segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O “poema”

O poema olha-me de viés enquanto escrevo.
Reclama palavras teatrais,
conjugações antológicas:
uma pequenina luz bruxuleante
um ramalhete rubro de papoulas
uma alameda inteira de rododendros


Olho o papel em branco
e o poema agiganta-se
Adamastonda-se
Pede mar, mar, muito mar
(daquele de ir e voltar)
e amor também:
se possível urgente,
com um nadinha de Penélope

Digo-lhe que sou pequena, que não sou nada,
que da minha aldeia não se vê o mundo.
- Mas ser poeta é ser mais alto e por um poema tudo vale a pena.
Responde

Eu não sei conjugar pretéritos perfeitos
nem sonhar em sereno sobressalto,
mas ele exige desinências complexas
e palavras esdrúxulas,
a saber a chocolate e eternidade.
Quer sílabas capazes de atravessar o deserto
sonetos que ardam sem se ver
e odes marítimas a cheirar a pátria

Não sei se o poema me levará no tempo
quando eu já não for eu


No fundo de mim, sei que o traí,
pois ainda não escrevi
o poema que acaba aqui.

Teresa Almeida Pinto


Para além da alusão a vários poemas, este “poema” tem referências directas de:
Uma Pequenina Luz, Jorge de Sena
O ramalhete rubro das papoulas, Cesário Verde
O Excesso Mais Perfeito, Ana Luísa Amaral
Tabacaria, Álvaro de Campos
Ser Poeta, Florbela Espanca
Mar Português, Fernando Pessoa
Poema, Sophia de Mello Breyner