terça-feira, 29 de dezembro de 2009

2010 oxigénio na terra


Salvador Dali "céu hiparxiológico" 1960

O champanhe para este ano é de Lamego
sem escadas nem rosário.
As passas mais doces são coríntias
num prato de palmas e aleluias.
Os desejos? Os desejos são sempre muitos
os segredos não denunciados dentro de brilhos
os paraísos de lagoas sem penumbras
e pássaros de fogo.

Uma década e um desejo colectivo.
Para todo o universo como um perfume
que oscile o rosto, eleve na cor da nuvem.
Nem todas as premonições na atmosfera
no planisfério: não há este inverno
máquinas tecnológicas no deserto
nem insectos de chapa, nevoeiro de naves
ventoinhas no caminho de luas
criaturas verdes nos céus de Marte.

Um desejo colectivo: mais oxigénio.

Uma década. A próxima é um mistério;
um oceano de gente esperta
com pés de gelatina na transparência de anémonas?
Ou antes ninfas e ninfos com asas de borboletas
saboreando chá de rosas num campo de violetas?

A década precisa mais oxigénio.
Uma vida menos presa nos fios da aranha.
Cada ser deve ter o seu peso. A balança
deve ser subtil, subtil e leve como o vento
com braços de essência. Invisível.
Sem que ninguém saiba
no meio dos lábios sentirá a alma
E quanto mais leve, mais leve a alma
maior o tempo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O silêncio e as palavras não ditas


Amadeu de Sousa Cardoso "Entrada" 1917


O silêncio na presença é dor.
As mãos pousam no regaço ou brincam
nos fios dos dedos, no entrelaço de uma folha
de cabelo, na dobra de ramos cruzados,nos joelhos.
Invisível de futuro nas asas de um ar fresco ou quente
O silêncio guarda as palavras, espera o dique
o soltar das águas, a imparável ou lenta torrente.
O lugar é de íris e breves momentos. Adivinhar,
não ler tudo no descer de pálpebras, húmidas.
Não saber o quanto no brilho reflectido e longuílineo.
Por vezes o olhar resguarda o chão
descansa a intensidade e pausa as chamas, o fogo, a lava
e pára. Pára naquele sinal – a dúvida imaterial. O medo.
O medo é mau, é fraco, descai.
A falta de um clima impede o passo natural. Sofre.
Uma planície afunda, dissolve, destrói
adensa a montanha, prolonga e inclina.

No silêncio se escrevem versos na presença.
Folhas de seda interditas, que não são ditas.
Sentidas.
Melhor deixá-las ir, não dar guarida.
Nos dias de inverno, de flocos a neve gela
corta, fere, esfria, explode a alma de tão fria.
Na dúvida do que podia ter sido, no medo
na ausência, causa dano irreversível.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Aquela nuvem




Aquela nuvem

Parece um cavalo...

Ah! Se eu pudesse montá-lo!

Aquela?

Mas já não é um cavalo,

É uma barca à vela.

Não faz mal.

Queria embarcar nela.

Aquela?

Mas já não é um navio,

É uma torre amarela

A vogar no frio

Onde encerraram uma donzela.

Não faz mal.

Quero ter asas

Para a espreitar da janela.

Vá, lancem-me no mar

Donde voam as nuvens

Para ir numa delas

Tomar mil formas

Com sabor a sal

- Labirinto de sombras e de cisnes

No céu de água-sol-vento-luz concreto e irreal...

José Gomes Ferreira, Poesia IV

Desafios

I
Soubesse eu desenhar em versos tantos
Versos em linha, em cruz e circulares
Sem ponto pé-de-flor, triangulares.
E é no ponto cruz, de vida
Que se pintam palavras brancas
De um branco sujo? que abuso.

E refaço esse branco em mais desuso.

II
Corro o mundo nos teus olhos, meu amor.
Parado estou aqui, neste lugar
De onde alcanço todo o universo.

Em verso me parece que cheguei
Atrasada.

Como pão-de-ló da avó
De chancas nos ovos do meu avô
Gemas e claras yô-yô
Em bolos e açúcares do que sou.

III
Levo socos em chávenas de chá
Para a terra do lado de lá.
Buscar-te do outro lado do mar.

Não quero ouvir-te em concha
Não ouço assim o teu eco e só me perco
Em harpas e sons meros dissonantes.

IV
No jardim o cipreste que secou
Tinha atado um balão azul
E cordas brancas no ar de Zepellin.
Subo na sua sombra desmaiada.
Sinto a tua luz a embriagar-me
E fico nessa sombra que me dói.
Que me doendo fica mais sombra
À roda duma perna que me tomba.

V
Mas que mania, esta dos decassílabos
Um muro breve só de dez pedras.

