sexta-feira, 4 de junho de 2010

indeterminação


Fotografia de Kiran

não sei porquê este pensamento se ainda há pouco
fomos sempre - minutos e minutos tão serenos
não sei porquê se ainda há pouco
fomos tudo - senti-me tão seguro

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A lenda do Homem-algo





Parte de mim está vestida a rigor para o diálogo
e leva rosas na lapela e supernovas no epitélio
lingual e chocolates na mansidão para a sua amada.
A outra parte recebe estes presentes todos
ao pormenor no conforto de sua casa.
Depois escreve uma carta que a primeira parte
não pode nem ousa decifrar.
A primeira parte de mim parte-se em bocados e chora,
e o choro mancha-lhe a elegância, murcha-lhe as rosas,
apaga-lhe as supernovas e desmancha os chocolates.
Uma vez nua e consternada, a minha primeira parte
resolve mais uma vez contra-atacar
e usar a sua nudez e a sua consternação
a favor do bem comum e da lógica indivisa das galáxias
mas a minha outra parte e o seu universo continuam
em contracção e eu, aproveitando o intervalo
e o debate aceso entre o governo e a oposição,
tomo o partido do que está a mais
e um comprimido da classe dos inevitáveis
e vou-me deitar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

sabor a chocolate


retirado da internet

uma mão sobre o teu seio – acalma
o beijo numa pálpebra – acalma
um sopro nas brasas a chama alta – acalma
o suspenso lugar de um tempo que aguarda – acalma
uma folha fresca de palmeira numa praia – acalma
o corpo pele de seda na ternura de um embalo – acalma

e calmo sobressai o desejo
que cai açucarado
e sabe sabe
no sabor íntimo a chocolate-

de ombros subidos


Salvador Dali "cão dormindo na sombra do mar" 1950

no amanhecer de sol farto
ganha raízes a mágoa.
cobre a alma
soçobra breve na resistência de muralha.

por sobre a língua prova-se a pimenta
o picante externo e azedo de ervas
algumas ditas de aromáticas.

em alguma manhã brisa e um mar
leve, de leve para não acordar, de leve
para cintar a mágoa num búzio de chumbo
cinzento e inerte reboando tudo
dentro, dentro de uma mensagem presa.

o sol marca a pele nua, morena
não enchuva nem enmolha
permanece no silêncio do corpo e da voz.
não incomoda enquanto o mar cobre
cobre de altura os pés nos dedos de água
e areias sobre, sobre os dedos
por sob os dedos, repartindo o brilho
de ondas, leves ondas livres pintadas de branco.

de ombros subidos, subidos do meio do chão
os olhos num saco de raios, pousados
nos verdes limos das rochas escorridas
a condicionar as algas de serem grossas e carnudas
nas voltas dos tornozelos
de terem borbulhas nos alvéolos de génese
de outras folhas, macias e húmidas.

o sol é bravio, insistente, forte, de olhos quentes
e as algas seguem os passos sem mágoa
a mágoa presa no búzio de metal
búzio de metal, de chumbo –

brisa. a brisa de alguma manhã segue os ombros
e os cabelos agora curtos que desnudam a coluna
- a brisa sopra, fresca arrepia, causa uma hirta melodia
intermezzo de piano em saliências visíveis.

o viajante caminha, sonha e sobrevive-

Still Life




Há um momento em que, de facto, se faz justiça.
Quando o silêncio demove as coisas do seu suporte terrestre.
E as coisas continuam pousadas no peso de serem assim,
tanto quanto o destino,
deixando contudo à sua volta uma mancha de hipocrisia
(ainda não há fraldas para a incontinência das coisas
que sabem que voam, mas fingem o repouso
a preços baixíssimos.)

terça-feira, 1 de junho de 2010

permanência


fotografia retirada da internet

um segundo no intervalo de cada segundo
um minuto depois de cada minuto
meia hora em hora a meio;
metade de um tempo cheio

inflamas em flâmula a chama indefesa
permanência e desejo -

segunda-feira, 31 de maio de 2010

caem berlindes pela calçada


fotografia de Joana Campos retirada do site "Olhares"


caem berlindes pela calçada.

