terça-feira, 26 de janeiro de 2016

a casa sem raízes

     imagem daqui

sempre que as nuvens sobressaem
observo os pormenores redondos sem vincos definidos.
a leveza em equilíbrio, descontínua.
estamos sempre em viagem, em aberto, não existe o vazio.
o vazio é uma abstração humana em certos dias.
a interminável serpentina do pensamento avança no interior daquele comboio de Kundera
de estação indeterminada: o comboio que leva a tua história, as tuas mãos e o teu rosto
naquela porta que se abria, rodando o trinco sem ruídos
sem a brutalidade das engrenagens que gritam.
as janelas estavam vivas e as paredes não existiam. era uma casa física sem espíritos.
o mundo era só um, de raios azuis, de lábios vermelhos que se entendiam, sem ideologias –

quantas noites e quantos dias. e depois aquela telha partida, uma pinga, duas pingas
um balde de plástico que se enchia. quantas noites e quantos dias, o silvo do maquinista
a estufa de carvão, o fumo, mas o fumo é indício, o comboio partia –

não consigo fechar os ouvidos, tapar a boca daquela noite, o candelabro sem luz
um tridente escondido a subir a avenida. era inverno e tu sabias -
as nuvens rodeavam a laranja azul, esse planeta de luzes –

receava os símbolos e as tricotomias, colecionei as imagens aditivas, num rodopio.
mas não pude adiar, voltei ao mundo das palavras cristalinas:
a linha contínua que encobre e descobre, como um tricot das Ilíadas.
havia muitas, sabias? pelos caminhos, em mnemónicas repetidas –

as palavras e os teus cabelos são incontáveis, infinitos, finos, fogem e deslizam.
algumas palavras como os teus cabelos são sublimes –
é inverno, não vou contar as noites nem os dias. prefiro tocar nos teus cabelos e senti-los.
os sentidos são o oposto das numerologias  e os números não voam, não se elevam acima
são o chumbo de todos os símbolos, o zero do pensamento –

sopra um vento frio que movimenta o ar pela frincha da janela aflita.
não é urgente, um destes dias coloco a espuma que veda esse atrevimento.
proíbo-lhe a entrada. não lhe permito arrepios na fronteira da pele.
ao vento, esse provocador invisível, na casa de portas e paredes frias.
vou desenhar os teus olhos na porta, nos vidros para que as estrelas se iluminem.
é possível enganar o real por momentos, são múltiplos os fragmentos –

já não sei, já não sei se é urgente.
desvalorizamos a experiência, Benjamim já o dizia: são milhares de fotografias

e a casa sem raízes –

josé ferreira 22 de Janeiro de 2015