quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


A não perder:

DIA 26, SEXTA-FEIRA
22h00 - Mesa 9
O escritor mente, o leitor acredita

Álvaro Laborinho Lúcio
Ana Luísa Amaral
Jaime Rocha
Javier Cercas
Mário de Carvalho
Carlos Quiroga-Moderador
×Cine-Teatro Garrett (sala principal)



DIA 27, SÁBADO
10h00 - Mesa 10
Quantos livros tem um livro

Carmo Neto
Cristina Valadas
João Paulo Sousa
Raquel Patriarca
Vergílio Alberto Vieira
João Gobern - Moderador
×Cine-Teatro Garrett (sala principal)

Programa Aqui

domingo, 14 de fevereiro de 2016

NÃO


Não escreverei um poema que diga
Meu amor,
meu amor.


Marta Pais de Oliveira


CASAS


sobre as casas o que sabemos
que comem insetos por vezes humanos
aos pássaros não chegam
– voam depressa –
respiram de noite e de dia
quando a luz é maior
e a cor inteira



Marta Pais de Oliveira 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

DO JUSTO EXCESSO OU DOS PEQUENOS FURTOS

imagem daqui 

Um dia, num poema,
ao servir-me do verso de um poeta,
cortei-lhe uma palavra

Não foi por mal que censurei o verso:
a distracção, a havê-la,
foi em puro desvelo,
um sentir-me tão quente e abraçada
que lhe errei o seu espaço
por amor

Não foi por mal,
não pensei que esse verso tinha tantas palavras a cobri-lo,
que uma palavra a menos:
ínfimo cobertor em noite
morna

Mas o espaço sem forma
de o verso lá não estar
podia de entre as pedras
fazer nascer a mais rasante cor,
o justo excesso, e mais por isso ainda,
a terra onde vivemos:

bater quase invisível
de haste de girassol,
abrindo brechas pelo chão
do mundo

Não foi por mal o corte da palavra
no verso do poeta,
nem quem depois olhou o meu poema
viu crime de maior

Mas hoje ainda
o roubo me persegue:
pensar num cobertor de sílabas tão leve
sustendo uma paisagem
com sons e gente
ao fundo

Ana Luísa Amaral in E Todavia 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Foto: Gary Lai 

Casulo
que não foste
casa
Descasaco
de mim
Casa
sem asas
onde quase
não voei

Teresa Almeida Pinto  

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A casa que habito

A casa que habito
não tem lembranças nos ladrilhos
não tem porta presente
porão de passado
janela pro futuro

Na casa que habito
as notícias não passam da soleira
com o irônico capacho de bem-vindo
– todos pisam na hospitalidade
e beijam a porta na cara –
as ‘novidades’ amarelam do lado de fora
e são abandonadas em alheias varandas
que o mundo insiste em enganar
com tragédias velhas
repetidas à exaustão

Na casa que habito
ouço o sussurro das tábuas
o gemer dos pregos
nada é concreto
tudo é devaneio
acredito em papais noéis
só não tenho chaminés

Na sala há uma cadeira de balanço
que só vai e nunca volta
No quarto, uma cama de casal solteira
com uma mancha de arrependimento no lençol
Na cozinha, o relógio está sempre faminto
com os ponteiros devorando as madrugadas
e regurgitando escuridões nas horas de luz

A torneira da pia do banheiro
goteja solidões
a banheira é colo
o corpo nu fetal
o eco dos azulejos embaçados
e o choro primordial
de um parto sem útero

A casa que habito
não está em rua alguma
encontra-se em um eu desconhecido
na alameda dos ausentes,
sem número.



André Telucazu Kondo