A metafísica do amor são as tuas mãos
O amor não tem nome
É um pó líquido que nos corre nas artérias
Em estado puro
Um nó sináptico que nos enrola o cérebro
Em circunvoluções frontais e fatais
O amor tem dois dias para nascer
Três para morrer e um para ressuscitar
O amor são só números e operações
Somar, multiplicar, subtrair, dividir
A génese é um paradoxo
Maior que o do amor
Que nem interessa à génese
Nasce mesmo sem amor
Para logo morrer em vida sem afecto
O amor é um objecto inútil
Dispensável à biologia
Ainda assim é a sua elevação
A materialização das estrelas na carne
A metafísica do amor são as tuas mãos
O amor tem dois dias para nascer
Nesta sociedade cega e robotizada
O trabalho é um paradoxo
Menor que o do amor
Que nem interessa à génese
O trabalho é um objecto inútil
Dispensável à biologia
Se chovessem estrelas
Se o amor fosse água
Se eu criasse sol
A terra não era mais redonda
Nadávamos em amor sob a chuva
Os nossos beijos eram luz
E caminhávamos em linha recta
da Terra a Vénus e Marte
Talvez aí o amor não fosse dispensável à biologia
E os cometas fossem os nossos sonhos
A voar perto da memória da chuva
A embalar-nos em braços de luz.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Pecado ao quadrado
quadrado
recto de lados e princípios
rígido e perfeito na forma
(en)quadrado em si
preso num quadro quadrado
uma equação perfeita
com resultado impossível
uma curva normal
sem desvio-padrão
traçado a régua e esquadro
ângulos de noventa graus
és traçado sem pecado
sem curva nem diversão
peca em círculos
faz a roda
rebola em esfera sem rumo
desdobra a aresta toda
corrompe-te nos decimais
sem resto certo
sem divisão
só riscos tortos
feitos à mão
beijos redondos
em equação
eu a dividir por tu dá nus
subtraindo nós de ti dá nó
peca circunferencialmente
em ângulos imperfeitos, obtusos e agudos
desenha números na pele
sem borracha
não apagues nada...
os rascunhos são perfeitos.
recto de lados e princípios
rígido e perfeito na forma
(en)quadrado em si
preso num quadro quadrado
uma equação perfeita
com resultado impossível
uma curva normal
sem desvio-padrão
traçado a régua e esquadro
ângulos de noventa graus
és traçado sem pecado
sem curva nem diversão
peca em círculos
faz a roda
rebola em esfera sem rumo
desdobra a aresta toda
corrompe-te nos decimais
sem resto certo
sem divisão
só riscos tortos
feitos à mão
beijos redondos
em equação
eu a dividir por tu dá nus
subtraindo nós de ti dá nó
peca circunferencialmente
em ângulos imperfeitos, obtusos e agudos
desenha números na pele
sem borracha
não apagues nada...
os rascunhos são perfeitos.
Talvez
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Quero sair do comboio
Que vem e vai em pecado
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
O planeta azul
Pecou com o astro sol
Seu fruto é todo pecado
De nome Homem
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca
Peca
Peca
Só mais uma vez
Para seres humano
Só mais uma vez
Até seres humano
Peca incessantemente
Até o sol raiar
O sol dorme de noite
com a terra em leito mar
Peca até entenderes
Que pecar não é pecado
Que pecar é a virtude
De quem vive ocupado
A colocar forca pesada
Em seu pescoço docemente
Com mãos próprias
Mãos do mundo
Este peca impunemente
Ao assistir à punição
Gozando a justa pena
É sua própria prisão
Peca peca peca
Peca só mais uma vez
Até seres humano
Até só o talvez bastar
talvez
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Quero sair do comboio
Que vem e vai em pecado
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
O planeta azul
Pecou com o astro sol
Seu fruto é todo pecado
De nome Homem
Peca a terra
Peca a terra
Peca a terra
Peca
Peca
Peca
Só mais uma vez
Para seres humano
Só mais uma vez
Até seres humano
Peca incessantemente
Até o sol raiar
O sol dorme de noite
com a terra em leito mar
Peca até entenderes
Que pecar não é pecado
Que pecar é a virtude
De quem vive ocupado
A colocar forca pesada
Em seu pescoço docemente
Com mãos próprias
Mãos do mundo
Este peca impunemente
Ao assistir à punição
Gozando a justa pena
É sua própria prisão
Peca peca peca
Peca só mais uma vez
Até seres humano
Até só o talvez bastar
talvez
Pecado
Se pecar fosse pecado
Teria condenação
Se pecar não fosse apenas
A humana condição
Se o homem não se julgasse
A si de dentro de si
Ao outro de fora para dentro
Ao outro por fora de si
Haveria então pecado
Se não pudéssemos pensar?
