segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Palavras para a minha mãe



Pablo Picasso "Mãe e filho" 1905

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

sábado, 12 de setembro de 2009

Como Queiras, Amor...


Miró "Danger" 1925

Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Peço-te...amanhã o universo


Auguste Rodin "O beijo"

Peço-te o calmo despertar das nascentes
abrindo as noites de luz
o começar de um rio mais próximo do céu.

A quietude escondida de um limbo desliza
(apesar das nuvens e um mar de tempestade)
sabemos que aguarda a hora inquieta
a batida do tambor o crescente embaraço
de um sentimento doce; cascata de mel;
o zumbido atarefado sem teias nem véu.

Não se veste o desejo de dias cinzentos
(podem ser tristes mas há o sonho)
por isso Peço-te o bater de asas de gaivota
nas cidades imperfeitas - ganha o mar
o berço de um rochedo - a ilha
que te abraça como a única árvore.


Sei do gelo e da janela de um só vidro
a alvorada sem imagens - as gaiolas impróprias
de um jardim de rosas plácidas de aromas
dos poemas sobre um campo de arvoredos
mas há o calor de um ar de orvalhos
as cores divisas de um bosque ao longe
onde se cingem os lábios salinos
e os corpos ímpios e originais.

por isso Peço-te os olhos interditos e os navios
o grito crepitante dos assobios
enquanto passam os ventos -

Casa Branca Nau Preta


Edward Hooper "Casas junto ao mar" 1951

Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se...
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro...
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora...
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim...
Há uma interrupção lateral na minha consciência...
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...

As naus seguiram,
Seguiram viagem não sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho...

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão...

Que sonhos? ... Eu não sei se sonhei ... Que naus partiram, para onde?
Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira
Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores?
Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,
Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto
E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir...

Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso ...
Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,
E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.

Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe
A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar...
E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver
São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta.
E eu, parado, mole, adormecido,
Tenho o mar embalando-me e sofro...

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva.
As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga.
Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa.
Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico
E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.

Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia
Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?

Úmida sombra nos sons do tanque noturna sem lua, as rãs rangem,
Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.

Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos,
Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os atos,
Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,
E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas...

A casa branca nau preta...
Felicidade na Austrália...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Trazendo a luz dos barcos


Fotografia retirada da internet

As luzes múltiplas de altas torres projectam a noite
junto à praia de Leça
como almas cintilantes de únicos liames
entre lugares geometricamente omissos.
Sonâmbulo sigo a rota de um muro, um varandim marítimo.
Suponho as luzes na mitologia de um enxame
em movimento cruzado de um Éden em girândola
um zumbido grande na colmeia de um Concílio
decidido, destruindo as torres ácidas
resumindo a grinalda de luzes em relva
em heras num baloiço de braços longos
como adorno de uma casa plana
surgindo do nada num relâmpago
de telhas cintilantes e chamas.
Vejo um rasgo claro de uma janela
sinto o ruído que crepita lenhas
em flâmulas de árvores de frutos
um "pôt-pourri" de aromas
um jogo de sombras.

Um olhar silvestre acalma o mar bravo
que chega de papiros enrolados - frases
de uma voz distante
no bater branco das águas
trazendo a luz dos barcos -

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Hora Mais Exacta





Imagens
que voltavam devagar,
se encostavam a ela sem pudor.
E no silêncio, a esfinge impenetrável,
sabendo-lhe de cor o coração:
desistente dos barcos,
depondo pelo chão de outros palácios
as armas mais preciosas.
“Não posso”, acrescentara
sentindo aproximar-se a hora
exacta.

ANA LUÍSA AMARAL, Imagens, Campo das Letras, 2000: 47

O constante diálogo


Camille Pissarro "Young women and child at the Well" 1889

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'

domingo, 6 de setembro de 2009

Uma voz incompleta


Robert Doisneau "O beijo no Hotel de Ville" 1950

Um sabor de "Straciatella" sobre uvas
e morango na cor certa do desejo.
Um sábado de céu despido veste um mar
de linhas brancas.
Sinto sinais de uma ternura imensa
a mistura salgada que embala
numa escrita de penas, impermeável
aos mares da China;
sonetos salvos no desassossego
de um sentimento maior:
"Amor é fogo que arde sem se ver"
Escrevo as frases alinhadas
nas folhas de um bloco adolescente:
quadrados, nuvens, um quarto de lua
a cor rosa.
Inclino a cabeça um farol de espelhos
e recomeço o texto de franja descaída
nas dunas de uma ganga macia.
Gravo como artesão ourives
o ouro encoberto de almas indeléveis
belas como cálices de fontes puras
céus de mistérios
filamentos de um dossel bordado
reflexos de deusas na minha inquietude.
Há um trilho de lábios no meu diário
uma subida de muitas escadas
sem descanso no meu berço-
continuo os dias e mesmo
quando adormeço sonho a noite
e desfio sem ruído
uma voz incompleta

sábado, 5 de setembro de 2009

espaços quentinhos no Porto

Caros colegas,

serve este post para vos falar de dois espaços muito simpáticos na cidade onde podem assistir a sessões de poesia:

- O Gato Vadio, na rua do Rosário nº 281;

- O renovado Labirintho, na rua Nossa Senhora de Fátima nº 334, que todas as quintas feiras dedica a noite à poesia. Em cada sessão os livros dos poetas lidos sofrem um desconto de 20%.