Corro a subir, a ver se toco.
Mas longa é a distância aonde moras.

Amoras me adocicam as esperas
Tornam mais leves as esporas.

A dor ficou aqui. Eu já não estou
De sabrinas a subir ao alto céu.

VI
Solta-se um branco som surucucu.
Será susto ou chama de fundo azul?

Uma borboleta perde as asas.
Naufragam em versos de águas rasas.

Lisa porta em que não comeste
O pão seco e duro
Seco o Eufrates – muito mais que o Tejo

Ana Luísa, Clara, Ana Janeiro,Inês,Joana, Elza, José Almeida, José Ferreira


P.S. Estes versos foram escritos no desafio de apenas se conhecer o verso anterior. Sendo assim quem terminou desconhecia em absoluto a forma como tinha começado o poema.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Bom Natal a todos os que por aqui escreveram.

Passava numa livraria, e espreitei a "lista" de poetas que tinha a Antologia, Poemas Portugueses... Fiquei contente por encontrar na "lista", Ana Luísa, fiquei muito contente, gosto dos teus poemas!

E deixo um escrito por estar sempre a lembrar-me que está longe Alguém, enquanto não nos encontramos.

Que dentro de mim varrendo
tão levezinho
deve ser o movimento
rimos sem risos
nem ocorria pensar

do outro lado o mesmo
imediato crer, querer a meu lado, e sei
sabe, a quem perguntar perguntamos
que diferença entre nada e tudo

não esqueço nada é que no tempo, troca
maldição que é bênção
por causa de um pormenor nós que não amarram
melhor, eu e ele, nós!

Boas festas


Magritte "A grande mesa" 1962

Caras amigas/amigos


Deixem que fale um pouco . Que abra um pouco mais a alma para explicar como é bom haver Natal e recomeçar um Novo Ano.

Quando chega esta época não resisto a recuar a uma soleira de porta onde desde míudo era enviado após o desespero de mãe no lugar das fábulas de doces (os alguidares de masssas a levedar, o contínuo rodar de colher de pau no leite creme, os fios finos da aletria, o arroz mais saboroso, as rodelas de pão seco na seiva branca antes das rabanadas). Colocavam-me nas mãos uns pratinhos de porcelana branca e risca dourada e uma larga taça de amêndoas, avelãs e nozes ( o exercício mais difícil e sempre festejado era o retirar inteiro deste pequeno cérebro fruto da nogueira). Na soleira de granito inicava a tarefa que encurtava as horas e alindava de frutos secos a mesa A mesa na toalha de festa, bordada, enfeitada de pinhas, árvores verdes, motivos de harmonia nas voltas de ponto cruz, aguardando a chegada fumegante de batatas cozidas, legumes em vapores de nervuras, os aromas de lascas apetitosas do Mar do Norte, ditoso peixe da Noruega. O regozijo bom no desviar do tempo, no apertar do sono que evitava a visão daquele senhor de barbas brancas que descia pela chaminé e no nosso caso era obrigado a aterrar directamente no disco ainda morno do fogão. A memória de pequenas prendinhas de chocolate poupadas e saboreadas ao longo de um dia grande de festa.

Portanto, esta que é uma boa memória, acrescentada de tantas outras que junto nos agora já muitos Natais, termina para desejar a todos vós uma chuva de amizade ao recordar todos aqueles que fazem parte, que são. Com todos partilho os bons afectos neste mimo de nos sabermos reencontrar, de permanecer.

Para todos o melhor, o melhor dos anos, a melhor das festas.

Desculpem se me alongo. Mas desejo ainda que em todos viva, (sobre)viva e re(sobre)viva, dentro , a parte mais fluida, essa alma que ninguém pesa nem agarra , a essência, o surreal, o sonho, o sopro de magia branca de um espírito, neste Natal.


Abraços e bjos.

José Ferreira

A mesa e a tempestade




De uma trave no tecto caíram gotas.
Lá fora a tempestade; clarões, relâmpagos.
As quadrículas iluminadas no 1º andar.
A tertúlia dos poetas sem receios de Satã, de noites negras.
Animados de regressos e serenos. Sem desassossegos
no conforto dos afectos, palavras pequenas.
Na cor dos versos como simples borboletas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Espantalho

O espantalho voou com os pássaros e enjoado em diagonal - braços em cruz
larga vómito lagarta papoila
daquelas muito vermelhas e com pinta
gota a gota
torto da boca
ácida indisposição
que fertiliza
a palha espalhada
em espantosa desintegração

Que desplante!

Ana Janeiro

Sessão e jantar

Hoje a partir das 18h30 para os actuais e anteriores participantes do curso de escrita criativa em poesia.


