quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Mar de sentidos


Magritte " A condição humana" 1935


As águas do mar do norte gélidas de frias.
Manhã cedo de passeios nas beiras desse lugar;
passos em fio, marcas de sandálias que se alisam
no silêncio breve e branco das espumas
no ar descomposto das algas, na retenção
azul líquida de vasos, nos pés de bicicleta
em ritmos cardíacos, como ilhas
em movimentos de areia e águas, navios, navios...

Passeios de braços pousados e sombras no olhar
redondas nos sussurros do horizonte
cruzadas de palavras, audíveis, largas:

quem as diz? quem as traz fortes?

essas mãos dentro de mim, abrindo, abrindo...
o pó dos livros, as frases imperdíveis como ecos
sinais que se misturam de tantos, tantos modos
em rasgos longos, fumos, fumos, tantos fumos...
uma lava luminosa, quente, rosa-dos-ventos de rumos
que solta as lágrimas de púrpura, os sorrisos mais firmes
a essência mais límpida de um mar de sentidos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A forma justa


(Fotografia retirada da Internet)



Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

D E S C O M P R E S S Ã O

Procuro compensar a azáfama,
o bulício brutal vivido
com o pandemónio do stress laboral;
o polegar firme
e a polpa do indicador,
premem minhas têmporas,
deixo que o índex se estenda
por toda a minha fronte,
cotovelo esquerdo sobre a mesa,
rodo o pescoço
sinto-o estalar e ranger,
provocando dor surda
por estiramento muscular;
sobrelevo os ombros
despertando dor aguda nos trapézios,
assim permaneço alguns segundos
aceitando dor crucial por intencional;
dentro em breve atingirei
tranquilo relaxamento funcional!

Olhos ainda cerrados, visão dourada,
mar azul em ilha deserta...
a cabeça ainda lateja em torpôr,
mas é silenciada a ansiedade,
vai-se esbatendo a intolerância;
deixo escorrer a fadiga,
regressa o possível discernimento,
e os neurónios mostram-se felizes
por gradualmente poderem retomar
a fisiologia primária em suas sinapses!

Olhos agora entreabertos,
tranquilo, e com alguma serenidade
introspectivamente assumo:
- terei por certo escapado ao infarto,
mas não ao absurdo stress profissional;
- como se pode assim louvar o trabalho ?!


(Antonio Luíz , 16-07-2009 - Poesia pragmática ).

5 POETRIX ( a propósito do Verão )

Condição sine qua non:

- amar na praia
sol e sofreguidão,
verão escaldante no coração.


Alternativa:

Esbracejo no mar,
pertenço-lhe por instinto
após escaldão.

Constatação:

Bátegas de água fresca
temperam gentilmente areia
solarenta.

Relaxamento arriscado:

Gente deambulante indefesa
em praias, sol a pique...
vida desprotegida.

Compensação:

Paixão na orla do mar,
abraços-protecção do sol
intempestivo.


(António Luíz , 28-07-2009 - Poesia pragmática )

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A catedral engolida



Depois daquela poesia a seguir ao almoço
no hábito que não é o nosso
desceu o sono, o farto sentir do cansaço
o abrir de uma rosácea que pedia descanso.
Dessa forma se fecharam os olhos
na calma branca de uma parede incompleta;
lugar onde caiu o quadro colorido
de um prego inseguro e superficial.
Seguiu-se o ruído de mundos leves
entrando e saíndo uma brisa breve de ritmos
escutando o sentir interior das furnas
na forma de sombras de um teatro antigo.

Os véus opacos desvendavam segredos apenas
a pássaros pequenos que debicavam migalhas
acesas sobre a mesa.

Nas almofadas dois rostos em crescendo
sem qualquer indício de faúlha, a faísca
que de lua em sol subia os lábios felizes
(felinos os corpos que quase miam
no jeito encolhido de um beiral de Agosto).
Dormiam, tanto dormiam.


No primeiro acordar foi tão nítido o sonho:
uma catedral engolida de ondas
ao som de um piano no breve instante.
Sobrou suspenso, não deglutido um vitral
filtrando cores de um insensato arco-íris
nos dois rostos calmos como os fenos-
quando não há mais ventos- e o mesmo som, dentro
de uma pequena imensa jarra feita em cima da mesa
de fios finos de estrelícias
aromas de narcisos
nas puras águas de uma ilha
onde habitavam os poemas
e à volta
as almas de todos os rios.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

La Cathédrale Engloutie/ Debussy

La Cathédrale Engloutie




Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.

Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.

Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.

Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.

Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.

Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.

Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!

Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?

domingo, 2 de agosto de 2009

Que farei no outono quando tudo arde




Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

Gastão Cruz, in "As Aves"

sábado, 1 de agosto de 2009

Eu Platero


Matisse "A dança" 1910 , óleo sobre tela 260cmx390cm, Ermitage S. Petersburg


Sempre o mesmo "Platero". Crescem as orelhas
encostam-se os cabelos e cai o peso de chumbo
dos meus erros.
Aquieta-se a aurora, permanece a lua
a pulsação límpida das estrelas
que apesar de lenta sempre aumenta
a mesma cor intensa da cereja
a mesma luz e sombra do desejo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Não há pressas



Matisse "A janela" 1916


outra vez Domingo
mas ouve, ouve o que te digo:
não cries amarras no passado
nem sinetes malos de futuros
são como âncoras, levam ao fundo.
saboreia o lado das nascentes
e desce, desce essa encosta
em cada salto do tempo
como quem lavra um campo
na nova maneira antiga;
gotas de suor, botas de sebo
a sombra de um chapéu de abas largas.
e lança, lança a boa semente
no rasgo em linha do arado
uma agora, uma outra à frente.

mas sê atenta, há sempre ervas daninhas
que julgam ser redes de aço, adagas de
peixes vermelhos que nos fecham de buracos
túmulos de onde não há saída...não acredites.
procura o sol, os dias longos do mar
e sente...sente...nunca por nunca penses
que não encontras o cais; porto de abrigo.

escuta...escuta... no fundo do teu olhar
verde e fugidio,sem perguntas nem castigo:

shh...shh...shh...shh...

bem o sabes...não duvides
e sendo assim...ilumina os meus lábios
sem as vestes de domingo...
e se não queres, não há pressas, espero.
mas ouve, ouve apenas o que te digo
nem que seja como amigo.

Allegro

terça-feira, 28 de julho de 2009

Que seja autêntica


Pablo Picasso "Horta de Sant Joan" 1909

Esperei o momento do sossego
sabendo-o vagaroso, ciente de importãncia
qual nuvem rasgada da penumbra pela espada
o gume afiado de um raio certo.
A importância de fazer luz
compô-la nas gotas do cansaço
e talvez por ser assim sair misturada
a realidade de quadras até cinzentas
indiferentes ao nascer da claridade.
O cansaço que é imprudente e exige
o físico latejar, o movimento de pálpebras
a cisma dos olhos no silêncio
o levantar do queixo rugoso e direito
o vácuo tempo improdutivo em contas de ábaco
lentas, insuficientes, presas.
O físico latejar voando além da ponta dos dedos
aos circuitos mais altos na vibração dos extremos
entre o desespero de nada e por pouco alguma coisa
solta, que se entenda...não!... que seja autêntica!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Acaso


Paul Klee- Federpflantze 1919




No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

A propósito de um voo no Canal sem Mancha





A avioneta, asas largas lentas de esqueleto
recolhe de novo o mar, a travessia
amacia a brisa e estende mais longe
o lenço preso de cortinas no elmo
além no cubículo, lugar de um céu;
esse vasto Oceano lateral começa
nas praias brancas da ilha grande
adensa de azuis aos poucos metros
e avança sem medo, Calais, o cais de França.

Quis ser aviador, cruzar em(braços)
sentir livres tempos, ler o vento.

Em pequeno planava corredores de pés plenos
assentes no barulho trémulo de motores
crescentes nos lábios abertos; óculos grossos
de redondos, olhos abertos de sonhos;
cortava o ar no suposto perigo de
atrás das nuvens surgir o inimigo
ou antes o alívio; não ser mais
de um leve esvoaçar, uma cantiga
no bico curvo decidido de uma ave
nas alturas; a companhia, o abrigo
de um olhar no espaço sem degraus
que encanta, solta a alma, anima.

Associo esse desejo antigo ao bálsamo
bebida fresca, som amigo de perder
as rédeas que sufocam e nos pólens
da notícia, ganhar de novo asas
subir ao Paraíso.