quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
(Poema retirado do excelente blog Imaginário Poético de Daniela Paulinelli)
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Seres
não sabia a cor do teu mar.
encontrei sedas como um cego.
sobressaía a lisura que era a tua.
a impressão digital no tamanho dos dedos
tocados de tão leve que mesmo não tocados
soavam harpas e sons doces, sábios. éramos
cegos e internos como náufragos de uma branca tempestade.
unos e abstractos de todos os outros lugares.
não sabia a altura das tuas ondas.
encontrei um desenho de gaivota na forma dos teus lábios
como um cego,
e um sabor a mel de madressilva de mãos em arco
os pés juntinhos.
as gaivotas dos desenhos encontraram as minhas
em alquimia. um bater de asas em sintonia
e um sentido vibrante entre a lua reflectida
e as ondas que ora próximas ora recolhidas
eram tão altas e eu não sabia.
não sabia das boas lágrimas de sal, da maresia
dissolvido ao som dos búzios
como um cego
na hipérbole de um céu
e ser por um segundo deus
e seres -
e ser... e seres...
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
2010 oxigénio na terra
.jpg)
Salvador Dali "céu hiparxiológico" 1960
O champanhe para este ano é de Lamego
sem escadas nem rosário.
As passas mais doces são coríntias
num prato de palmas e aleluias.
Os desejos? Os desejos são sempre muitos
os segredos não denunciados dentro de brilhos
os paraísos de lagoas sem penumbras
e pássaros de fogo.
Uma década e um desejo colectivo.
Para todo o universo como um perfume
que oscile o rosto, eleve na cor da nuvem.
Nem todas as premonições na atmosfera
no planisfério: não há este inverno
máquinas tecnológicas no deserto
nem insectos de chapa, nevoeiro de naves
ventoinhas no caminho de luas
criaturas verdes nos céus de Marte.
Um desejo colectivo: mais oxigénio.
Uma década. A próxima é um mistério;
um oceano de gente esperta
com pés de gelatina na transparência de anémonas?
Ou antes ninfas e ninfos com asas de borboletas
saboreando chá de rosas num campo de violetas?
A década precisa mais oxigénio.
Uma vida menos presa nos fios da aranha.
Cada ser deve ter o seu peso. A balança
deve ser subtil, subtil e leve como o vento
com braços de essência. Invisível.
Sem que ninguém saiba
no meio dos lábios sentirá a alma
E quanto mais leve, mais leve a alma
maior o tempo.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
O silêncio e as palavras não ditas

Amadeu de Sousa Cardoso "Entrada" 1917
O silêncio na presença é dor.
As mãos pousam no regaço ou brincam
nos fios dos dedos, no entrelaço de uma folha
de cabelo, na dobra de ramos cruzados,nos joelhos.
Invisível de futuro nas asas de um ar fresco ou quente
O silêncio guarda as palavras, espera o dique
o soltar das águas, a imparável ou lenta torrente.
O lugar é de íris e breves momentos. Adivinhar,
não ler tudo no descer de pálpebras, húmidas.
Não saber o quanto no brilho reflectido e longuílineo.
Por vezes o olhar resguarda o chão
descansa a intensidade e pausa as chamas, o fogo, a lava
e pára. Pára naquele sinal – a dúvida imaterial. O medo.
O medo é mau, é fraco, descai.
A falta de um clima impede o passo natural. Sofre.
Uma planície afunda, dissolve, destrói
adensa a montanha, prolonga e inclina.
No silêncio se escrevem versos na presença.
Folhas de seda interditas, que não são ditas.
Sentidas.
Melhor deixá-las ir, não dar guarida.
Nos dias de inverno, de flocos a neve gela
corta, fere, esfria, explode a alma de tão fria.
Na dúvida do que podia ter sido, no medo
na ausência, causa dano irreversível.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Aquela nuvem

Aquela nuvem
Parece um cavalo...
Ah! Se eu pudesse montá-lo!
Aquela?
Mas já não é um cavalo,
É uma barca à vela.
Não faz mal.
Queria embarcar nela.
Aquela?
Mas já não é um navio,
É uma torre amarela
A vogar no frio
Onde encerraram uma donzela.
Não faz mal.
Quero ter asas
Para a espreitar da janela.
