quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Frutos



Cézanne

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor,
pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Eugénio de Andrade, in Aquela nuvem e outras

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Conversa sentimental



Robert Hardgrave


Conversa Sentimental
No velho parque deserto e gelado
Duas formas passaram há bocado.

Com os olhos mortos e os lábios moles,
Mal se ouvem, a custo, as suas vozes.

No velho parque deserto e gelado
Dois espectros evocaram o passado.

— Recordas-te do nosso êxtase antigo?
— Por que razão acha que ainda consigo?

— Bate, ao ouvires meu nome, o coração?
Vês ainda a minha alma em sonhos? — Não.

— Ah! bons tempos de prazer indizível
Unindo as nossas bocas! — É possível.

— Como era azul, o céu, e grande a esperança!
— Mas é prò negro céu que hoje se lança.

Lá caminhavam plas aveias loucas
E só a noite ouviu as suas bocas.

Paul Verlaine, in "Festas Galantes"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

sábado, 15 de agosto de 2009

Não correm ventos e o sumo é fresco


Magritte "Os valores pessoais" 1952


De dia surgiam surpresas incertas
mais ou menos completas
conforme o humor de Verão
no fresco laminar de um copo de fruta
batido nos ritmos de gelos e vidros.

preferia o toque de páginas descoloridas e similares.
os quadros eram o resultado de um quarto fechado e cheio
em cada folha de múltiplas ideias qual filme de lápis
que se apagava e reescrevia em sequencial serrania;
capítulos de enredo de linhas contínuas em trajes bordados
de cidades, caminhos de terras batidas, de mares navegados.

preferia o toque das páginas em papel de seda, de papiro
e as cores breves de antracites nas sebentas
mas nada tão próximo como a luz intermitente
das fases: luas, águas, nuvens em movimento;
um ecrã que atravessa continentes
em passos de légua que tocam as ilhas
as várias tão diferentes vidas.

rolava de novo pratas escondidas no copo verde liso
um sumo agitado de onde sobressaía a manga tropical
o fruto difícil de fibras protegendo o espalmado limbo;
um rosto de cabelos escorridos depois de um sonho
imaginado personagem de um livro.

não correm ventos e o sumo é fresco
e ao longe ondula ainda a temperatura quente
de uma utopia.

A minha ausência de ti



Chagall "Paris através da janela" 1913

Foi tal e qual o inverno a minha ausência
de ti, prazer dum ano fugitivo:
dias nocturnos, gelos, inclemência;
que nudez de dezembro o frio vivo.
E esse tempo de exílio era o do verão;
era a excessiva gravidez do outono
com a volúpia de maio em cada grão:
um seio viúvo, sem senhor nem dono.
Essa posteridade em seu esplendor
uma esperança de órfãos me parecia:
contigo ausente, o verão teu servidor
emudeceu as aves todo o dia.
Ou tanto as deprimiu, que a folha arfava
e no temor do inverno desmaiava.

William Shakespeare, in "Sonetos"
Tradução de Carlos de Oliveira

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O verdadeiro válido sentido tão simples



Dali "Sonho causado pelo voo de uma abelha em redor de uma romã um segundo antes de acordar" 1944


O verdadeiro válido sentido tão simples:
despertar na aurora calma lançando
os braços como setas no ar morno
de um dossel de cama desfeita
sustendo o olhar fechado de um encontro
de uma mão, dedos, um outro corpo ainda morno
a alça inclinada, o assomar deitado de um seio
janela interior de um desejo macio de algodão
acordando o lobo, o capuchinho, os lábios vermelhos
que se estendem em cima da mesa ao pequeno almoço
de laranjas, pão centeio, o escorregar da manteiga
um pouco de doce
mas não tão doce quanto o primeiro exercício de juntar
os rostos brasindo as cores de raios quentes da praia;
morenas e verdes de ramos nos desenhos de uma flora
nas soltas camisolas caídas junto ao lago branco
toalha de felpo na hora de uma chuva imersa de espumas
no descolar de gotas: um jogo morno de dois corpos.

Válido, tão válido o sentido, sem teorema
como o voo elegante de uma luz de pirilampo
um canto feiticeiro
uma candeia acesa
a fogueira que chama.

noite





Mas a noite ventosa, a noite límpida
que a lembrança somente aflorava, está longe,
é uma lembrança. Perdura uma calma de espanto,
feita também ela de folhas e de nada. Desse tempo
mais distante que as recordações apenas resta
um vago recordar.

As vezes volta à luz do dia,
na imóvel luz dos dias de Verão,
aquele espanto remoto.

Pela janela vazia
o menino olhava a noite nas colinas
frescas e negras, e espantava-se de as ver assim tão juntas:
vaga e límpida imobilidade. Entre a folhagem
que sussurrava na escuridão, apareciam as colinas
onde todas as coisas do dia, as ladeiras
e as árvores e os vinhedos, eram nítidas e mortas
e a vida era outra, de vento, de céu,
e de folhas e de coisa nenhuma.

Às vezes regressa
na imóvel calma do dia a recordação
daquele viver absorto, na luz assombrada.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Visita-me enquanto não envelheço




Modigliani "Jeanne Hébuterne com camisola amarela"


visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto, in 'Salsugem'

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Imprecisos



(fotografia retirada da internet)

Sinto que tropeço nas iluminuras
os dourados reflexos dos intensos amarelos.
Ao trocar o olhar exterior pela minúcia
o encoberto universo dentro
espalho a tinta de um renovado escriba
de algodão à cintura cabelos no agreste vento
recolhendo nos textos antes do destino
os círculos voláteis de um castelo de cartas
onde se risca o ar de asas brancas
ou de frente nas estrelas os morcegos
- cabeças pequenas asas de medo;
à noite cobre-me
o cego aroma de veludos negros
- volúveis imprecisos e humanos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Demasiada Loucura é o Mais Divino Juízo


Patrick Hourihan "Fantastic Duet"

Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente - e és são -
Objecta - és perigoso de imediato -
E acorrentado -

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice

sábado, 8 de agosto de 2009

Amo-te no intenso tráfego


Salvador Dali "Leda atómica" 1949

Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Mar de sentidos


Magritte " A condição humana" 1935


As águas do mar do norte gélidas de frias.
Manhã cedo de passeios nas beiras desse lugar;
passos em fio, marcas de sandálias que se alisam
no silêncio breve e branco das espumas
no ar descomposto das algas, na retenção
azul líquida de vasos, nos pés de bicicleta
em ritmos cardíacos, como ilhas
em movimentos de areia e águas, navios, navios...

Passeios de braços pousados e sombras no olhar
redondas nos sussurros do horizonte
cruzadas de palavras, audíveis, largas:

quem as diz? quem as traz fortes?

essas mãos dentro de mim, abrindo, abrindo...
o pó dos livros, as frases imperdíveis como ecos
sinais que se misturam de tantos, tantos modos
em rasgos longos, fumos, fumos, tantos fumos...
uma lava luminosa, quente, rosa-dos-ventos de rumos
que solta as lágrimas de púrpura, os sorrisos mais firmes
a essência mais límpida de um mar de sentidos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A forma justa


(Fotografia retirada da Internet)



Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

D E S C O M P R E S S Ã O

Procuro compensar a azáfama,
o bulício brutal vivido
com o pandemónio do stress laboral;
o polegar firme
e a polpa do indicador,
premem minhas têmporas,
deixo que o índex se estenda
por toda a minha fronte,
cotovelo esquerdo sobre a mesa,
rodo o pescoço
sinto-o estalar e ranger,
provocando dor surda
por estiramento muscular;
sobrelevo os ombros
despertando dor aguda nos trapézios,
assim permaneço alguns segundos
aceitando dor crucial por intencional;
dentro em breve atingirei
tranquilo relaxamento funcional!

Olhos ainda cerrados, visão dourada,
mar azul em ilha deserta...
a cabeça ainda lateja em torpôr,
mas é silenciada a ansiedade,
vai-se esbatendo a intolerância;
deixo escorrer a fadiga,
regressa o possível discernimento,
e os neurónios mostram-se felizes
por gradualmente poderem retomar
a fisiologia primária em suas sinapses!

Olhos agora entreabertos,
tranquilo, e com alguma serenidade
introspectivamente assumo:
- terei por certo escapado ao infarto,
mas não ao absurdo stress profissional;
- como se pode assim louvar o trabalho ?!


(Antonio Luíz , 16-07-2009 - Poesia pragmática ).

5 POETRIX ( a propósito do Verão )

Condição sine qua non:

- amar na praia
sol e sofreguidão,
verão escaldante no coração.


Alternativa:

Esbracejo no mar,
pertenço-lhe por instinto
após escaldão.

Constatação:

Bátegas de água fresca
temperam gentilmente areia
solarenta.

Relaxamento arriscado:

Gente deambulante indefesa
em praias, sol a pique...
vida desprotegida.

Compensação:

Paixão na orla do mar,
abraços-protecção do sol
intempestivo.


(António Luíz , 28-07-2009 - Poesia pragmática )

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A catedral engolida



Depois daquela poesia a seguir ao almoço
no hábito que não é o nosso
desceu o sono, o farto sentir do cansaço
o abrir de uma rosácea que pedia descanso.
Dessa forma se fecharam os olhos
na calma branca de uma parede incompleta;
lugar onde caiu o quadro colorido
de um prego inseguro e superficial.
Seguiu-se o ruído de mundos leves
entrando e saíndo uma brisa breve de ritmos
escutando o sentir interior das furnas
na forma de sombras de um teatro antigo.

Os véus opacos desvendavam segredos apenas
a pássaros pequenos que debicavam migalhas
acesas sobre a mesa.

Nas almofadas dois rostos em crescendo
sem qualquer indício de faúlha, a faísca
que de lua em sol subia os lábios felizes
(felinos os corpos que quase miam
no jeito encolhido de um beiral de Agosto).
Dormiam, tanto dormiam.


No primeiro acordar foi tão nítido o sonho:
uma catedral engolida de ondas
ao som de um piano no breve instante.
Sobrou suspenso, não deglutido um vitral
filtrando cores de um insensato arco-íris
nos dois rostos calmos como os fenos-
quando não há mais ventos- e o mesmo som, dentro
de uma pequena imensa jarra feita em cima da mesa
de fios finos de estrelícias
aromas de narcisos
nas puras águas de uma ilha
onde habitavam os poemas
e à volta
as almas de todos os rios.