sexta-feira, 22 de novembro de 2013

fragmentos

Félix Vallotton (1865-1925) 



ao estacionar o barco em horas primeiras do poente
fugiu da sombra das árvores para encarar melhor o espelho do rio
essa ausência calma de diacronias num espaço sem almas
esse lugar sem lados subjectivos –

a natureza pergunta-lhe pelas dores e pelo vazio
não lhe impõe o silêncio, que grite se é preciso
mas que arranque de dentro esse grito.
faça-o soar com a legitimidade das pedras:
os muros de Berlim, as muralhas da China, o granito das injustiças  –

não simplifique, não esconda, não pinte
não iluda a cor do sentimento
faça soar o grito com a força dos vulcões
(a natureza permite)
e não esqueça nunca que por mais que a transição subsista
de mil fragmentos entre o início e o presente
a vida é contínua e completa:
com este grito que se prolonga para além da filosofia
pelo eco e pela imensidão visível e invisível das margens
atravessando o quotidiano e as diacronias –

o grito é um fragmento na tarde vazia
um fragmento  imerso, um e um só fragmento
na corrente do rio –

josé ferreira 21 novembro 2013