sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

escrevo-te (IX) - o parque




escrevo-te olhando esta árvore e este espaço
ouço os pássaros e caminho por entre as sombras e a luz
para que o sol arda para que a sombra acalme
pele e películas, ramos e folhas, musgos e líquenes 
e este braço dormente segurando um ramo partido
com que acaricio a terra, soltando o verso
para que se infiltre e sobreviva, protegido -

não há artifícios, os vícios da cidade
não há óculos escuros
não  há os fumos de pássaros metálicos
apenas os melros perguntando por migalhas e fugindo dos gatos.
não há a ferida aberta dos colarinhos brancos
os fatos de cachemira e as gravatas de seda.
há a pedra no chão e não há caminho;
os caminhos são sempre uma aproximação de realidades
e nunca são
nunca são sozinhos: os pássaro dizem, o esquilo afirma -

lembras-te do mar quando se estende, depois dos pinhais?
lembras-te dos aromas lado a lado até à chegada das ondas?
até aos passos desenhados, lembras-te?
mesmo que não te lembres, ilude, mente-me com todas as letras
mistura outras histórias na tua e na minha
mas não negues nunca a memória, gota a gota, a clepsidra -

lembras-te do moinho, das velas, do cavaleiro de horizontes e dos cabelos ao vento?
afirma, ilude, mente-me, não me fales da cidade, de frustações e de destinos
de  pedras nos sapatos e palácios de Nice  -

antes as janelas abertas, as portas sem fechadura, de vai e vem
de alpendres, de mosquiteiros e cegonhas de asas abertas, rumo ao céu
e de cegonhas de pau com baldes metálicos em veias líquidas,  uma dádiva sem limbos-

fala-me das águas cristalinas, dos versos amarrotados nos papéis sem linhas
dos guardanapos com tinta, a permanente e azul de uma caneta antiga -
fala-me de ti, com os dedos na frente dos lábios, com os cabelos soltos
como as crinas  ou de trança com uma flor ao lado -

sim, fala-me de ti sem nuvens, límpida, sem a humidade das neblinas
e a luzir, a luzir sempre
sim, liberta o brilho  -

josé ferreira 8 fevereiro 2013