nada se sente de natural. não passam carros.
um silêncio de avestruz em intervalos de ruído.
de berlindes. multiplicados de vários sons.
sons de vidro. vidros. transparentes. de berlindes.

caem berlindes pela calçada.

no céu um motor em chamas. chamas. amarelas.
a fuselagem de cartão separa-se. um ovo descosido.
passageiros revisitam interiores humanos. histórias.
acertam as dízimas de costas direitas.
alguns falam mais alto.
as asas partem como capas de açúcar de jesuítas.
em mil bocados. há rezas de bíblia sagrada.

caem berlindes pela calçada.

o comboio partiu às dezanove de Berlim
a escarpa cedeu de muitas águas. caíram pedras
a leste da linha federal.
a garganta metálica dos carris esfuma o trinco
fecha as rodas. rotações paradas. os murmúrios.
passageiros escutam, esperam, murmuram
a ausência de um estrondo. alguns falam mais alto.
não rebenta o balão de oxigénio. os pulmões
cheios de ar que estanca. pára a pesada lata.
um susto. apenas um susto. aguarda-se.
aguarda-se de costas apertadas nos bancos.
bancos de napa. bancos verdes de napa.
faz-se escuro. o gerador acende luzes
e é noite. noite escura. depois a madrugada.

caem berlindes pela calçada.

não há só desertos no Iraque.
poços de petróleo insonorizados.
em tempos houve bunkers como retábulos
retábulos de uma ira. uma ira atómica.
o bunker dos fracassos cala a voz das ruinas.
a voz dos antepassados. voz de mortos.
à voz dos mortos juntam-se ainda mais mortos
de mercados , escolas, hospícios – os inocentes
de mãos quedas e corpos ainda moles
nos artifícios do fogo. fogo que sai de dentro.
na glória do espírito. do sacrifício. do sacrifício
santo e inútil. injusto e energúmeno.
um golfo de golfadas. golfadas de rios. intifada.

caem berlindes pela calçada.

não é natural o estado branco.
no interior próximo de uma casa de vidros duplos
estabelece-se um código de tempo parado.
o descanso. batem as portas e as portadas
que encerram a luz por dentro. folheia-se livros.
algumas páginas. apenas. apenas algumas páginas.
não se descobre a invasão branca. de fumo.
de fumo no silêncio de pratas e cristais reluzentes.
o estado branco envolve. retira a cor das casas.
expande e invade. sem carros como um corpo grande.
grande de branco. sem nada. para além dos ruídos.
ruídos de vidro. berlindes. que caem. caem.
longe. cada vez mais longe. em intervalos. pela calçada.
um ruído cego. mais longe. mais longe.
a rua inclinada –

caem berlindes pela calçada.

pecados espalham-se de muitas células.
a humanidade perde-se até ao mar.
há crianças de rosto pequeno no tamanho grande
de olhos. olhos que falam. imploram. a fome.
a indiferente insanidade de tantos. de tantos.
muitos discursos de abjectos oráculos.
o egoísmo auto-abençoado. reza-se por milagres.
o incómodo de ninguém acreditar. histórias.
mente-se demais. morre-se demais. tanto.
a atmosfera branca cresce numa névoa de inquérito.
multiplica-se. multiplica-se. um espectáculo de fantasmas.
cresce na imunidade de glóbulos. como um exército
um exército que trata. que quer tratar. invade.
é noite. espalham-se berlindes. por todo o lado.
o sono é um sonho acordado. a lua está acordada.
funde-se na nuvem branca. o globo engloba.
é preciso obstruir a indignidade –

caem berlindes pela calçada -

domingo, 30 de maio de 2010

Musgo que dá Vida

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Foram dar banho a Patrícia (1) , mesmo assim não descobriram o seu sexo, desinfectam os seus eczemas, cortaram-lhe o cabelo. Puseram-lhe uma fita azul no cabelo curto, limpara as crostas de sangue nas curvas das orelhas, subia um bocado pelas fontes, a febre de Ana, anestesiada pelos calmantes. Fumou um cigarro no jardim do Hospital Psiquiátrico. Ficou sentada muito tempo Num banco de mármore, à sombra de um carvalho.