Haveria então pecado
Se não pudéssemos julgar?
Se pecar fosse pecado
Eu não saberia pecar
Assim peco a toda hora
Ao agir e ao pensar
Peco em cada julgamento
Em cada interrogação
Peco tanto a toda hora
Peco com e sem razão
Se em vez de bomba de sangue
Fosse teu meu coração
Era máquina de pecado
A turvar-me a vã razão
Ao ver-te assim já pequei
Ao ter-te pequei também
Pequei quando te beijei
Peco em ser tua refém
Haverá maior pecado
Do que amar sem ter razão?
Não será então pecado
Sinónimo de prisão?
Ou será amar assim
Só uma cega paixão?
Disfarçada de pureza
É no fundo possessão
Já que o verdadeiro amor
é livre na sua verdade
Já que acreditar em pecado
É sentir culpabilidade
Deixo aqui minha veste
De pecado e de vaidade
Fico nua só de amor
Inundada em liberdade.
Teria condenação
Se pecar não fosse apenas
A humana condição
Se o homem não se julgasse
A si de dentro de si
Ao outro de fora para dentro
Ao outro por fora de si
Haveria então pecado
Se não pudéssemos pensar?
Haveria então pecado
Se não pudéssemos julgar?
Se pecar fosse pecado
Eu não saberia pecar
Assim peco a toda hora
Ao agir e ao pensar
Peco em cada julgamento
Em cada interrogação
Peco tanto a toda hora
Peco com e sem razão
Se em vez de bomba de sangue
Fosse teu meu coração
Era máquina de pecado
A turvar-me a vã razão
Ao ver-te assim já pequei
Ao ter-te pequei também
Pequei quando te beijei
Peco em ser tua refém
Haverá maior pecado
Do que amar sem ter razão?
Não será então pecado
Sinónimo de prisão?
Ou será amar assim
Só uma cega paixão?
Disfarçada de pureza
É no fundo possessão
Já que o verdadeiro amor
é livre na sua verdade
Já que acreditar em pecado
É sentir culpabilidade
Deixo aqui minha veste
De pecado e de vaidade
Fico nua só de amor
Inundada em liberdade.
É segredo
Peço o teu pecado
Peco que o já disse
Peço que o já sinto
Peco em ter pensado
Este meu segredo
Em mim tão bem guardado
É grande, é um gigante
É imenso, é pecado
Se agora to contasse
Em jeito de tratado
Mais de mil horas lias
Com rosto de espantado
Até de mim fugias
Com tamanho pecado
Peço que não o contes
Peco em ter-te contado
Foi mais do que devia
Foi tão precipitado
Pois quando é contado
Pecado bem guardado
Torna-se em julgamento
Fica desvirtuado
Assim segue pecando
em segredo humanamente
Que o verdadeiro pecado
É só por ti condenado
Tormento em ti é julgado
Cúmplice em ti e por ti
Desdobra-se velhas memórias
Até ser só passado.
Peco que o já disse
Peço que o já sinto
Peco em ter pensado
Este meu segredo
Em mim tão bem guardado
É grande, é um gigante
É imenso, é pecado
Se agora to contasse
Em jeito de tratado
Mais de mil horas lias
Com rosto de espantado
Até de mim fugias
Com tamanho pecado
Peço que não o contes
Peco em ter-te contado
Foi mais do que devia
Foi tão precipitado
Pois quando é contado
Pecado bem guardado
Torna-se em julgamento
Fica desvirtuado
Assim segue pecando
em segredo humanamente
Que o verdadeiro pecado
É só por ti condenado
Tormento em ti é julgado
Cúmplice em ti e por ti
Desdobra-se velhas memórias
Até ser só passado.