Saudações poéticas

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Sim -



Edward Hooper " Drogaria " 1927


Sim, sabes que é demais
barbas brancas e cor vermelha. As máximas da época.
Perfeito Krisnha Christmas everywhere. A voz rouca.
Ho,ho, ho. A paz que não existe. A guerra é louca.
Porque não a música. O clima concêntrico de uma agulha.
O diamante hi-fi a tocar, a retocar dentro de um círculo.
Espiral. Vai e volta. Repete. Volta e vai. Onde vais? Sair?
Às compras? Entre árvores de folhas luminosas?
Se fosse árvore não queria linhas eléctricas. Esse gasto.
O consumo de uma falsa energia. E então todos os outros dias?

Sim, sabes que é demais
o folclore branco e amarelo. Os circos. Os pobres animais.
Os bolos são todos iguais. Não há reis de favas. Os símbolos
embrulhados, os metais, a insígnia de um deus, de uma deusa.
Na floresta rapa e tira. As maiores clareiras dos pinhais
As pinhas caem, acendem cabelos de fogo. Os pinhões sabes.
Põe um pouco mais de achas. Alimenta. Repete. Vai. Não vás.
Escolhe o canto escondido. O recanto. Como se não os dois.
Aqui na sala imagina trezentos. Escolhe o canto escondido.
Esquece o brilho das pratas. Os castiçais fugazes. As mentiras
reais ou surreais de tão estúpidas e mesquinhas. As mentiras
que te somem os ouvidos. Falsos. Querem que acredites.

Sim, sabes que é demais.
este frio. No Equador está calor. O pai natal de monokini.
As renas de óculos de sol e guarda chuva. A temperatura
por vezes seca, por vezes torrencial e húmida. Dizem.
Não vás. Repete. Imagina mais de trezentos. Fica.
Escolhe o canto mais escondido da sala como sendo
um retalho de notícia. Única. Íntima. De dois. O doce.
Rubro. O pecado de uma dentada no cimo de uma árvore.
Um sussurro. Um nariz ronronado. No canto da sala.

Sim, sabes que é demais
não ser igual. O profano insinuante de um outro lugar.
Cuidar. Criar um outro mundo. Uma estrela de botão.
Que desce o céu. Sobe o chão. Que interessa a lógica?
O sonho é mágico. É mais bonita a ilusão de óptica.
Acreditar. Um livro que ainda não foi escrito. Uma história
deslumbrante. Luminosa. Perene de boas festas

mas diferente -

Sim, sabes que é demais. Não vás.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Muito Urgente - Última Hora - Sessão Aberta com Jantar

Caros amigos

Por impossibilidade da Ana Luísa avisa-se todos que não vai haver sessão hoje pelas 19H00. A sessão com o mesmo programa foi adiada para a segunda data em escolha , isto é, dia 21 de Dezembro pelas 18H30.

Desculpas a todos.

Grande Abraço

Ressaca



Dali 1914

Sobre o fim
do fundo do alicerce
no "underground".
caíram duas torres de vidros partidos.
das veias sobra a seiva de tom negro.
inócua de fora. nas labaredas de um inferno
gravítico ao centro.
"chumbático" sob os pés de um Pteriodáctilo
na "marmórica" tumba de uma arca perdida.

Quantos assim. quantos dias assim.
sobre o fim
de olhos "larângicos" e garras de facas
nos retalhos de um corpo íngreme.
o alpinista imprudente caído
branco cisne abatido
à distância breve de um paraíso

e a impune impossibilidade
de uma raiz -

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

elevo-me

elevo-me
acima das nuvens
pairo dormente
e corpo
e mente
ausente

nem vivo
nem morto
nem nada

anestesia
ilusão
intervalo

vida que não quero
ser que não sou

enfeito-me
de Natal
efémero no brilho
que não dura
que não muda

nem vivo
nem morto
nem nada

Regresso ao Desassossego

Agora que te penso e que te deixo
Lembro-me da letargia que me davas
– Esse aconchego tão estonteante –
Mergulhado em mil delírios, sonhos
Mil, sem ânimo viril para o caminho.

Agora, companheiro de infortúnio,
Viajo de regresso ao desassossego,
E não nego que não é fácil este viver
Sem ti – trago o mundo todo sobre mim
E por isso atiço o teu fantasma em mim.

Como era tão mais fácil ter-te à mão
Apagando a minha solidão e a noite
Sempre a trespassar-me. Tu eras o afago
Que eu não tinha, a sensação etérea
Que eu buscava para transpor o meu
Deserto – agonia a corroer-me a alma.

Agora que sou senhor do sofrimento,
E embora pense em ti, ópio aliado,
E nesse tempo aturdido que me deste,
Ensaio outra luz, outro deslumbramento –
Pés firmes no chão experimentando a vida.

2009.12.15
José Almeida da Silva