quinta-feira, 9 de abril de 2009

O poema do menino de Fernando Pessoa



Gostei imenso de Maria Bethania mergulhada na magia das palavras de Fernando Pessoa

Um samba para o poeta Vinicius

Surreal

Não te posso dizer tudo claro

Não te posso dizer tudo claro
muitas as razões para...
não ainda não agora não acrescento
receios de palavra incerta
como metáfora exemplo dúvida
interior que batente me apoquenta;
um sarilho curvilíneo de quem se perde
na clareira como escuro labirinto.

Não te posso dizer tudo claro
deixo cair as migalhas do indício
embora as sinta imóveis atentas
aguardando uma saída um ruído
nos silêncios tardios.

Não são claros os dias de muitos segundos
(intranponíveis obstáculos nos passos de chumbo)
talvez um dia a gravidade de lua mais leve
mais nossa mais tua nos dê o sossego
de uma noite imensa segura.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Não lhe sei o nome

Não lhe sei o nome apenas imagino
que se ligue de forma plena no sorriso
que embaraça faz cair a pálpebra
a quem sem defesa desmorona na presença
de... não sei o nome já o disse!

Ninfa seda cetim estrela
áurea Atenas que passou num único voo
óvulo de origem na imagem que ficou
presa na retina na ideia no poema
sem o nome nem discurso
de sorriso borboleta!

terça-feira, 7 de abril de 2009

"Eça agora"

Encontrei este vídeo de uma canção que gostava. Achei simples mas terna a animação.
É também um tributo aos Maias de Eça de Queirós nas palavras do meio.

Encontro o Vaso e o Mar



Encontro
A fugir te encontro
Atrás de ti todos os dias me encontro
A paz pode esperar
Tudo torna-se azul claro e
Indizível e transparente.

Encontro
O vaso e
O mar.

Aldeia

Apesar de já nem tantos, ainda há rebanhos, o cão de guarda e os pastores de cajado torto e marcas nodosas. Ainda há sombras protectoras de árvores e algumas flores
que aguardam os cuidados na apanha para a jarra . Por vezes falam as ovelhas nas vozes delas e silva o ar o som agudo de um assobio. Há distâncias mais puras que separam os campos das cidades.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

Páscoa

Não desminto o sorriso de Páscoa
nos brilhos das pratas envolventes
de castanhos chocolates
de amêndoas.

Há a doçura alcaçuza excessiva
em naufrágios redutores nas baías
de marfim e as frases submersas
encaracoladas de palavras não nítidas;
discursos de festas.

Santa sexta sábado domingo
a visita do Senhor, senhor abade
e alguns outros de opa branca,
um poste de crucifixo
escondido no carro mini

A mesa posta:
o cálice de vinho fino liga bem
com o doce de fios de chila
o pudim e a outra doçaria.

Ao toque da campainha
do pequeno sino
todos de roda na porcelana
de aro dourado. As conversas
de circunstância sobre os dias
que passam sem mudança
e os desígnios de futuros
nos sorriso repetidos
dos mais velhos das crianças.

Guardo de esperança na Páscoa
um "Bonjour" de amêndoas de licor.

domingo, 5 de abril de 2009

Um céu e nada mais

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.


Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956-)
in Às Vezes o Paraíso (Quetzal Editores, Lisboa, 1988)


Em jeito de Parabéns à nossa poetisa/ mentora deste blog, que festeja hoje o seu Aniversário, aqui fica mais um poema lindo de Ana Luísa Amaral. Aproveitem!

Les coquelicots

Há princípio

Nunca se sabe se tudo é tudo
ou se algo escapa
o saber é fio de horizonte
de perto se faz longe redondo
é origem de Oceanos o sítio dos mares
o destino dos rios ázimos sem o sal
o plâncton numa pressa de margens
inclinadas.
O saber é nascente sem a queda do Sol
a nuvem dupla que recebe a luz
e destila águas puras contínuas
gotas de elevador a deslizar nas folhas
em sumiço plano nas cobertas do chão;
incompleto e intermédio
construído ou inconstruído
de pressupostos que o são
válidos inválidos ou não.

Há princípio no saber bordamos origens.

Subimos na miragem da princesa no castelo
quanto mais subimos mais alta se torna torre
cresce mais e mais uma escada de cabelo.

Sorrimos subimos sorri
sorrimos continuamos-

Há muitos muitos anos era uma vez
uma pedra no caminho
era uma vez o ìnicio do saber-

Liberdade

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A árvore inclinada e o ninho

Há uma árvore inclinada junto ao parque
em frente à Câmara. Pedra lavada
embranquecida no edifício um da Avenida.

Ressaltam relevos escurecidos de outra
época, não tão lisa, mais vária.

Só uma árvore como atleta de corrida
ângulo agudo direcção ao Sul;
promessa de partida.

Na imagem de sonho subo o tronco
acerco os ramos as crinas de folhas
e parto com ela
direcção ao cais caindo ao rio
flutuando na textura de brilho
de olhar imerso nela a árvore
na raiz da alma dela
acenando as margens pequenas
nos braços grandes do mar.

Há uma árvore inclinada junto ao parque
em frente a Câmara e só agora reparo
um ninho de plumas entrançadas
da mesma cor das pedras claras
sem ovo nem aves
e penso:
quando vierem
quando nascerem
voo com elas.