se interrompesse
o dia, para que mais rápido se recordasse
a vida. Eu ia rolando sobre a cama como uma criança em direcção ao abismo.
As mãos voltavam a trazer-me para o centro do círculo.
No silêncio, perderia a consciência. São sempre as vozes que nos trazem
de volta. Talvez.
Era o dia em que me encostei à parede para olhar o círculo, a voz, as mãos.
Como se observasse aquela solidão.
E não houve nada que me pudesse dizer: Talvez.


Filipa Leal, in A Cidade Líquida e Outras Texturas

estes troncos cortados de redondo




estes troncos cortados de redondo mostram as veias
a resina sólida e aderente, o diâmetro pronunciado da circunferência.

aproxima-se a intimidade acesa de chamas e brasas
e assim se compreende o corte certo de lenhas
pedaços assim, despidos de ramos, pedaços
de muitas árvores e como se brandidas
de lâminas paralelas, serras afiadas, em blocos
na impossibilidade de refazer a imponência
a grande altura, de copas mais ou menos inclinadas.

não é saudável ver assim os veios dos pinheiros
os veios dos salgueiros, os veios das macieiras
as veias assim secas sobre a lage –

em pedaços as árvores não respiram
formas inertes, sem asas, em geometrias
horizontais, por diâmetros grossos e finos
tristes, ao hibernar sem raízes.

num fim de tarde distante, sobre a serra
o crepúsculo coloca o agasalho
e cobre a manga curta de ideias largas
um azul de ganga coçada, um ténue rosa
sobre nuvens embaraçadas de algumas sombras.

pensa-se como é grande o céu
como é fresco o bosque e afinado o riacho
que canta sobre um pequeno salto de margens
e como assim belas e altas, de grandes almas
se erguem as árvores antes de cortadas.

quando se recua ao tempo sem incêndios nos pinhais
caem sobre os olhos quadros, velocidades rápidas
de fotografias a preto e branco, enchendo os anos
tornando as memórias de uma sobriedade antiga
uma invasão de sensível de boa natureza
e nada desmorona e tantos os encantos –

em pleno campo, longe de um circular cinzento
não se veste o horizonte de ruídos
rodas de borracha, buzinas, rodilhos de gente
e sobre as folhas em turbilhão
falam os pássaros
e os frutos da surpresa dos castanheiros
ouriços, muitos, de verde claro
que chocalham pequenos gumes afiados
e lembram, o regresso tão próximo
à Idade Média das cidades –

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ao longo das muralhas que habitamos


Cesariny "Naniora" 1960

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

não se espera a caravela


Salvado Dali " A descoberta da América "


no lugar mais afastado do cais não se espera a caravela
aquela que se aproxima abrindo do fundo
uma terra, perto do início do mar
em ruído extenso, progressivo, súbito
claro, determinado.

à sua volta criam espaço os animais
dos mais pequenos aos voadores
mensageiros seguros de mudanças, o tempo
mais temperado menos arrefecido.

decidida a caravela abrindo a terra
de onde saem as mãos que salvam os desprevenidos
elegem os eleitos, admoestam os empedernidos
e lançam a descoberta
a alucinação:

um manto branco o percurso de sedas
por águas e névoas de omissos orientes
caminhos únicos, fixos no tempo como os paraísos
únicos, como as lágrimas que sendo têm sempre razão

a caravela poderosa, firme, para nos arrancar de dentro o sal
a flor caída, a omissão, o amor desconhecido
em submissa entrega líquida, percentagem
em pequenas gotas, lentamente como um rio seco e a nascente –

quando chega a caravela traz uma ilha agarrada
e a cruz inchada de vento, orgulhosa e segura.
força máxima de velas, os nós de avanço

e o tudo antes perde mesmo a realidade
e a caravela avança –
Olá a todos.
Gostaria de cumprimentar a todos .
Um abraço desde Madrid,
Ángeles Sanz