quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Estão todas as verdades à espera em todas as coisas


Camille Pissarro " Vista de Eragny" 1888


Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O irreprimível delírio




O irreprimível delírio na forma de um sorriso
as flores diversas, jarros,lírios,fetos
de pés molhados na jarra de cristal junto ao piano.
A melodia muda ecoa a sala onde se guardam as pinturas
iluminuras de pequenas surpresas, pormenores escondidos
de aguarelas e óleos.
Escuta-se um mar de silêncios nas cordas surdas e clássicas
de uma "Alhambra" que observa de rosácea aberta o rosto
o olhar direito, os pés cruzados, os braços como réguas
que seguram os outros braços de veludo canelado.
Nos pulsos oscilam as mãos como borboletas presas
nos ritmos inéditos de uma sinfonia incompleta.

Sem ondas, sem espumas o desenho de um gato e uma menina
de António Carneiro, não original, mais pequeno, um pastel
mesmo assim pessoal e autêntico. Ao lado um barco sem remos
ao sabor do rio, sem qualquer fio humano, difuso, sem ruído
no poder imenso da imagem que a cada um se autoriza
de preencher nas margens da nostalgia, a sua nostalgia
em desenhos que surgem e se apagam na poeira dos dias
os dias que sucedem de outros dias
na interminável viagem
do irreprimível delírio.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Já Confúcio dizia


Arte oriental Sumi-ê; a arte do essencial (retirado da Internet)

"A melhor maneira de se ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros."

"Ouvir ou ler sem reflectir é uma ocupação inútil." [ Confúcio ]


Hoje é o aniversário de Confúcio. Lembrei-me o quantas vezes foi citado e resolvi publicar. Ele merece!

sábado, 26 de setembro de 2009

Campos de Morango

Retrato de um Amor



René Magritte " A grande guerra" 1964

Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.

Um quadro nítido





Enquanto traço o poema
um ruído deslizante como um silvo
o perigoso movimento das coisas
a separação de estruturas
o chão treme
a clarabóia ressoa
na abóbada de vidros em cores.

Um quadro nítido.

Duas cadeiras, uma vazia.
A camisa descansa do aperto de seda.
As calças finas e cinzentas.
As lamas soltas e pulvurolentas
nos lábios das solas, caem lentamente.
Um roupão branco cinta o corpo nu.
Os pés como lapas refrescam na cerâmica
da mesma cor branca do roupão
como prolongamento de giz onde a borracha
acrescentou os pés e os tornozelos.
Um silêncio. Uma ausência.

Um quadro nítido.

Lembro-me dela. Os olhos na cor do mel.
O grande eucalipto, as folhas, o aroma.
Inspiro a ternura desse vento Sul.
Os quentes dias de Setembro
as areias lisas, limpas, disponíveis
a praia, a grande praia deserta.
Os marulhos íntimos na posição de "Leonardo"
os braços e pernas abertas, lado a lado
escutando no azul indigo o horário das aves
que passam na procura de alimento.
Eram mais belos os cabelos de sereia,lisos
sem caracóis, sem os rolos pendurados
33mm de películas, fotografias e mais
fotografias que sorriam devagar no quarto
sem luz, entre líquidos e sombras, antigas.

Um quadro nítido.

Duas cadeiras, uma vazia.
Naquela os restos de roupa e esta agora
onde me sento e traço o poema linha a linha
sem rima, em cruz emergente e singular.
Aqui o lugar original, o real, o horizontal.
Ali a história aquilina, o redemoinho
o retiro inventivo, os estilhaços de vidro
caindo, caindo, caindo do alto prédio
que arranha os céus e abre os paraísos
caindo, caindo, caindo até aos granitos
em partículas ínfimas e poeiras partidas.

Um quadro nítido.

Lembro-me dela. O primeiro dia.
Aquele de um lenço que encolhia o rosto
e era findo de nó pequeno e orelhas de coelho.
A gabardine comprida, os botôes de quatro pontos
as botas altas, o calor das malhas
a fivela muito larga de um cinto.
O meu ar rídiculo pousado no seu caminho
como um fardo de chumbo, sem saída.

Um quadro nítido.