Amanhã, dia 6 de Setembro, vou a uma sessão no Gato, às 22h. Apareçam! Era um prazer rever-nos. Abraço

Disciplina


Georges Braque "Porto na Normandia" 1909

O trabalho começa ao romper do dia. Mas nós começamos,
um pouco antes do romper do dia, a reconhecer-nos
nas pessoas que passam na rua. Ao descobrir os raros
transeuntes, cada um sabe que está sozinho
e que tem sono — perdido no seu próprio sonho,
cada um sabe no entanto que com o dia abrirá os olhos.
Quando a manhã chega, encontra-nos estupefactos
a fixar o trabalho que agora começa.
Mas já não estamos sozinhos e ninguém mais tem sono
e pensamos com calma os pensamentos do dia
até que o sorriso vem. Com o regresso do sol
estamos todos convencidos. Mas às vezes um pensamento
menos claro — um esgar — surpreende-nos inesperadamente
e voltamos a olhar para tudo como antes do amanhecer.
A cidade clara assiste aos trabalhos e aos esgares.
Nada pode turvar a manhã. Tudo pode
acontecer e basta levantar a cabeça
do trabalho e olhar. Rapazes que se escaparam
e que ainda não fazem nada passam na rua
e alguns até correm. As árvores das avenidas
dão muita sombra e só falta a erva
entre as casas que assistem imóveis. São tantos
os que à beira-rio se despem ao sol.
A cidade permite-nos levantar a cabeça
para pensar estas coisas, e sabe bem que em seguida a baixamos.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Magnólia




Um banco quadrado de tranças loiras
na sombra interior da magnólia
árvore branca.
Sento-me e sinto-me de inconformidade
nos braços esguios de um pensamento;
viagem virtual e singular

cesse a luz translúcida e ausente
quero apagar as partes más
as que esfarrapam
não por fora
dentro
as rugas de um tempo
de copo vazio
néctar de vida
perdido

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quotidiano (Reflexão)



Malevitch "De manhã depois da tormenta na aldeia" 1912

Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.


Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.

Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

Menino


Henri Cartier Bresson

Onde estão os sinos
a procissão
as solenes manhãs de Domingo
na prece, na devoção?

Quero ser de novo menino
de calção
meia branca
e o missal de capa preta
na mão!

Não quero crescer!
Não!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A MINHA ESPERANÇA NUM NOVO AMANHÃ

Que seria de mim, de nós,
se perpetuássemos a convicção da espera eterna,
se perdêssemos a esperança num Futuro
de vermos transformado em presente
um 30 de Fevereiro!

Ambição sublime, para nós realidade,
comunhão bendita à luz do nosso eu
ou de um qualquer Deus...

Só por isso
eu devo sorrir quando triste,
eu não sofro demasiado vendo jovens enlaçados
seguindo seus caminhos mesmo sem rumo!

Só por isso
eu consigo um frágil equilíbrio,
que uma tristeza-revolta me não aniquile,
que uma grande angústia se dissipe,
enquanto espero por te reencontrar!

Só por isso
eu consigo fugir de mim mesmo,
deixando para trás todo um sentir,
tão belo e tão humano que nos uniu,
e que será, por certo, amanhã em nós
vivência constante como outrora,
meu sublime e inacabado amôr!

( António Luíz, Porto -1990; in " EU e O SILÊNCIO",
1994 - 1ª edição / 2008 - Edições Ecopy )

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Imagem minha



fotografia de Martin Munkacsi 1939

Ficas a ler comprazida diante das rosas
silhueta que vislumbrei compus e reanimei.
Tinhas o perfil marcado cruamente pela luz,
as mãos claras no colo, os cabelos despojados
do brilho das cabeleiras soltas, mas juvenis
e sacudidos no início da tarde com alegria.
As páginas balouçavam do mesmo modo que as rosas
porque ao começar a tarde nos dias de Verão
brisas e vapores estendem-se desde o mar
até às margens floridas. No teu banco
adornado por festões de rosas trepadeiras
afastas os olhos do livro não absorta
mas para sempre atraída por inúmeras imagens.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Poemas Revistos"