segunda-feira, 1 de julho de 2013

escrevo-te(XX) - sobre o natural e uma pérola que nasce



Zsazsa Bellagio Artist Ercia Hopper
Erica Hopper

escrevo-te sobre a baía aberta e natural
quando vi o filme
um filme que falava de cores luminosas
e de mistérios por detrás do sorriso –

sabes, mesmo sem a tua presença sinto as linhas da mão
num processo que se  transforma em imagem
depois uma imensidão de onde nascem palavras
depressa  e  em multidão –

a tua mão esconde-se na minha,  apenas um pouco mais pequena.
apenas a minha comporta a sombra, uma sombra de muitos anos
 a tua é luz consistente,  como a luz da lua que não pertence a ninguém
como a luz do orvalho das pétalas quando a madrugada avança
como a luz dos olhos na dimensão das ondas quando atingem as praias –

como no filme, de uma baía e de um par
 no alto de uma rocha e de mãos dadas  –

escrevo-te  numa esplanada pousada sobre o pensamento
na intensidade das ondas do mar
e o mar pode conquistar as rochas e os areais
sem o orgulho fácil de colecções de fotografias e postais.
o orgulho é uma cedência do desejo sobre o natural
o natural não tem medida, não tem mestre, não tem pecado original
sucede como o sol e como a chuva
o natural é a parte importante  da liberdade
o natural é o encontro de almas, um espelho de águas
uma história de princesas- cisne e de mágicos, o que está para além da realidade –

o natural é a cor dos teus lábios nesse sorriso inimitável
o natural são os teus poros a pulsarem num ritmo de África
o natural é a duplicidade de luz numa tarde
quando a ausência é um lugar –

escrevo-te e é noite, não há a luz do sol, não há a praia nem o mar.
a penumbra e uma maioria de silêncios envolve a cidade.
de vez em quando passa um carro, apenas um som que se extingue
e que fica a levitar
apenas a tarefa mecânica de um semáforo
verde, amarelo, vermelho… verde!… amarelo, vermelho
a repetição que os carros não percebem, o anti-natural
a programação binária –

um homem e uma mulher procuram o néctar do cálice
o curto-circuito da alma, o natural
e o natural é uma incógnita
a impossibilidade de uma fórmula, o Graal.
a cidade cala-se, não compreende, segue a rotina dos domingos
amanhã é segunda-feira
ouve-se,  numa voz baixinho –

o natural é a existência e a inexistência do mundo
sem cronómetros de astros, sem a posição do sol.
nunca ninguém te disse qual o signo do mundo
o mês, o dia  e a hora em que nasceu  -


sabes, sinto de novo a tua mão, acomoda-se numa meia-concha
como no filme, de uma baía e sobre o mar
 no alto de uma rocha e de mãos dadas  –

e talvez seja natural
há uma pérola que nasce –



josé ferreira 30 junho 2013