Vá, lancem-me no mar
Donde voam as nuvens
Para ir numa delas
Tomar mil formas
Com sabor a sal
- Labirinto de sombras e de cisnes
No céu de água-sol-vento-luz concreto e irreal...
José Gomes Ferreira, Poesia IV
Desafios
I
Soubesse eu desenhar em versos tantos
Versos em linha, em cruz e circulares
Sem ponto pé-de-flor, triangulares.
E é no ponto cruz, de vida
Que se pintam palavras brancas
De um branco sujo? que abuso.
E refaço esse branco em mais desuso.
II
Corro o mundo nos teus olhos, meu amor.
Parado estou aqui, neste lugar
De onde alcanço todo o universo.
Em verso me parece que cheguei
Atrasada.
Como pão-de-ló da avó
De chancas nos ovos do meu avô
Gemas e claras yô-yô
Em bolos e açúcares do que sou.
III
Levo socos em chávenas de chá
Para a terra do lado de lá.
Buscar-te do outro lado do mar.
Não quero ouvir-te em concha
Não ouço assim o teu eco e só me perco
Em harpas e sons meros dissonantes.
IV
No jardim o cipreste que secou
Tinha atado um balão azul
E cordas brancas no ar de Zepellin.
Subo na sua sombra desmaiada.
Sinto a tua luz a embriagar-me
E fico nessa sombra que me dói.
Que me doendo fica mais sombra
À roda duma perna que me tomba.
V
Mas que mania, esta dos decassílabos
Um muro breve só de dez pedras.
Corro a subir, a ver se toco.
Mas longa é a distância aonde moras.
Amoras me adocicam as esperas
Tornam mais leves as esporas.
A dor ficou aqui. Eu já não estou
De sabrinas a subir ao alto céu.
VI
Solta-se um branco som surucucu.
Será susto ou chama de fundo azul?
Uma borboleta perde as asas.
Naufragam em versos de águas rasas.
Lisa porta em que não comeste
O pão seco e duro
Seco o Eufrates – muito mais que o Tejo
Ana Luísa, Clara, Ana Janeiro,Inês,Joana, Elza, José Almeida, José Ferreira
P.S. Estes versos foram escritos no desafio de apenas se conhecer o verso anterior. Sendo assim quem terminou desconhecia em absoluto a forma como tinha começado o poema.
Soubesse eu desenhar em versos tantos
Versos em linha, em cruz e circulares
Sem ponto pé-de-flor, triangulares.
E é no ponto cruz, de vida
Que se pintam palavras brancas
De um branco sujo? que abuso.
E refaço esse branco em mais desuso.
II
Corro o mundo nos teus olhos, meu amor.
Parado estou aqui, neste lugar
De onde alcanço todo o universo.
Em verso me parece que cheguei
Atrasada.
Como pão-de-ló da avó
De chancas nos ovos do meu avô
Gemas e claras yô-yô
Em bolos e açúcares do que sou.
III
Levo socos em chávenas de chá
Para a terra do lado de lá.
Buscar-te do outro lado do mar.
Não quero ouvir-te em concha
Não ouço assim o teu eco e só me perco
Em harpas e sons meros dissonantes.
IV
No jardim o cipreste que secou
Tinha atado um balão azul
E cordas brancas no ar de Zepellin.
Subo na sua sombra desmaiada.
Sinto a tua luz a embriagar-me
E fico nessa sombra que me dói.
Que me doendo fica mais sombra
À roda duma perna que me tomba.
V
Mas que mania, esta dos decassílabos
Um muro breve só de dez pedras.
Corro a subir, a ver se toco.
Mas longa é a distância aonde moras.
Amoras me adocicam as esperas
Tornam mais leves as esporas.
A dor ficou aqui. Eu já não estou
De sabrinas a subir ao alto céu.
VI
Solta-se um branco som surucucu.
Será susto ou chama de fundo azul?
Uma borboleta perde as asas.
Naufragam em versos de águas rasas.
Lisa porta em que não comeste
O pão seco e duro
Seco o Eufrates – muito mais que o Tejo
Ana Luísa, Clara, Ana Janeiro,Inês,Joana, Elza, José Almeida, José Ferreira
P.S. Estes versos foram escritos no desafio de apenas se conhecer o verso anterior. Sendo assim quem terminou desconhecia em absoluto a forma como tinha começado o poema.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Bom Natal a todos os que por aqui escreveram.