adolescente retardado

Paul Klee " a cidade do sonho " 1921
fala-me de serras e de pastores, de campos largos
de outras humanidades que não as vulgares
assim como uma espécie de libertação
de ser obrigatório ler os jornais
de mergulhar nas complexidades existenciais
de telefonar sem fios, de correr e correr
correr muitos riscos para encontrar paredes planas
paredes moucas como objectos contemplativos.
fala-me de serras e de pastores não no sentido de sacrifício
como amplitude de saber: que uns são felizes e balem
se forem ricos e diversos os pastos durante o dia
quentes as palhas na recolha de luas e lãs crescidas.
que um abana a cauda por ser a sua causa cuidar do rebanho
para que não se perca e fuja ao perigo
da sábia raposa, do falso lobo.
e por fim o outro, aéreo e louco a escutar as aves
de capote em roda a ler a sombra das árvores
a erguer-se no cajado. abrir os braços.
e não me ouves queres que seja depressa
como um jovem atleta a devorar o guiness
a empurrar o mundo na ponta da seta
não lhe dar o descanso de um buraco negro;
ser um cumpridor progamado de tarefas
a voz de um computador numa odisseia no espaço
o poderoso decisor de apertar o botão vermelho
o ultrarápido corredor de tudo ou nada
de sangue e lágrima.
talvez seja verdade e as mulheres tantas vezes
são tão práticas. mas sou poeta sabes.
ilude-me como se gostasses das minhas palavras
das notas desafinadas de uma cana lascada
a servir de flauta, a soltar a dança
a roubar a cor ruiva dos lábios
depois de lançar o chapéu de palha
a cem metros de distância.
e não me ouves. dizes que não é poesia
que sou insano.
com esta alegoria – dizes - de adolescente retardado
com este sonho dentro da cidade
deixas o carro ao sol – dizes - um calor que não se pode.
e com o traffic na artéria principal ainda falta o combustível.
mas que grande chatice – dizes – como é habitual.
sorrimos.
fala-me de serras e pastores, de campos largos
e um refúgio com um pouco de colmo
num abrigo fresco de granito - digo
sorrimos -
terça-feira, 29 de junho de 2010
O beijo e o pormenor

Beijo-te:
regressa a paralisia do sono
uma ave sem asas ao apelo
e ao agravo
e as grandes questões
fazem agora parte de uma dieta
rica em represálias
e pormenores.
E a propósito de um quarto fechado
numa determinada técnica,
numa indeterminada Era,
as pessoas praticam a apneia
da razão ao pormenor.
A asfixia é uma máscara generosa
de rescisões.
Entretanto, corre uma brisa
torcionária ao nosso redor,
um circo ambulante inflama a povoação
mais próxima dos ângulos caídos
em desuso pelo latim das línguas refractárias
as bocas abrem-se mais e melhor
pelo caminho, perdem-se alguns pormenores
não obstante uma febre aftosa de pássaros
uma primavera que procede de Hitchcock,
e as ruas desertas, de certo modo um silêncio
supersónico que as coloca nos escaparates
da hora inferior.
E provavelmente o melhor champanhe
vigilante do mundo
as luas doutoradas em Saturno
e as estrelas andrajosas da circunstância.
Não há luzes mais ingratas
nas imediações
do céu da boca.
Na louca distensão da caverna, os prisioneiros
vêem pornografia barata
e ouvem coitos de fadas ao deitar
e recebem as penúltimas
instruções.
E a noite toda é uma fábrica extravagante de coser
diálogos às repúblicas dos rostos sucessórios do amor.
