sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A casa que habito

A casa que habito
não tem lembranças nos ladrilhos
não tem porta presente
porão de passado
janela pro futuro

Na casa que habito
as notícias não passam da soleira
com o irônico capacho de bem-vindo
– todos pisam na hospitalidade
e beijam a porta na cara –
as ‘novidades’ amarelam do lado de fora
e são abandonadas em alheias varandas
que o mundo insiste em enganar
com tragédias velhas
repetidas à exaustão

Na casa que habito
ouço o sussurro das tábuas
o gemer dos pregos
nada é concreto
tudo é devaneio
acredito em papais noéis
só não tenho chaminés

Na sala há uma cadeira de balanço
que só vai e nunca volta
No quarto, uma cama de casal solteira
com uma mancha de arrependimento no lençol
Na cozinha, o relógio está sempre faminto
com os ponteiros devorando as madrugadas
e regurgitando escuridões nas horas de luz

A torneira da pia do banheiro
goteja solidões
a banheira é colo
o corpo nu fetal
o eco dos azulejos embaçados
e o choro primordial
de um parto sem útero

A casa que habito
não está em rua alguma
encontra-se em um eu desconhecido
na alameda dos ausentes,
sem número.



André Telucazu Kondo