sexta-feira, 29 de agosto de 2014

o impossível esquecimento do ser

imagem daqui

hoje não devia procurar as palavras
virar a esquina
atravessar no vermelho do semáforo.
devia ficar quieto como os plátanos
pousar as pálpebras como asas lisas
e subir a noite
quando as árvores estão sossegadas –

devia adormecer sem fundamentos sensíveis
com as músicas smooth e os teus olhos de prata
nos reflexos dos nitratos, um espelho sob a lua
e um traço branco na longitude dos mares –

há cansaços bem sei, os dias estão tão fechados.
doem-te os braços, as pernas, a curva dos ombros
nunca houve um agosto igual.
a minha cabeça está cheia de sombras nas emoções do lembrado
Benjamim e Hanna, o esquecimento do ser , as metáforas;
as viagens são melhores que as chegadas –

já te disse que as multidões são mais felizes quando há sol?
talvez não, nem interessa, a vida já é tão complicada.
e depois o mar, sim o mar, o mar vasto, o mar gigante
reassumindo a força de cavalos desgrenhados –

o mar é um moinho de palavras
o mar é o sal e as escamas, os continentes são demasiado sólidos
apenas margens.
tão irreal e tão aberto este modo de olhar as águas
agora escuras e agora tão paradas.
e ao mesmo tempo vê-las  assim tão ilimitadas –

escrevo-te num outro dia , os tímpanos são tambores índios
hoje sinto-me um prometeu agrilhoado
os olhos estão cobertos de sombras do passado -

mas a natureza é tão leve no jardim quieto  junto ao mar
tão leve tão leve tão leve, não há ruídos de carros nem som de passos na estrada
a natureza acalma:  aquela folha, aquela glicínia rosada
acalma os sentimentos 
e leva-me as palavras –


 josé ferreira 29 agosto 2014

domingo, 17 de agosto de 2014

a cidade que fluía

imagem daqui

em frente de um vidro duplo de um café vulgar
não passou nenhuma das passantes de Baudelaire.
nem aquela alma singular no meio da multidão
de que falava Poe naquele fim de tarde invulgar.
a cidade roía a corda invisível do tempo sem prisão nem abismo.
fluía na sua indiferença fria dos dias habituais.

e é preciso tão pouco
tão pouco e mais nada
para que te estenda a mão –

como quem desprende uma cortina
numa janela demasiado larga, demasiado nua
demasiado lúcida, quando a luz é demasiada.
é preciso tão pouco para desvanecer no teu corpo
na curva dos teus braços mesmo que fechados
apesar do movimento dos barcos –

tão pouco e mais nada
para que as gaivotas pousem na solidez dos muros
e as muralhas acabem –

e os olhos, os olhos, os olhos, os olhos
os olhos como margens
no sublime incrível de se transformarem em asas –


.josé ferreira 17 de agosto 2014

domingo, 10 de agosto de 2014

Entre o linho e o olhar

sleeplovediscourse
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Nesse branco mero instante
Em que te vi chegar
Soltou-se do lado esquerdo
Um  brando ruído de mar

Estendeu-se com a maresia
Passeou pelo areal
Debruçou-se na varanda
Na luz líquida do olhar –

O reflexo de muitas ondas
Corria no mármore das faces
Mais de luz menos de sombras
Nas crinas de outros mares –

Não foi instante fatal
Nem grau zero racional
Mais forte a curva dos dedos
Em mãos leves de luar –

Na manhã mais boreal
Aves andam no ar
Passos na porta lado
Uma chave a rodar –

E nesse branco mero instante
Não como era habitual
Pousaste de novo o rosto
Entre o linho e o olhar –

josé ferreira 6 Agosto 2014

sábado, 9 de agosto de 2014

Shakespeare arredondilhado


 O raio da redondilha
da ode e do soneto.
Pode remar com ilha
e rematar em terceto

E como vou começar
tão difícil TêPêCê?
…. William Shakespeare
pouco li, nem sei porquê …
pois cá vou eu asneirar!


Há tantas tragedias
de faca e alguidar
e tantas comedias
mais pra rir que pra chorar!

As doudas das comadres,
os donos do castelo,
alguns bobos e padres,
mais o mouro do Otelo
que caiu na ratoeira
ficou tão negro, sem ver
louco de ciumeira!

Mas eis aqui a questão:
Julieta e Romeu
numa noite de Verão
abraçaram o Morfeu
e mataram a paixão!
Hamlet também morreu
e Cordélia não viu tostão!

Não sei mais que escrever
Sobre o bife inglês
Nada mais há pra dizer
E acabou, um, dois, três!              

