domingo, 16 de novembro de 2008

um outro olhar... (4)


"quero lá saber..."

mil coisas para fazer, mas estou aqui a encher folhas de papel
tanto compromisso para cumprir, mas estou aqui a juntar pedaços de natureza

quero lá saber
lá fora não tenho tempo para nada
mas quando estou a juntar coisas e palavras, o tempo parece que pára
e, de repente, tenho tempo para tudo

quero lá saber
lá fora chamam por mim, mas eu estou aqui com as coisas e as palavras
não me pedem nada, mas têm-me todo
com todo o tempo que não dou aos outros

quero lá saber
aos que gritam e chamam por mim, só me apetece dizer-lhes -
parem de não ter tempo para usar o tempo

quanto a mim
quero lá saber

insónia...

é bom ter uma insónia e não nos incomodarmos com isso...
depois de umas quantas voltas na cama, com a cabeça cheia de ideias, projectos pessoais, profissionais... por que não... trabalhar, ver televisão... ou vaguear pela net?...
claro que acabei por vir aqui e reli muito do que escrevemos... noutra hora, noutro momento... silêncio quase total... somos mesmo só nós e as palavras...
isto tudo para vos dizer que é bom ter este espaço de partilha, onde nos expômos... e depois percebemos que "o nosso mar inspira outros mares"... e "que os nossos olhares dão origem a outros olhares"...
é interessante este nosso porto d'abrigo...
ia dizer obrigado a todos e lembrei-me do que me disse um dia um amigo quando lhe agradeci o favor que me tinha feito... "a amizade não se agradece, retribui-se"...

sábado, 15 de novembro de 2008

Debaixo da buganvília

Duas almas se tocaram
Há longo, longo tempo
Debaixo da buganvília
Que crescia
Num jardim de sonhos e melaço.

Duas almas esvoaçaram
Dançando ao vento
Debaixo da buganvília
Que crescia
Num eterno e doce abraço.

Promessas e juras de amor
Promessas que a brisa levou
Debaixo da buganvília
Que crescia
Nada ficou.

Mas ainda separadas pela dor
Duas almas não deixaram de sonhar
Debaixo da buganvília
Que crescia
De voltarem um dia a se encontrar.

Elza (Pi)

Soneto de Sentir

Tracei a laranja no pomar teu
Bebi o sumo que dela jorrou
Olhava esperançada o azul do céu
Mas sabor algum minha boca encontrou.

Molhei o corpo na bica de água
Que corre fresca da mina sem parar
Mas minha pele nada se arrepiava
E minh’ alma teimava cristalizar.

No meio dos livros encadernados
Por entre tuas estantes e quadros
Deixei-me estar buscando uma verdade.

Uma folha de papel então eu vi
A mão segurou o lápis e escrevi
Apenas o teu nome, senti saudade.

Elza (Pi)

LA COGIDA Y LA MUERTE

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.


El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
!Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
Cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruelas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oídeo
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El quarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A los lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde,
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
!Ay qué terribles cinco de la tarde!
!Eran las cinco en todos los relojes!
!Eran las cinco en sombra de la tarde!

Frederico García Lorca

Publicado por Maria Celeste

Nota: Este é um dos mais belos poemas de Lorca.
Um poema forte, rubro, arrepiante mas, belíssimo!
Aqui fica, " La cogida y la muerte " especialmente,
para "la nuestra hermana" Maria Angeles Sanz, com
um abraço.

Desencontro

Revejo-te mas não te vejo,
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste...
De mim?


Sinto ainda a ternura
Das tuas mãos
Nas minhas...
No veludo das rosas, da pele
Na suavidade da seda
E do cetim...

Reconheço o brilho dos teus olhos
Em todas as estrelas
Que brilham
Longínquas...
A fio de luz,
Bordadas...

Vejo o teu sorriso macio
Na doçura
Clara e húmida
Das serenas madrugadas...

Escuto a tua voz e o teu riso
Em todos os sons...
Harmoniosos,
Do mundo...
Na água saltitante dos rios...
Nos campos... na rua...
Na música... nas fontes...
No mar azul, profundo...

Revejo-te, escuto-te e sinto-te
Procuro-te...
Chamo-te...
Espero-te...
Nunca te encontrei...não te vi...
Diz-me, amor, porque deixaste
Que me perdesse...
De ti?

Maria Celeste

A fotografia

Tem os cantos em serrilha
e em nada transparece
o momento distante
na fotografia!

Uma gota baça espanta o brilho.
Não se adivinha o instante
que desvia, esconde,
a límpida história além,
agora na ponta dos dedos,
cinco palmos do olhar,
parado, ausente,
naquela fotografia!