Sabes e repito - não te quero triste
Sabes e repito: como um círculo de atmosfera
de dia de noite em qualquer pedaço da terra
que há um fumo de incenso que inebria
com o poder mais forte das neblinas
todos os sonhos das ondas do mar___esse olhar
que atravessa as glândulas, amacia e prende
a pele dos lábios sem despedida.
não te quero triste_____________ digo-te.
tantos dias perdidos_______________ solitudes magnas
de alma___________________ assim entendo a ausência
que sendo dupla caminha lado a lado________________
uma corda alta tensa e friccionada no som de um violino
a traduzir agudo a estridência de um grito, o meu grito
a rasgar sobrevivências sem alívio no eco das palavras
por vezes férreas por vezes ácidas por vezes mansas
clamando___________________clamando o sossego
o necessário sossego das planícies__________ o alívio.
não te quero triste_______________________digo-te.
não te quero triste -
segunda-feira, 28 de junho de 2010
o mesmo início uma outra direcção

Robert Doisneau
verde e água no refúgio de um bosque.
crescem os juncos e erguem-se as rãs
muitas, num tempo quase mínimo.
recôndito lugar, símbolo de paz, silêncio de uma luz
pousada sobre um pinheiro a escoar, a encadear
em reflexos, as suavidades de sombra de um chapéu claro.
sente-se o piano, um som portátil de sonata kreutzer.
um violino que acompanha os versos fundos de Pessoa.
grande pessoa. vivia na arqueologia do sentimento;
um erudito da alma.
uma casa de ar no alto de nada.
um adro onde se salva um violoncelo, onde se dança
abraçando uma gota de água, um toque fresco
de neblina, uma música de asas que predomina.
onde se sente o voo e a dança.
mas no meio do bosque ou no cimo da montanha
dói-me o fumo fosco da cidade a sua toxicidade.
sinto-me melhor mas não descanso. não descanso -
alguns segundos e caiu um envelope

Robert Doisneau
um pequeno charco, uma fonte verde de água.
crescem os juncos esgueiram-se as rãs
formam o salto. Schlap! Schlap!
minutos calados
o silêncio de uma luz solar que não passa
no receptáculo de um colo de árvores
a aguardar, o horário terminal e descendente.
na subsidiária constância de veias que respiram
os trajectos únicos do sangue que segue dentro
circula em círculo e ilumina os olhos
que pousam em pormenores sem qualquer importância;
as sapatilhas um pouco rotas, a camisa descomposta, aberta,
os pêlos cinzentos presos num leito confuso, os cabelos despertos
num colarinho curto de pintor.
sem qualquer importância em toda aquela harmonia;
a formiga passa, o ralo rala, uma lebre salta
a cigarra sabe-se a viajante que toca guitarra
e as rãs saltam. Schlap! Schlap!
um esquilo sobe a casca de um carvalho
de duras unhas, no susto de cem olhares
anuncia o acontecimento, estranho
e surge um círculo nítido de escuro
um baque, um súbito crescer de água
um géiser de fumos a abrir do nada
a arrastar restos de folhas dispersas
a levá-las como penas numa rama de remos
e uma fala de alma, humana, em desassosego
em dialecto de imperceptível significado.
a água subia a uma imensa nuvem.
parou de repente e terminou sem mensagem.
calou-se a fala, a fala funda e surgiu num aroma húmido
uma chuva míuda, improvável.
o esquilo não esperou encostou-se dentro da casca
a um canto tremido de nozes e bugalhas. E a chuva
não durou mais do que doze minutos, doze minutos
breves naquele lugar de um vulgar estado de recato.
um assombro que assombrou as rãs no charco
que saltam. Schlap! Schlap!
quando todas saltaram desceu em voo picado uma folha de escola
uma página escrita no formato dobrado de concorde
de bico e asas dobradas.
alguns segundos e caiu um envelope -
sábado, 26 de junho de 2010
o mesmo mar
sei quanto a poesia pede a negritude do dia
ruga disforme do desconcerto
a maioria de dor no desencanto.
mas a poesia não pode ser assim contínua
submersa de um fundo escuro
e uma lua triste.
na longitude meridional de um mesmo mar
existe uma luz de amanhecer
uma colmeia de abelha mestra
uma porta aberta e mãos acesas -
quinta-feira, 24 de junho de 2010
a praia colorida de Matisse
Matisse " A alegria de viver"
portador da deficiência de te ver entrar no mar
de costas únicas e pele lisa
precedentes de uma sombra esguia
e de alguns ciscos de areia
campainhas de chuva, dura, sobre lentes escuras.
os cabelos de início flutuaram de mil luas, brancas, brancas luas
por dentro, por dentro das espumas.