Passava numa livraria, e espreitei a "lista" de poetas que tinha a Antologia, Poemas Portugueses... Fiquei contente por encontrar na "lista", Ana Luísa, fiquei muito contente, gosto dos teus poemas!
E deixo um escrito por estar sempre a lembrar-me que está longe Alguém, enquanto não nos encontramos.
Que dentro de mim varrendo
tão levezinho
deve ser o movimento
rimos sem risos
nem ocorria pensar
do outro lado o mesmo
imediato crer, querer a meu lado, e sei
sabe, a quem perguntar perguntamos
que diferença entre nada e tudo
não esqueço nada é que no tempo, troca
maldição que é bênção
por causa de um pormenor nós que não amarram
melhor, eu e ele, nós!
Passava numa livraria, e espreitei a "lista" de poetas que tinha a Antologia, Poemas Portugueses... Fiquei contente por encontrar na "lista", Ana Luísa, fiquei muito contente, gosto dos teus poemas!
E deixo um escrito por estar sempre a lembrar-me que está longe Alguém, enquanto não nos encontramos.
Que dentro de mim varrendo
tão levezinho
deve ser o movimento
rimos sem risos
nem ocorria pensar
do outro lado o mesmo
imediato crer, querer a meu lado, e sei
sabe, a quem perguntar perguntamos
que diferença entre nada e tudo
não esqueço nada é que no tempo, troca
maldição que é bênção
por causa de um pormenor nós que não amarram
melhor, eu e ele, nós!
Boas festas
.jpg)
Magritte "A grande mesa" 1962
Caras amigas/amigos
Deixem que fale um pouco . Que abra um pouco mais a alma para explicar como é bom haver Natal e recomeçar um Novo Ano.
Quando chega esta época não resisto a recuar a uma soleira de porta onde desde míudo era enviado após o desespero de mãe no lugar das fábulas de doces (os alguidares de masssas a levedar, o contínuo rodar de colher de pau no leite creme, os fios finos da aletria, o arroz mais saboroso, as rodelas de pão seco na seiva branca antes das rabanadas). Colocavam-me nas mãos uns pratinhos de porcelana branca e risca dourada e uma larga taça de amêndoas, avelãs e nozes ( o exercício mais difícil e sempre festejado era o retirar inteiro deste pequeno cérebro fruto da nogueira). Na soleira de granito inicava a tarefa que encurtava as horas e alindava de frutos secos a mesa A mesa na toalha de festa, bordada, enfeitada de pinhas, árvores verdes, motivos de harmonia nas voltas de ponto cruz, aguardando a chegada fumegante de batatas cozidas, legumes em vapores de nervuras, os aromas de lascas apetitosas do Mar do Norte, ditoso peixe da Noruega. O regozijo bom no desviar do tempo, no apertar do sono que evitava a visão daquele senhor de barbas brancas que descia pela chaminé e no nosso caso era obrigado a aterrar directamente no disco ainda morno do fogão. A memória de pequenas prendinhas de chocolate poupadas e saboreadas ao longo de um dia grande de festa.
Portanto, esta que é uma boa memória, acrescentada de tantas outras que junto nos agora já muitos Natais, termina para desejar a todos vós uma chuva de amizade ao recordar todos aqueles que fazem parte, que são. Com todos partilho os bons afectos neste mimo de nos sabermos reencontrar, de permanecer.
Para todos o melhor, o melhor dos anos, a melhor das festas.
Desculpem se me alongo. Mas desejo ainda que em todos viva, (sobre)viva e re(sobre)viva, dentro , a parte mais fluida, essa alma que ninguém pesa nem agarra , a essência, o surreal, o sonho, o sopro de magia branca de um espírito, neste Natal.
Abraços e bjos.
José Ferreira
A mesa e a tempestade

De uma trave no tecto caíram gotas.
Lá fora a tempestade; clarões, relâmpagos.
As quadrículas iluminadas no 1º andar.
A tertúlia dos poetas sem receios de Satã, de noites negras.
Animados de regressos e serenos. Sem desassossegos
no conforto dos afectos, palavras pequenas.
Na cor dos versos como simples borboletas.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Espantalho
O espantalho voou com os pássaros e enjoado em diagonal - braços em cruz
larga vómito lagarta papoila
daquelas muito vermelhas e com pinta
gota a gota
torto da boca
ácida indisposição
que fertiliza
a palha espalhada
em espantosa desintegração
Que desplante!