Teresa Almeida Pinto

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O mito


 Previsão do tempo 28 de junho Rio de Janeiro (Foto: Marcos Teixeira Estrella/ TV Globo)
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O mito

Fosse o mito a realidade,
Sempre o Mundo pensaria
E o Homem sonharia
Uma nova Humanidade.

Mas não. O sonho, afinal,
Anda tão longe da Terra,
Que os homens sobem a serra
Apenas pelo vil metal.

E fosse o mito a verdade
E o Homem sonhador,
Não faltaria o Amor
Dentro da mesma Cidade.

Por isso, a desilusão,
Sentida por todos nós,
Face à crença dos Avós
No Mito e na Religião.


José Almeida da Silva

Os mitos




 
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Os mitos são sempre assim
E correm mundo no tempo
E sem nenhum contratempo
Vivem um tempo sem fim.

O mundo acolhe e venera,
Sempre com a mesma paixão,
Esses heróis da ilusão
Em que a vida sempre impera.

Todos sabem e alimentam
Essas histórias de então
Que acolhem no coração,
E que nunca experimentam.

José Almeida da Silva


De mim falarei somente


 
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De mim falarei somente
nesse fim de tarde de uma Noite opaca.
As estrelas serão então a única luz
– Candeia de lua dançando para mim
no mar da ternura dos teus olhos.
Não sei o que direi. Não o medo, por certo.
Nem a alegria dos momentos felizes,
por certo, também não. Essa vive há tempos
na eternidade da nossa memória.

Falarei decerto do amor colhido da árvore
dos dias em que não estivemos de mãos dadas
– Tempo de chuvas e dores, e um vento de ira
que levava a nossa ternura para longe do coração.

Em silêncio os teus dedos leves fecharão os meus olhos
sem luz. Depois, se eu puder e a verdade sorrir,
hei de acenar-te da luz da Estrela da Manhã
como se te dissesse só então o Amor
de corpo inteiro – disse o meu pai.

José Almeida da Silva


Cordélia e o Rei Lear

  
                                                               “The way of this sad time we must obey;
                                                            Speak what we feel , not what we ought to say” W. Shakespeare

esquece e perdoa pois não há dor que doa
em ninguém de forma igual.
és única, sabes, como um trevo de pétalas simbólicas
como uma brisa ou um raio de sol que leva a chuva do mar:
pouco a pouco, em sequência morna de dedos invisíveis
a deslizar, a deslizar –
os nossos poemas  são formas e linhas de pele
há um sumo de alma em cada um deles
um lugar de tempo e espaço, um rio de sangue
por vezes, um oceano de palavras acariciando as rochas
e subsiste a longitude dos olhos, as memórias  e as baías desiguais.
se falo de mim? mas sempre falamos de nós, sempre falamos de nós.
numa medida sem dono,  sem o sossego das métricas
sem o peso definido do número e da  percentagem.
uma ilusão que nos ilude sempre  como se fosse verdade
uma verdade inalcançável, singular e infinita –

há nevoeiro ao acordar, uma cor cinza. lembras-te de Shakespeare?
lembras-te do Rei Lear? tinha três filhas e uma era original.
Cordélia era o seu nome e põe-me sempre a pensar.
era única, sabes. e no fim, é uma tragédia:
em cinco actos, quatro mortes e uma lição moral.
se reparares bem, o rei não resistiu à tempestade
pediu que o coração falhasse.
partiu com a sua dor numa piedade de cima.
a coroa era uma casca de ovo, partida e vazia (disse-lhe o Bobo).
a sua Rainha há muito adormecida e os cavaleiros perdidos
e Cordélia, de lábios abertos não criava a névoa
o fumo breve, na imagem fugidia dos espelhos.
o corpo de Cordélia já não era aquele que jazia
era o outro, imanente e intangível na imagem reflectida –
porquê ficar? o Rei na sua dor, que era só sua, partia.

sabes, és única. vejo interrogações nas tuas pestanas de libelinha
na tua pele luzidia.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?
o nevoeiro passa. o nevoeiro vai passar –

sabes, na história do Rei Lear, há quatro mulheres fundamentais
a génese e um mundo de falsas velocidades. tudo tão rápido.
uma voz ausente de mãe e não há descendentes.
o Rei de França que recebe a alma mais pura
ausenta-se  inexplicavelmente, não cuida:
Cordélia sem vida, como Antígona.
depois as duas irmãs,  iguais na ambição, na traição e na perfídia
desvanecidas, entre o veneno e uma lâmina assassina.
por fim os homens. os bons homens predominam.
mulheres nenhumas para as últimas palavras, as da epígrafe.
por fim distribuem-se títulos, terras e honrarias.
a paz predomina. um ciclo e um círculo como as noites e os dias.

