sábado, 8 de novembro de 2014

Psicanálise da escrita

Mesmo que fale de sol e de montanhas,
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve

Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si

Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou

Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga


Ana Luísa Amaral


O mal de escrever é que nos bastamos a nós próprios!

Estamos lá. Sentimos. Os outros percebem – no ou não.

Há um contexto, que depois se torna texto. Aí somos nós e a escrita. Bastamo –nos. No lápis e no papel, no correr das linhas, estamos ainda mais lá. Já misturámos o sentir, o ser, o desejar, em infinitas perspetivas. A mão faz o resto. O papel guarda- o eternamente.

Teresa Freitas 
Retirado daqui 


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cidade Velha

Muitas vezes, para voltar a minha casa
vou por uma escura rua da cidade velha.
Amarelo em algumas poças se espelha
algum candeeiro, e está a rua apinhada.

Aí entre quem vem e quem vai
da taberna a casa ou ao lupanar,
onde são mercadorias e homens o detrito
de um grande porto de mar,
eu encontro, quando passo, o infinito
na humildade.
Aqui a prostituta e o marinheiro, a mulher
a brigar, o velho que impreca,
o dragão que se senta na lojeca
do fritador,
a tumultuosa jovem enlouquecida
de amor,
são todas criaturas da vida
e da dor;
nelas se agita, como em mim, o Senhor.

Aqui sinto com os humildes com que alinho
tornar-se o meu pensamento
mais puro onde mais torpe é o caminho.

Umberto Saba (1883-1957)
Poesia (uma antologia de Il Canzoniere)
(selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos)