quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

escrevo-te (XIII) - sobre as fotografias, o pulmão aberto e o circuito binário


                                     fotografia retirada daqui

escrevo-te na forma mais simples de te dizer tudo sem sombras
sem os véus frios e sem a qualidade translúcida
escrevo-te com a transparência das células mais expressivas
as que voam sem serem empurradas pelos metais preciosos
mas que brilham, brilham e brilham, com a naturalidade das pérolas marinhas
na insistência dos mares por debaixo das baías -

as alturas do vivido são sempre intensas como as fotografias antigas
de serrilha, de focos  e lentes dentro de mangas de tecido;
talvez houvessem cenários pintados de pirâmides do Egipto
ou de uma selva de África, mas o motivo, o rosto
o braço, a perna, o olhar, teu ou da tua génese
são o recuo a uma época, um mergulho na história
como se fosse um filme de início, a preto e branco, iluminando-se
na medida em que entras nela, na fotografia
ou na geometria de um retrato, na forma oval ou rectangular
junto de outros retratos como se estivessem em fila
ligados com um cordão bege
numa caixa de sapatos de marca desconhecida -

a história solta-se nas fotografias como se recebesse imediatamente asas, eleva-se
como se disparasses setas, setas que partem em direcção ao infinito
e setas que voltam com indícios, numa convergência nítida
para que se crie o momento, o momento único, quando surge a policromia
a  diversidade síncrona de um instante, segundos unidos num pensamento
numa narrativa, um jogo de signos, um magnetismo novo, de hipérbole
de magnitude elevada, de vulcão sem lava -

escrevo-te nesta interrogação constante de um tempo diferido
porque o sol existe e sinto-me simples como as flores silvestres
e complexo porque vivemos rodeados de um mar de sal
rectas precisas da sociedade, carreirinhas de formigas que olham de lado -

escrevo-te sobre a transparência, o vidro limpo com ajax e pedaços de jornais
o quotidiano e as notícias que se tornam megafones sempre iguais
num esquecimento de que somos todos orgânicos, ADN e fluxos, células que existem unidas
permeáveis a rios, permeáveis ao ar -

sabes, o mundo é um sumo de muitas frutas, doces e amargas,
 uma salada de muitas almas
almas que se entrelaçam, mesmo que o não saibam
e tudo se resume no excesso e no mínimo
reflexos de médias numa balança sem equilíbrio
e tudo se resume nos passos que o mundo deu depois das fotografias
ou seja, a distância que existe entre o ponto e a linha infinita
entre o lugar exacto iluminado pelo flash de uma câmara antiga
e o vivido, entre o centro da terra, o pé na lua e a incerteza cósmica
entre a cedência a um conhecimento futuro e a uma protecção divina .

escrevo-te para relembrar a diferença entre o lugar onde somos e a origem do mundo
a diferença entre os bits e o átomo orgânico, entre o humano e a máquina
entre o pensamento onírico e um diagrama
entre o suporte  do pulmão que abre e o circuito binário -

escrevo-te na conclusão do óbvio e do meio caminho para qualquer lado
entre os dias luminosos e as contrariedades
e na conclusão súbita de que por vezes o humano
esquece a mortalidade como se fosse um guardanapo usado
e vive-a num copo a transbordar
e não é mal quando não há sombra
e talvez seja por isso que a terra é redonda
e não há sombras no fim do mar-

escrevo-te na antecedência da primavera e no dia vulgar
mas há no jardim camélias de cor sensível
e duas estrelícias altas olhando o céu -


josé ferreira 27 fevereiro 2013