Duas cadeiras, uma vazia.
As paredes deslizando de pés grandes
caminhando nos quatro sentidos
abatendo os quadros, encolhendo o espaço
querendo olhares de perigo.
Não! Não é possível!
Nada é mais que um destino!
Guardo a cor dos prados nos meus olhos
uma abóbada de vidros claros e coloridos
ímpares
e tenho amigos -

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ternura


Manet "A leitura" 1868

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"

Em silêncio


Marc Chagall " O poeta " 1911

Esta noite
escondi-me dentro de ti
e não me mexo.
no teu corpo em silêncio
adormeço -

Poema para Galileo


Miguel Ângelo "Criação de Adão" Vaticano 1510

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar – que disparate, Galileo!
– e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação –
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las –,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão, in 'Linhas de Força'

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Na penumbra descosida a claridade


António Gil fotografia 2008

a impressão esbatida num lenço de seda
colocado de modo pouco usual.
a imprecisão de um rosto oval
na penumbra de uma porta entreaberta -
a primeira palavra...
o olhar vertical no corpo magro
como vara de canas junto ao rio
entre olhares finos de junquilhos
e os saltos de gotas de orvalho
nos mergulhos mais pintalgados de rãs.
Sentir os pés molhados no meio do quarto
na longitude de tábuas como charcos movediços
pelo facto de não ser mais a sombra,
a escondida sombra no centro da lua
ao abrigo difuso de uma luz incompleta
que apenas denota a forma, a mão estendida
o brilho próximo da pupila indisfarçada.
a pestana muda
ao desvendar do segredo tímido e inclinado
do teu rosto, dos teus olhos, dos teus lábios
na penumbra descosida a claridade -
a voz húmida de uma segunda palavra...

Esta é forma fêmea



Salvador Dali "Vénus e cupidos" 1925

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

domingo, 20 de setembro de 2009

Suzanne




Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
But that's why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you've always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body with your mind.
And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said "All men will be sailors then
Until the sea shall free them"
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you'll trust him
For he's touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she's touched your perfect body with her mind.

sábado, 19 de setembro de 2009

Sentes,Pensas e Sabes que Pensas e Sentes


Georgia O'Keefe " From de Lake " 1924

Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
Digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A penugem de uma rola



Cézanne "A montanha de Sainte Victoire" 1904


Atrás de uma pedra solta a chave escondida no muro tosco
o limite de um canteiro improvisado onde crescem
as ervas habituais agora secas no mês de setembro.
Não a chamo de casa, ternamente a cabana de pedra como se
possível nas terras duras de um Douro interior.
Aqui no lugar de gravuras históricas, nas madrugadas
frescas, provam-se figos nos braços de árvores frágeis
na posição diagonal, a inclinação sussurrante de perigo.

Aproxima-se o calor inteiro das vindimas, a sorte dos
bagos nos cestos de verga, o encosto dos cachos húmidos
o sumo doce, o primitivo aroma infermentado do mosto.
O Sol de Agosto bateu oblíquo nas gavinas reviradas
deu lugar ao moscatel: colares claros de pérolas
às mouriscas, nos acetinados reflexos de azeviche.

Quente. Calor. Está muito quente. Um arrepio.

Na planície da testa crescem gotas na sombra
de um chapéu largo de palha entrançada.
O ar treme junto ao pessegueiro, estonteia.
No campo é fácil encontrar granitos na forma
de pequenos menhires. Sento-me e descanso .
Penduro o corpo pensativo de Rodin
de punho erguido nas covas da face
e admiro a porta cravejada de tachas
ferrugentas, quadradas, rudes e belas
ao sabor dos excessos das intempéries.

Quente. Calor. Muito quente.

A porta cravejada da cabana, assim a chamo
não é casa, não tem quartos, um só postigo
um só piso, onde circulam lagartixas
os artifícios das aranhas, aqui e ali
um mosquito, algumas formigas.

A mão no esconderijo, a chave, entro
dentro onde respiro o ar infértil
de um lugar só, rodeado de alfaias.
Reconheço a cor da noite
a ponta de um dedo etéreo, invisível
directo ao fio fino de crina
a corda sensível, o som longínquo
de um concerto de Paganini.

Sento-me no chão de um barro cru e gravo
a mensagem de um dia árduo:
"Quem me dera que a vida fosse tão leve
como a penugem de uma rola que tanto voa
como permanece, saboreando o tempo
parada e suspensa."

Enquanto escrevo, passa um lacrau de ar seguro
(sem dar a importância da altitude, o grande humano)
segue o trajecto do muro, da chave escondida
segue um caminho, na espera de círculos de fogo
mas não desanima -