sábado, 15 de novembro de 2008

Desencontro

Revejo-te mas não te vejo,
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste...
De mim?


Sinto ainda a ternura
Das tuas mãos
Nas minhas...
No veludo das rosas, da pele
Na suavidade da seda
E do cetim...

Reconheço o brilho dos teus olhos
Em todas as estrelas
Que brilham
Longínquas...
A fio de luz,
Bordadas...

Vejo o teu sorriso macio
Na doçura
Clara e húmida
Das serenas madrugadas...

Escuto a tua voz e o teu riso
Em todos os sons...
Harmoniosos,
Do mundo...
Na água saltitante dos rios...
Nos campos... na rua...
Na música... nas fontes...
No mar azul, profundo...

Revejo-te, escuto-te e sinto-te
Procuro-te...
Chamo-te...
Espero-te...
Nunca te encontrei...não te vi...
Diz-me, amor, porque deixaste
Que me perdesse...
De ti?

Maria Celeste

A fotografia

Tem os cantos em serrilha
e em nada transparece
o momento distante
na fotografia!

Uma gota baça espanta o brilho.
Não se adivinha o instante
que desvia, esconde,
a límpida história além,
agora na ponta dos dedos,
cinco palmos do olhar,
parado, ausente,
naquela fotografia!

O sorriso de sincronia
no fumo do disparo,
no nariz de fole,
não revela
o desfazer precedente...
nem sequer o chapéu alto
atràs do símio,
pequeno, irrequieto,
que sempre acompanha
as máquinas de outros dias!

Vira-se, revira-se,
rodam-se os cantos,
procura-se...
um número apenas,
a cartolina dura, sépia,
da velha fotografia!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

mar


fotógrafo: Ben Welsh

Sentei-me na rebentação
Docemente vinhas beijar-me os pés
De volta levavas um pouco de mim
De volta trazias um pouco de ti
E assim fomos ganhando terreno
Cada vez levavas mais de mim
Cada vez trazias mais de ti
Um dia cobriste-me, fundiste-te
Entrei em ti… pediste para ficar
Prendeste-me… não quis volta


p.s- volto a reforçar o impulso que o nuno deu. obrigada
filinta

Um poema de que gosto

Hoje quero partilhar convosco um poema francês do qual para além do original tenho também a tradução do mesmo feita por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge. este poeta Paul Eluard foi contemporâneo de André Breton e Louis Aragon, faleceu precocemente de ataque cardíaco com menos de 40 anos e foi uma das figuras importantes do movimento surrelista.
Aqui vai o poema

L'Amoreuse

Elle est debout sur mes paupiéres
Et ses cheveux sont dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la coleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.

Paul Elouard "Outras Palavras"


Tradução

Ela está de pé nas minhas pálpebras


Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os dedos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda nas minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o céu.

Tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Dai-me uma jovem mulher...

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
melodias livremente soam e entoam.
Nessa floresta mágica dos sentidos
danço.
Mergulho em pasmos movimentos.
No éter delicado, observo-a dançando
E a sua música é a minha casa
o meu encanto, a minha voz e o meu néctar.
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de encanto
Será as cordas do meu dedilhado
Será, a minha musa dedicada
Com ela, na sombra do encontro.
Dai-me uma jovem mulher, essa musa
Encantada; que sem ela não sou nada.

Elza, Raquel e Céu

Fios de mel

Neste dia de segundos todos
sinto ainda fios de mel nos lábios tolos
e a leve aragem de aroma rosas
nas folhas que junto a ti escrevo;

vento
um afago de ar quente em movimento
nas madeixas transpiradas do cabelo,
torneando o rosto, descendo da árvore,
devorando a maçã...batendo o peito!

Não os vendo de adormecida
os teus olhos de safira,
foge-me a pena, cessam os versos
do poema,
espalho as folhas no lençol...
e também eu
fecho portas e janelas,
escorrego num sossego,
suspiro ao mesmo tempo,
oiço segredos no baloiço
do teu seio...
e esqueço... tudo e todos...
fecho os olhos e adormeço!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

um outro olhar...(3)

“estou triste…”

estou triste, sem saber o que fazer, nem para onde ir

estou triste, apenas isso


umas vezes gosto de mim e adoro o que faço

outras, nem por isso… e fico assim, triste

cabeça baixa, olhos no chão, querendo apenas desaparecer

ficar sozinho… calado… isolado do mundo que faz barulho demais


nstes momentos, apetece-me parar o tempo, desligar o botão e hibernar

meter-me numa campânula de vidro à prova de tudo

ou, se calhar, à prova de nada

por que o tempo não pára, o barulho lá fora é cada vez mais intenso

e não consigo ficar a ver tudo a acontecer


que fazer então?


respirar fundo, levantar a cabeça, olhar para o sol ou para o mar

e fazer como a natureza faz todos os dias

cada dia é um novo dia

poderá ser o primeiro ou o último mas isso não interessa

interessa sim é que é único e que devemos vivê-lo como a natureza faz


como se fosse o primeiro

ou como se fosse o último

Um poema de que gosto

Pablo Neruda tinha a sabedoria simples e profunda que atravessava as paisagens azuis
dos Oceanos e o fez correr mundos nas asas de belas poesias.