insatisfeito, de mãos húmidas sabendo a sal
vi , vi o rosto que emergia, que emergia.
a deficiência tornou-se a incurável doença
de passear os dedos delineando a forma, sem tocar
a transparência imersa, estendida, azul espessa
a nadar no céu de água, em desenhos flor de lis;
tecidos tão pequenos que escondiam.
há horas que são dias e aguardar foi paciência
infinita, de um destino de não ser vento, durante o dia
nem ser estrela de noite a desviar uma cortina.
a doença aumentou febril no feitiço
de olhos que apertaram o juízo
imóvel e disponível para todos os sentidos
no crescer de um horizonte
de sabor e forma de morango.
o impossível som de um aeroplano publicita
a mensagem que se escreve nos ouvidos;
palavras, palavras, alguns sorrisos.
depressa se despe o dia e confessa sem receio
a assunção do crepúsculo, de ser belo o escuro
o nascimento de uma via imperativa.
nos lábios da despedida abrem-se pétalas carnívoras
dentes límpidos e sonhos , muitos sonhos programados
de pecados concebidos
e lembra-se o quadro, o quadro de Matisse
a praia colorida -
Navio de espelhos

Mário Cesariny "Naniora" 1960
O navio de espelhos
não navega, cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
E no mastro espelhado
uma espécie de porta
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
quarta-feira, 23 de junho de 2010
núcleo
.jpg)
Juan Romero " Birds" 1987
não compliques disse o pássaro de fogo.
desamarra do cais a corda forte de sisal.
solta o barco e cala todas as areias
nos cabelos curtos de um tapete cairo.
segue a voz louca das mitologias.
destaca-te como autocolante de uma folha descartável
e cola no mar, longamente na onda
numa baía de Cascais
numa praia .
visualiza terminologias nos braços das rochas
flutuantes, do lado de fora.
reescreve as linhas de um mundo saliente
sobre um manto e sobre o magma
de um núcleo
de alma -
terça-feira, 22 de junho de 2010
estranha chuva de cinza e plumas
.jpg)
Cartier Bresson
fujo da densidade das palavras como de uma armadura pesada
que me baixa os braços sobre dois metros de espada
afonsina, como o nascimento de uma nacionalidade.
sonha-se uma batalha e o resfolegar avantajado do cavalo
que nos avisa: olha ali daquele lado, o sarraceno
não te distraias do perigo;
o perigo das palavras como raios de tempestade
a ser chama, a ser fogueira, a ser a imensidade
de uma sobrevivência original.
a densidade das palavras não perdoa porque não é confessionário
pode ser a voz aberta da terra, do ar, da água, da águia
do jaguar, do tigre, numa selva de fumos
fumos de nicotina a dobrar os alvéolos, os foles
tardios de uma transpiração de ar, oxigénio
e dióxido de noite, densa noite, densa noite
ou denso dia que arrepia e eriça a pele
atenta aos sinais de mais puras nevralgias.
fujo da densidade das palavras e tropeço sempre
em algumas claras facilidades : ver azul na cor azul
o branco no branco, quando nada se limita.
não se pode ter desejo de limite
fronteiras de desconhecido.
a vida existe porque não há morte.
agora. a vida existe.agora.forte
na exigência de um terramoto.
queria ser gazela suspensa e não conhecer o tempo
que conhece o tempo e interroga o tempo
de toda a falta de tempo. Irrita-me a rotina do metrónomo
não fazer pausa no filme para mostrar um torvelinho de pó
a dançar no concêntrico crescer circular, a crescer, a ser
criança de furacão, a cintar braços e medos
a rodar batimentos . à roda. à roda. à roda.
a largar de novo o botão, voltar ao filme, voltar à estrada.
de novo até ao instante seguinte, naquela esquina
um novo tsunami, um fogo de artifício.
fujo da densidade das palavras como se fossem lebres
a correr atràs de um mundo
um mundo imediato que pode ser leveza
ou que pesa, pesa como ferro, como chumbo
sem flutuar como tábua, sem ser asa –
fujo da densidade das palavras
e todas os dias as cruzo na mais estranha chuva
de cinza e plumas -
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