terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Uma Carta Para Emily Dickinson



Porto, 30 de janeiro de 2014



Minha querida Emily,



Sei que me esperavas por estes dias, mas não posso ir como

prometi. Não estou bem, tenho acordado sem alma e sem ânimo, os

médicos não sabem o que tenho e de verdade

que não me podem ajudar porque estou doente nas palavras,



Sinto que já não sei como escrever.



Tenho tempo e papéis e lápis mas não sei como escrever.

A chuva e o inverno já me são insuportáveis. A humidade ensopa os

cadernos, amolece os papéis e faz enrolar os cantos das fichas de cartão

em que vou catalogando as coisas do mundo para as escrever depois. Mas depois

olho para todas aquelas pequenas notas de vida e não as consigo escrever.



Persegue-me um querer que não consegue. 



Tenho alimentado o gato, feito a sopa, tratado das roupas, mantido as coisas nos lugares.

Respiro todas as pequenas ternuras e suporto tudo o resto.

Faço amor, faço as compras, faço as camas,

faço parte do mundo e faço de conta que compreendo as pessoas.

Sorrio compostamente, digo que pois que sim, às vezes encolho os ombros também,

mas evito ter muito que dizer.



Enche-me o silêncio e o enfado. Sobretudo enfado.



O mundo invade-me todos os dias e não consigo

fechar-lhe as portas. Falta-me a planície e o isolamento. Falta-me –

sobretudo – a determinação, e trago-me como numa pausa permanente, tão separada

de tudo. Imagino-te desiludida comigo. Assim sentada e muito quieta, com os olhos

serenos, que te ficaram para sempre na fotografia a preto e branco que guardo nos teus poemas.

Assim sentada e condescendente a ouvir todas as pequenezas de que te falo.



Às vezes quero ser mais como tu.



Tu que escreves com a consistência que eu só posso reconhecer na chuva

que me ensopa os papéis e os cabelos, sem compromissos e sem concessões,

podes - por favor - ensinar-me o ofício de escritor,

Diz-me ao menos se também tiveste vontade de descompor tudo.

De arrancar as cortinas só para as ver rasgadas e caídas no chão

a ganhar pó e pelos de gato. Uma fúria de empurrar para cima de qualquer outra coisa

a falta de sustento que vem e invade tudo. A dúvida e o medo de se poder cair assim

 - desprendidamente - como a cortina a quem se lhe partiu o varão.



E é que tenho mesmo que escrever,

Emily.



Sinto que não sei escrever, mas na verdade não sei fazer mais nada.

Sem escrever não tenho, simplesmente, para onde ir e estou assim,

estupidamente incapaz. E o mal não é do inverno ou da chuva ou

da humidade. O mal sou eu, compreendes.

Todos os dias, entre as muitas coisas de que faço planos, e as

poucas que enganadamente se cumprem, vou mentindo uma,

e outra, e outra vez ainda. Ao mundo e a mim, sobre o desgoverno

que faço do tempo e que não tem remissão. Do tempo e do papel e

dos lápis, que se me confiam sem perguntas e sem reservas, porque nada

sabem da realidade e do mau uso que lhes dou.



Vou contando os dias a tresmalhar-se.



E não sei o que fazer da solidão que me entra em casa e

se acomoda para ficar, como se ela própria tivesse medo de estar sozinha.

Queria visitar-te, Emily, a sério que sim. Falar contigo com vagar e

ouvir-te sem medo e em paz com o que espero de mim,

sentar-me na tua frente que é como se fosse na minha frente.

Um dia de paz, finalmente.





Raquel Patriarca