Para quem, como a maior parte de nós, foi desafiado a entrar pelas regras dos sonetos, no início do Workshop com a nossa "Prezada" Mestra, aqui vos deixo um soneto de amor que acho de rara beleza

XLV

Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.

Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda o meu coração perdido.

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer.

Pablo Neruda "Cem sonetos de amor"

ups... asneira

Peço desculpa à "imensa" mas acho que fiz asneira e sem querer apaguei o seu "mar"... não me perguntem como consegui porque nem eu próprio sei. Queria responder, porque o seu mar lembrou-me "um outro olhar" que tive em tempos... e apaguei. Tentei repôr e já não deu. Nem sabia que era possível eliminar o que alguém colocou no blogue. Desculpa "imensa" e desculpem todos os participantes no blogue (soumesmonabonestascoisasdainformática...)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um poema de que gosto

Do livro "Primeiros poemas" de Eugénio de Andrade
dedicado a Fernando Pessoa


Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não?

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um sopro leve de brisa

No azul do horizonte
o astro puro ilumina,
incandesce, queima,
elimina,
medos, melancolia!

Tarde lenta em devaneio
no areal da praia lisa.
No intervalo das dunas,
entre o mar e o receio,
descanso no teu olhar.

Resta o contorno do rosto,
um sopro leve de brisa,
um silêncio que enfeitiça!

p.s. parece que todos gostamos de mar e o Nuno disparou o Click!

Ausência

O mar do Nuno, lembrou-me uma certa praia. Abandonada há muito, num caderno, também ele há muito abandonado...


A tua infinita ausência
enche esta praia deserta.
O vento das palavras
varre o areal
liso, imenso.
As algas
adormecidas despertam,
esquecidas de que um dia
foram beijos...

Aqui, nesta praia
as ondas morrem
num longo gemido
cortado pela noite.

Um gato chamado Freud

Hoje lembrei-me de vos contar uma história diferente, de pequenos quotidianos que geralmente guardamos só para nós. São aqueles nadas que nos preenchem, que batem freneticamente como as asas de libelinhas enquanto piscamos os olhos, com vontade de ser câmara lenta, e apreciar aquela energia inesgotável que as coloca suspensas no ar.
Começa assim:
Era uma vez uma família que tinha vários gatos, um branco de algodão com poucas manchas de mel na mesma cor dos olhos felinos, mais antigo, mais ronceiro gostava de estar à janela num sossego adormecido. O segundo mais tigrão , tanto tinha de tons de selva como de esfomeado e comilão que tornava diminuto o focinho pequeno, esfíngico, na imprópria relação com o tamanho da farta pança. O terceiro e o mais novo, branco com algum beige, olho azul, elegante e brincalhão, atingiu um dia aquela fase das vidas da cidade que obriga à castração. Foi rápida a operação, mas não sei se por causa da anestesia, da injecção, dos comprimidos, dos doutores, de alguma inusitada reacção, ficou o bicho, até aí tão caseiro e tão manso, um pouco baralhado, saindo de casa fugido pelos quintais, pondo em grande alvoroço e enorme preocupação toda a família aos berros pelas ruas, alertando vizinhos, na procura do seu gato durante três dias e três noites, até que por fim surgiu a paz do reencontro e até à data não houve mais episódios, vivendo feliz e contente aos pulos e saltos nos verdes do jardim, perseguindo objectos voadores perfeitamente identificáveis.
Falta a razão desta história, o nome do gato "Freud" e o poema que escrevi quando de novo voltou ao lar:

FREUD

Freud bigode farto
não era bicho de mato,
andorinha, colibri,
arara, urubu, rato,
tigre, leão, elefante,
àguia, corvo ou sapo,
era um simples felino
adorado, doce gato!

Pelo branco tisnado
de pouco beige esfumado,
ensonado, repentino,
jovem, descuidado,
alegre, de pouco tino!

Quis a história contar
que não tendo descendência
(devido às bolas tirar)
zangou-se, foi passear
para outra residência!

Voltou de novo à razão
às saudades do lar,
feliz, mais brincalhão,
sem miau-us de arrepiar,
com ron-rons de D. João...
só queria namorar!


Concerteza imaginam que para esta família e para todos de uma forma geral, depois do grande susto, não há nada melhor que um final feliz!
Gostei de partilhar esta pequena história convosco!

Um outro olhar...(2)

“no meio do mar...”




no meio do mar sinto-me o dono do mundo

sonho, grito, falo com as estrelas e com o sol

faço amor com as sereias e brinco com os peixes


no meio do mar, eu sou autêntico

pois consigo ser, simplesmente, eu

e não tenho medo de nada

nem das correntes, das ondas ou do maior peixe que existe


como poderia ter medo no meio do mar?

não há guerras, fome, nem crianças maltratadas

não há mentiras, nem ódios e vingança é palavra que não existe


é tão bom estar no meio do mar

sozinho, solto e disperso

sentindo-me o dono do mundo

do meu mundo…

domingo, 9 de novembro de 2008

A menina das sandálias

Junto à berma dos caminhos
tufos solares de giestas,
urze e violetas,
o carmim, o rosmaninho!

A menina das sandálias,
saia curta subida,
estendia,
mãos de concha
junto à àgua cristalina!

A infância descia
as curvas zonzas da estrada;
olhos fechados,
junto à minha,
tua alma dormia!