Não-lhe descobriram o sexo outras enfermeiras: Mas era Patricia, um ser humano múltiplo: Todos nós – No fundo de um lago dois sósias jogavam pólo aquático - estavam sempre empatados. O jogo demorou muito tempo; Patrícia disse que tinha um lago na cabeça. Apagou o cigarro que o médico calcou.


A música é vertical, não se vê mas é no entanto táctil e a maior conquista da Ciência Física ao serviço da Alma: O jogo continuava empatado, dentro da cabeça humana; com duas toucas roxas, o mesmo homem de sexo indefinido jogava contra si próprio e viva num empate do Fundo.
Gostava de ser uma mulher:


Foram dar banho à Patrícia e não lhe descobriram o sexo. Cronos cortou os testículos ao seu pai Úrano e atirou os testículos ensanguentado para o meio do mar. O sangue do sexo no contacto com o sal do mar, gerou uma espuma, pelo sémen de um titã do céu fazer humor com a terra. E da espuma, julga-se que no Atlântico formou-se uma mulher que emergiu: Patrícia foi criada da espuma, Afrodite foi criada da espuma: E Cronos passou a passear pelo lago. E a Patrícia nunca falava do tempo. Um relógio de alta precisão japonês: Era do seu pai: Patrícia meteu-o entre as mamas – O relógio de prata fria entre as mamas: E Cronos mergulhou no lago e ficou a observar os dois jogadores que eram o mesmo, com duas toucas diferentes: às roxas.



*


Do casamento com Afrodite e Hermes, seu filho, nasceu uma criança de sexo indefinido: Patrícia – A hermafrodita que esquece. E nisto vejo a cidade de cima, vejo sempre a cidade de cima e sei onde eles estão: todos os filhos do sangue de Úrano: O planeta era hermafrodita e os pólos vão se unir: Noite e dia, sono e vigília, realidade e ficção, morte e vida, sonho e racionalidade, homem e mulher; espírito e carne (nunca pensei que o espírito fosse assim tão Carnal). A Fusão será única - a Patrícia vai mergulhar dentro do mesmo lago e sair para a rua para beber.

O planeta não pára: o ciclo não se fecha e renova e isso prova-o o coração de Patrícia a bater no peito: coordenado com o batimento cardíaco do seu coração, com o relógio frio entre as mamas

E Cronos passeia-se nas margens, com os pés no musgo, a fazer o tempo avançar dentro de Patrícia: Só há tempo se houver movimento de um ser. E A deslocação de um ser provoca da deslocação no espaço: na boca, na terra –Patrícia riu-se (como se deslocasse as margens de todos os rios sem dar conta: um riso contagiante. Caminhámos um bocado pelos jardins.

Aparece a Memória, a musa mais percersa, no seu bikini vermelho: E Cronos fixa excitado, completamente excitado, e para controlar a ansiedade e diminuir a tensão ordena aos deuses que hajam erupções em vulcões de todo o mundo: para acalmar a libido, os vulcões vêem-se em chamas por todos os cantos, todas as ilhas gregas, toda a Ásia Menor, toda a futura América Latina: Mas a memória é atraente e tudo quer. E Cronos não consegue controlar a erecção, e sai-lhe líquido pré—seminal como o de algumas flores gordurosas. E a Cronos só apetece fazer amor com tudo, fazem amor com tudo e consigo próprio, possuía a memória nas margens frescas do lago de Patrícia. E Cronos puxa a memória e dá-lhe um beijo no pescoço e depois no cabelo; a memória não se vira: Cronos não consegue acalmar a libido e quer possuir a memória de todos os homens, e comprar uma casa perto do lago de Patrícia, e ter os olhos magnéticos que tudo bebem, todas as memórias líquidas (as de todos) e mergulhar no fundo do lago.

