sábado, 23 de janeiro de 2016

As Casas

Pelas casas que habitam 
em mim
crescem aprumadas 
as trepadeiras
muros altos de verde
impossível 
floridos –
às vezes –
de cores mais quentes.

As casas
como estúdios
indulgentes
entornam a cidade
nas janelas
cantam de amigos e
vizinhança
jardins comunais onde –
de verão –
nascem pimentos e sardinhas
de São João.

As casas
como faróis isolados –
mar imenso
silente ou zangado
única e verdadeira companhia –
habitam a vontade que
em mim
se abriga do mundo
tão agreste. 

Entre as casas que trago
comigo
há corredores extensos
vazios
onde os pensamentos
ecoam
sempre demais.

Há recintos de
sol
nas clarabóias.
E varandas
de vidro claro
onde a
chuva de Janeiro
vem escorrer.

Salas de lume e
gatos
ao colo.

Quartos escuros
assombrados
de medos em vão.

Há cozinhas de
mesas alargadas
a servir
os gostos que a vida traz.

Salinhas pequenas
para costura
onde nada se borda
além da memória –
mãos pequeninas

dedais a cair  
costura de pontilhado
imperfeito
em pano de ternura
inteira. 

As casas
que senti construir
têm despensas repletas
de livros
e lugares cativos
nos cadeirões.

Têm abraços –
secretos e revelados –
que se guardam à beira
da porta, 
no cabide grande
de todos os agasalhos.

Um salão de baile
para as dúvidas
dançarem à solta.

E uma viga mestra onde
se pousam –
como os pássaros –
os absolutos.

Têm sempre um sótão
para sonhar
e uma escada
para subir.

Um jardim com terra
para mexer
uma árvore – ou duas –
a crescer 
ou a florir.

Vou chegando, vivendo e partindo
hóspede
sedentária ou peregrina
de lugar em lugar.

Eu
em casas nenhumas
só o desassossego de
vir a ser
como desconhecida
ou ausente entre
as casas
que habitam em mim. 
raquel patriarca
vinteedois.janeiro.doismiledezassete