Ana Janeiro
larga vómito lagarta papoila
daquelas muito vermelhas e com pinta
gota a gota
torto da boca
ácida indisposição
que fertiliza
a palha espalhada
em espantosa desintegração
Que desplante!
Ana Janeiro
Sessão e jantar
Hoje a partir das 18h30 para os actuais e anteriores participantes do curso de escrita criativa em poesia.
Saudações poéticas
Saudações poéticas
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Sim -
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Edward Hooper " Drogaria " 1927
Sim, sabes que é demais
barbas brancas e cor vermelha. As máximas da época.
Perfeito Krisnha Christmas everywhere. A voz rouca.
Ho,ho, ho. A paz que não existe. A guerra é louca.
Porque não a música. O clima concêntrico de uma agulha.
O diamante hi-fi a tocar, a retocar dentro de um círculo.
Espiral. Vai e volta. Repete. Volta e vai. Onde vais? Sair?
Às compras? Entre árvores de folhas luminosas?
Se fosse árvore não queria linhas eléctricas. Esse gasto.
O consumo de uma falsa energia. E então todos os outros dias?
Sim, sabes que é demais
o folclore branco e amarelo. Os circos. Os pobres animais.
Os bolos são todos iguais. Não há reis de favas. Os símbolos
embrulhados, os metais, a insígnia de um deus, de uma deusa.
Na floresta rapa e tira. As maiores clareiras dos pinhais
As pinhas caem, acendem cabelos de fogo. Os pinhões sabes.
Põe um pouco mais de achas. Alimenta. Repete. Vai. Não vás.
Escolhe o canto escondido. O recanto. Como se não os dois.
Aqui na sala imagina trezentos. Escolhe o canto escondido.
Esquece o brilho das pratas. Os castiçais fugazes. As mentiras
reais ou surreais de tão estúpidas e mesquinhas. As mentiras
que te somem os ouvidos. Falsos. Querem que acredites.
Sim, sabes que é demais.
este frio. No Equador está calor. O pai natal de monokini.
As renas de óculos de sol e guarda chuva. A temperatura
por vezes seca, por vezes torrencial e húmida. Dizem.
Não vás. Repete. Imagina mais de trezentos. Fica.
Escolhe o canto mais escondido da sala como sendo
um retalho de notícia. Única. Íntima. De dois. O doce.
Rubro. O pecado de uma dentada no cimo de uma árvore.
Um sussurro. Um nariz ronronado. No canto da sala.
Sim, sabes que é demais
não ser igual. O profano insinuante de um outro lugar.
Cuidar. Criar um outro mundo. Uma estrela de botão.
Que desce o céu. Sobe o chão. Que interessa a lógica?
O sonho é mágico. É mais bonita a ilusão de óptica.
Acreditar. Um livro que ainda não foi escrito. Uma história
deslumbrante. Luminosa. Perene de boas festas
mas diferente -
Sim, sabes que é demais. Não vás.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Muito Urgente - Última Hora - Sessão Aberta com Jantar
Caros amigos
Por impossibilidade da Ana Luísa avisa-se todos que não vai haver sessão hoje pelas 19H00. A sessão com o mesmo programa foi adiada para a segunda data em escolha , isto é, dia 21 de Dezembro pelas 18H30.
Desculpas a todos.
Grande Abraço
Por impossibilidade da Ana Luísa avisa-se todos que não vai haver sessão hoje pelas 19H00. A sessão com o mesmo programa foi adiada para a segunda data em escolha , isto é, dia 21 de Dezembro pelas 18H30.
Desculpas a todos.
Grande Abraço
Ressaca
.jpg)
Dali 1914
Sobre o fim
do fundo do alicerce
no "underground".
caíram duas torres de vidros partidos.
das veias sobra a seiva de tom negro.
inócua de fora. nas labaredas de um inferno
gravítico ao centro.
"chumbático" sob os pés de um Pteriodáctilo
na "marmórica" tumba de uma arca perdida.
Quantos assim. quantos dias assim.
sobre o fim
de olhos "larângicos" e garras de facas
nos retalhos de um corpo íngreme.
o alpinista imprudente caído
branco cisne abatido
à distância breve de um paraíso
e a impune impossibilidade
de uma raiz -
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