E a memória que tudo Absorve compulsivamente chupa de baixo de água o sexo de Cronos, e os vulcões continuam-se a vir , aliviando-se a si e ao planeta: A memória chupa, e o sexo incha de prazer, o farol evangelista dá o sinal, os vulcões param, e Cronos vem-se dentro da boca da memória, e ela que tudo engole freneticamente, absorve algum do seu sémen e outro cospe na água esverdeado: os dois sósias espiam, E A mancha que bóia é o esquecimento e a anestesia. E os sósias vêm cá cima cima como dois peixes famintos e engolem o esperma esverdeado e adormecem abraçados no fundo do lago; Patrícia acende outro cigarro. A Memória volta a aparecer com o seu bikini, e repete-se o sexo oral subaquático, dos quais os dois homens que são o mesmo se anestesiam: e nos quais ficam viciados. E quando a Memória não vem ou vem mais tarde, os sósias ficam de ressaca, e tremem no fundo do lago.

e fazem amor por séculos na água quente do lago de Patrícia, enquanto os dois sósias espreitam no fundo: E o tempo, (toda a motivação só por o ser, é já movimento e acção)

Patrícia faz amor com a música horizontal (de onde vêm o prazer, a vida, a morte)
Patrícia faz amor com a vida horizontal e vem-se sozinha, no seu sexo indefinido, um orgasmo para cima do bolo (Tinha sido fundada por um Ministério, uma Associação que tivesse subsídios para se juntarem e comerem o bolo da Ana, com o leite branco e espesso de um orgasmo de dois sexos. E essa associação reunia-se num palácio com vista para o lago, grandes varandas, com cinzeiros grandes e sumos de laranjas e rissóis: E viam a Ana a afazer amor com tudo o que é horizontal, a Vida, a Música.

Conheci a Ana, levavalhe leite. Tentei que ela fosse comigo ao cabeleireiro, ao médico. Os seus eczemas preocupavam-me. Depois do leite bebia cerveja e vinho com outro sem abrigo ao lado Pingo Doce. Levei-a comigo mais tarde para o Hospital Psiquiátrico: Ela falou-me de um lago. Onde dois sósias jogavam Pólo-Aquático e estavam empatados e *as vezes lutavam e outras vezes faziam sexo dentro das balizasou no meio do campo.. Falou-me que o erro é a única forma de salvação e contou-me a origem do nome sexo e do nome sector. Os seus olhos pareciam de um magnetismo de âmbar, luminoso, um pôr do sol dentro da cabeça a iluminar de dourado o lago: Os seus olhos eram de cor nenhuma: mas extremamente Vitais. Do outro lado do lago outros olhos magnéticos, a chuparem a vida toda para si. Como se pelos olhos lhes entrasse todo o Universo.

Zeus criuou um único ser e colocou-o no planeta, um ser de sexo indefinido; Zeus achou-o feio e tosco e a precisar de companhia. Mandou que o fossem buscar e dividiu em dois; sectarizando, partindo, tornando um ser em dois. O homem ees mulher, cabia-lhes agora a eles serem deuses e eliminar essa secção e criarem eles próprios como deuses. E aproximarem-se na forma e em tudo numa fusão contínua. Patrícia levantou-se a sombra começava a desaparecer e fomos para outro banco, ofereci-lhe um cigarro à e ela continuou.: Riu-se “ A sombra dos lírios masturba a sombra dos homens”

Vivemos um século febril – Disse-me –Já leu Julian Artl? – Respondi que não – O nosso século precisa que a tecnologia se alie ao mais profundo da alma – A tecnologia ser só alma, ( o seu maior instrumento): Preciso de um abraço – Disse-me. Abraçámo-nos durante muito tempo. Eram por volta das seis da tarde.

Precisamos de mergulhar no mais fundo do humano: os seus olhos magnéticos, reflectiam o sol: Precisamos ser todos os outros, aprender com todos, mergulhar dentro dlees, nos seus olhos nas suas nucas, nadar dentro de cada ser humano, Lê-lo e ser também ele: Como se fosse morfina, o sémen de Cronos ( o que tudo faz mover) ou outra poderosa anestesia – o contrário de sentir que a memória cuspia, da cor na morfina para a água quente que e, que logo atraía o mesmo homem, que em dois corpos diferentes, nadava à superfície para com as suas duas para anestesia: Como o sémen liberto do tempo, fosse metadona: O esquecimento

Ficamos a falar durante mais meia hora e tive de regressar ao consultório.