O sorriso de sincronia
no fumo do disparo,
no nariz de fole,
não revela
o desfazer precedente...
nem sequer o chapéu alto
atràs do símio,
pequeno, irrequieto,
que sempre acompanha
as máquinas de outros dias!

Vira-se, revira-se,
rodam-se os cantos,
procura-se...
um número apenas,
a cartolina dura, sépia,
da velha fotografia!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

mar


fotógrafo: Ben Welsh

Sentei-me na rebentação
Docemente vinhas beijar-me os pés
De volta levavas um pouco de mim
De volta trazias um pouco de ti
E assim fomos ganhando terreno
Cada vez levavas mais de mim
Cada vez trazias mais de ti
Um dia cobriste-me, fundiste-te
Entrei em ti… pediste para ficar
Prendeste-me… não quis volta


p.s- volto a reforçar o impulso que o nuno deu. obrigada
filinta

Um poema de que gosto

Hoje quero partilhar convosco um poema francês do qual para além do original tenho também a tradução do mesmo feita por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge. este poeta Paul Eluard foi contemporâneo de André Breton e Louis Aragon, faleceu precocemente de ataque cardíaco com menos de 40 anos e foi uma das figuras importantes do movimento surrelista.
Aqui vai o poema

L'Amoreuse

Elle est debout sur mes paupiéres
Et ses cheveux sont dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la coleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.

Paul Elouard "Outras Palavras"


Tradução

Ela está de pé nas minhas pálpebras


Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os dedos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda nas minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o céu.

Tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Dai-me uma jovem mulher...

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
melodias livremente soam e entoam.
Nessa floresta mágica dos sentidos
danço.
Mergulho em pasmos movimentos.
No éter delicado, observo-a dançando
E a sua música é a minha casa
o meu encanto, a minha voz e o meu néctar.
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de encanto
Será as cordas do meu dedilhado
Será, a minha musa dedicada
Com ela, na sombra do encontro.
Dai-me uma jovem mulher, essa musa
Encantada; que sem ela não sou nada.

Elza, Raquel e Céu

Fios de mel

Neste dia de segundos todos
sinto ainda fios de mel nos lábios tolos
e a leve aragem de aroma rosas
nas folhas que junto a ti escrevo;

vento
um afago de ar quente em movimento
nas madeixas transpiradas do cabelo,
torneando o rosto, descendo da árvore,
devorando a maçã...batendo o peito!

Não os vendo de adormecida
os teus olhos de safira,
foge-me a pena, cessam os versos
do poema,
espalho as folhas no lençol...
e também eu
fecho portas e janelas,
escorrego num sossego,
suspiro ao mesmo tempo,
oiço segredos no baloiço
do teu seio...
e esqueço... tudo e todos...
fecho os olhos e adormeço!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

um outro olhar...(3)

“estou triste…”

estou triste, sem saber o que fazer, nem para onde ir

estou triste, apenas isso


umas vezes gosto de mim e adoro o que faço

outras, nem por isso… e fico assim, triste

cabeça baixa, olhos no chão, querendo apenas desaparecer

ficar sozinho… calado… isolado do mundo que faz barulho demais


nstes momentos, apetece-me parar o tempo, desligar o botão e hibernar

meter-me numa campânula de vidro à prova de tudo

ou, se calhar, à prova de nada

por que o tempo não pára, o barulho lá fora é cada vez mais intenso

e não consigo ficar a ver tudo a acontecer


que fazer então?


respirar fundo, levantar a cabeça, olhar para o sol ou para o mar

e fazer como a natureza faz todos os dias

cada dia é um novo dia

poderá ser o primeiro ou o último mas isso não interessa

interessa sim é que é único e que devemos vivê-lo como a natureza faz


como se fosse o primeiro

ou como se fosse o último

Um poema de que gosto

Pablo Neruda tinha a sabedoria simples e profunda que atravessava as paisagens azuis
dos Oceanos e o fez correr mundos nas asas de belas poesias.

Para quem, como a maior parte de nós, foi desafiado a entrar pelas regras dos sonetos, no início do Workshop com a nossa "Prezada" Mestra, aqui vos deixo um soneto de amor que acho de rara beleza

XLV

Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.

Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda o meu coração perdido.

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer.

Pablo Neruda "Cem sonetos de amor"

ups... asneira

Peço desculpa à "imensa" mas acho que fiz asneira e sem querer apaguei o seu "mar"... não me perguntem como consegui porque nem eu próprio sei. Queria responder, porque o seu mar lembrou-me "um outro olhar" que tive em tempos... e apaguei. Tentei repôr e já não deu. Nem sabia que era possível eliminar o que alguém colocou no blogue. Desculpa "imensa" e desculpem todos os participantes no blogue (soumesmonabonestascoisasdainformática...)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um poema de que gosto

Do livro "Primeiros poemas" de Eugénio de Andrade
dedicado a Fernando Pessoa


Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não?