os teus dedos são ainda aves que ondeiam os cabelos por detrás dos ouvidos.
sorris sempre com esse gesto simples de levantar uma cortina
de deixar entrar luz na superfície da pele
na curva definida do rosto.
escuta, não ouves? não estás ouvindo o mar?

a tua dor é singular, assim a minha, ocupa um centro
não se divide. é um bom indício –


 josé ferreira 6 Agosto 2014

Primeira Redondilha


Há uma cola de contacto


Há uma cola de contacto
Invisível mas segura
Toda de inspiração pura

Não é de arroz a receita
Do livro doutra senhora
Que_em tempo remoto fora
Tesouro doutra colheita
Nem modernice suspeita
De marca branca_ou escura
Não tem cheiro nem textura

Nem cola ninguém ao tecto
Nem coisas assim patetas
Prende_entre si os poetas
Em alma e não no objecto
Neste pequeno projecto
Que_aperta mais a costura
Enquanto o poema dura 
 


raquel patriarca | sete.agôsto.doismilecatorze

 

Segunda redondilha

Feita parva no café


Feita parva no café
As palavras a fugir
E as rimas a seguir

Onde está a Lianor
Que tanto jeitinho dava
Pois já Camões ajudava
A rimar como_um senhor
Mas a mim dá-me_o calor
Ponho lápis a fingir
E_as palavras a mentir

Dedos em tique nervoso
Na mesa_a tamborilar
São patas de_aranha a_andar
Que escrevem sem repouso
Um poema mal fermoso
Com_as palavras a fugir
E eu quase_a desistir

Não sei que faça_à escritura
Nem ás voltas das ideias
Só me saem rimas feias
Estragadas na cesura
Lianor pela verdura
E eu atrás dela a rir
Com_as palavras a dormir 




raquel patriarca | sete.agôsto.doismilecatorze

A biblioteca


Eramos só os quatro a respirar
o meu pai, eu e as minhas duas irmãs

Nós
apertadas no escuro
que era estreito e morava entre corredores
que eram estreitos e moravam entre estantes –
altas        pesadas        absolutas –
carregadas de todos os títulos de todos os livros

Ele
solene     gutural
com o vagar da velhice e da eternidade
falava da sabedoria do mundo,
do sonho       da viagem         da ciência
do amor        da poesia           do engenho          da história
que nos deixava tudo em
herança de guardar e proteger

Isto
é a humanidade que resta –
dizia –
e fechava os olhos e preparava-se para morrer

Eu
desobediente
pensava que gritava mas
a voz sem substância
sumia-se nas páginas de todos os livros

A humanidade vive nas crianças
a alegria e a verdade e a
promessa categórica de todas as coisas que
são boas vive nas crianças

Havemos de querer guardar as crianças

Não haverá crianças para guardar –
dizia o meu pai – os filhos
da tragédia serão sempre velhos e
velhos serão os seus filhos e netos e nenhum
será criança e em todos viverá humanidade nenhuma,
nada que preste de guardar ou proteger
e fechava os olhos e preparava-se para morrer

Morria de pé no meio do silêncio
que era fundo e morava entre corredores
que eram fundos e moravam entre estantes –
altas        pesadas        absolutas –
carregadas de todos os títulos de todos os livros

Lá fora – do outro lado
de paredes que não podíamos ver –
a tragédia uivava e a sua voz era a ruína do
mundo e a desgraça da humanidade
feita em escombros vazios de
toda a semântica ou qualquer préstimo

Lá fora – do outro lado
de paredes que não podíamos ver –
a tragédia invocava razões –
altas        pesadas        absolutas    mentiras –
pensava que gritava mas
a voz sem substância
sumia-se nas páginas de todos os livros
Isto é a humanidade que resta –
rezava o meu pai – a vossa
herança de guardar e proteger e
entregar a ninguém a não ser
ao tempo e à memória –
e fechava os olhos e preparava-se para morrer

E nós –
desobedientes –
chorámos a tragédia e engolimos a escuridão
e escondemos em cada livro uma criança
em cada título um nome, escrito de
alegria e de verdade e da
promessa categórica de todas as coisas que
são boas

Eramos só as três a respirar
eu e as minhas duas irmãs –
de braços estendidos as palmas das mãos
viradas para cima a receber o sol
que não tinha fim e veio morar nos corredores
que não tinham fim e moravam entre estantes –
altas        pesadas        absolutas –
onde se guardavam todas as crianças do mundo
entre todos os títulos de todos os livros

Isto
é a humanidade que resta –
preparámo-nos para morrer e fechámos os olhos
raquel patriarca
sete.agôsto.doismilecatorze