(1) A mesma referida em "Delírio Húngaro"


Nuno Brito

Notícias do Inferno





No inferno, reencarnamos a cada minuto que passa
numa nova comédia viva. E isso cansa, inevitavelmente, cansa
o teatro anatómico do tempo, as estruturas tortuosas
do pensamento racional a que nos tinhamos habituado em vida
e os costureiros da má fé são dos únicos
que não pagam o tributo do zapping genesíaco
para trabalharem dia e noite nas oficinas da inconformidade geral.
Tudo isto pode ser ainda um pouco mais severo
se tivermos em conta que o diabo nunca existiu.

O inferno pode inclusive ferir
a insensibilidade dos espectadores
mais distraídos com questões pirotécnicas
ou com as sessões permanentes de sexo ao vivo
entre os seus conflitos mais nítidos
e toda a organização do festival.

Neste sentido, o inferno não só são os outros,
mas os outros que já não são eles próprios
e eu mesmo quando deixo de ser eu mesmo,
fora dos sessenta segundos que me justificam
e em que ainda é possível assegurar a analogia.

sábado, 29 de maio de 2010

Inquérito


Cartier Bresson "Londres"

Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.

Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.

Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.

Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.

Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.

A ti mesmo, nada perguntes.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'

sexta-feira, 28 de maio de 2010

sublinhar os livros


Vittorio Corcos "Sonhos" 1896


sublinhar os livros ou tomar notas no caderno ao lado
quando as palavras surgem como aves
e as frases voam penduradas nas copas das árvores:
a interior psicanálise.

viajar no TGV da pendular reflexão
colocar vírgulas e vírgulas e vírgulas.
o ponto final é estação bloqueada igual a ordem.
ordem quando a desordem paragem sem forma.
de livros derretem-se estradas por fora dos traços;
lâminas de sabres elfos de batalhas pedras de água.
beneficia-se as notícias das notícias. reinventa-se
genocídios transitórios. máximos sacrifícios
de verdades ou falsas verdades.
edifica-se a definição imprevisível de lugares fantásticos;
argentinos árabes.

estende-se os pulsos por três voltas apertadas
metáforas vivas metáforas mortas metáforas tortas
nos casulos da metamorfose.

os livros como marcas e sinais que ardem;
a alma um labirinto de origem indeterminada
como pássaro de fogo em atmosfera clara
de mármore branco
onde as nuvens são sólidas e por vezes se partem–

os livros não são alimento mas constroem evanescência
ausência de limites os sonhos como ciência -

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cerejas do fundo*

Uma rapariga comia cerejas, descalça na praia, e as ondas vinham e levavam os caroços. E no fundo do mar os caroços davam cerejeiras. E no cimo, com os pés molhados e salgados a rapariga comia cerejas numa praia perto de Nagasaky. Um cogumelo de fogo e fumo formou-se no ar e o mar contraiu-se com as cerejeiras no fundo. E a sombra da rapariga continuou a comer a sombra das cerejas: E as sombras dos pára-quedistas descem, fluorescentes no ritmo sobre a tarde roxa: e a sombra roxa recheia de susto os pescadores, todos eles com ametistas nos bolsos.

Mais tarde Mina cantaria Nagasaky Blues.

Nuno Brito

Os que levam

……………………………………………………………………………………………

De vez em quando uma língua de mármore entra no Aleixo, por entre as nuvens, e leva uma criança: Se a língua quiser leva duas crianças, se lhe der vontade a língua tira três ou quatro grupos de crianças aos seus pais e desaparece. Os pais vão à Segurança Social e a língua não devolve as crianças: E os pais pedem à língua uma segunda oportunidade; que vão tratar da vida, ter rendimentos: A língua recolhe-se para dentro do edifício burocrata e volta sem trazer nada.



Nuno Brito

As Paliças

Estava sentado numa taberna perto dos Clérigos, quando me chamou a atenção a conversa que dois homens tinham à porta enquanto fumavam: ÓH Paliça! – A Paliça que vi pelo vidro cheio de publicidade à Sumol, fez-lhes um sinal obsceno e continuou.

Um deles disse: Esta, se lhe pagarmos uma bola de Berlim ela chupa-nos durante uma hora. A desdentada anda cheia de fome. Parece uma cadela: – Os outros riram-se. A paliça continuou com o cabelo curto e branco, cheia de eczemas na cara.


Mais tarde ao entrar em casa, vi descer pela rua a Paliça, meti conversa com ela; vinha com uma saca com um frasco de metadona e alguns pêssegoa, explicou-me que o seu filho lhe pediu para deixar em casa o frasco, e comia um pão ressesso, que os poucos e frágeis dentes da Paliça iam trincando como um ratinho, mastigando muito tempo para os amolecer com saliva.

A Paliça pediu-me um euro – Eu dei um euro à Paliça e ela deu-me um beijo com a cara cheia de batom de uma loja dos trezentos. Convidou-me a ir a casa dela. Tinha muito gosto que conhecesse asua casa. Falou-me do filho de uma forma vaga. Que estava na prisão a cumprir sete anos, e amanhã ia a Custóisas e lhe ia levar Pêssegos e cerejas e uma caixa de bombons, pediu-me mais um euro, enquanto subíamos. Percebi que a metadona não era para o filho. A Paliça tinha-se habituado a comprar no cimo da rua a um vizinho. Porque o filho estava a ser perseguido por dívidas e não podia ir ao CAT e um dos vizinhos, antigo frequentador do CAT que voltava a recair na heroína, ia todos os dias ao centro para a comprar, e fazia o tráfico dos frascos. A Paliça ia comprar para o filho quando ele estava ainda em casa. Depois ele foi apanhado a vender e foi para Custóias; e a Paliça ia comprar metadona para si. Traficava o seu corpo, e isto não era violento nem atroz, era simplesmente natural; E pensei que nenhum aforismo de Cioran se podia adaptar à vida da Paliça e que nenhum outro aforismo produzido pela humanidade se podia jamais adaptar a uma situação vivida pelo homem. Comemos pêssegos na cozinha. A Paliça parecia-me muito com uma figura que tinha visto no museu da cera em Fátima, quando era criança: uma figura anónima, que num conjunto de outras estátuas tapavam com os seus braços de cera, a luz que irradiava do sol e da aparição mariana. Cera incrédula que se convertia ao milagre. A Paliça disse para eu descontrair no sofá. Imaginei que não queria que a Paliça me chupasse, isso seria sexo oral feito entre duas estátuas de cera, isso assustou-me: Escultura que soube anos mais tarde, tinha sido feita por um artista plástico dinamarquês. Falei-lhe que era escritor e a Paliça, tal como Julian Artl e DJ Kant aconselhou-me a não escrever. Fui comprar fruta e bombons para a Paliça levar ao filho e fui para São Bento apanhar um comboio aleatório. A viagem que comprei acabava perto. Regressei várias vezes ao Porto e visitava com frequência a casa da Paliça, víamos no sofá os programas da manhã, os concursos da tarde, as telenovelas da noite, e outra vez os concursos que ficavam entre as telenovelas e os concursos. A Paliça tinha o comando.


Nuno Brito

fogo nas palavras


Matisse


se deixasse cair o corpo como página
de um livro, um romance, uma fábula
de centenas de palavras
ler-me-ias com cuidado?

nas mãos de um fogão de sala
no fumo de um braço de acácia
despindo cinzas depois de brasas
sem o corpo por imagem
ler-me-ias com cuidado?

no estalar dos dedos
ressoando os cantos da sala
na distância de uma grande estrada
na proximidade de um fogo nas palavras
de verona, de varandas, sem venenos
ler-me-ias como página?

na moldura ausente de um quadro
onde a árvore, o canto de ave reflectido
no grande espelho de um lago de metáforas
e lábios, lábios de asas
voando vassalos, voando vassalos
ler-me-ias como página?

como raíz maior que atravessa o planeta
toda a terra, de uma seiva que não seca
sublimando sementes ebulindo sentimentos
ler-me-ias como página? com cuidado?
sem o corpo como imagem?
se -