quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O escritor de olhos oblíquos


Kazimir Malevitch "Retrato do compositor" 1913

o escritor de olhos oblíquos escreve muitos livros.
o vértice que equilibra.
fala sempre de gatos perdidos e personagens vagos;
divagam em atmosferas desconhecidas,
fazem-se ao vento, fogem nos montes, evolam-se por magia.

o último gato chamava-se kafka e era branco.
segundo os vizinhos habitava o fundo de um poço
de uma casa abandonada.
desapareceu às treze horas de um dia treze - hora de almoço.

um jovem de olhos oblíquos teve um acidente de mota,
coxeava para não ir escola. Usava um gorro de orelhas
e uma muleta que afastava as ervas invasivas
na casa abandonada.
sentava-se no muro do poço e miava baixinho.
depois lançava friskies e dizia que o gato falava.

um dia o gato disse:
atravesso do fundo do poço, a rua da madressilva
a travessa do sino, e chego ao bairro da china.
sobre o bairro da china há uma janela gradeada.
vê-se um jardim de árvores grandes e flores pequenas.
um jardineiro de olhos oblíquos e aros redondos
habita esse jardim. canta e dança junto à magnólia,
à buganvília, à aromática tília e junto à grade
de uma janela parada no meio da colina.


o jovem de olhos oblíquos não quer ir à escola.
prefere ler livros e falar com o gato que habita
o fundo do poço.
o jardineiro do bairro da china canta e dança.
habita uma cabana no cimo da grande tília
e tem uma antena para ver musicais da broadway.

o escritor de olhos oblíquos quando não escreve livros
corre a maratona.
retira vírgulas, transporta exclamações e reticências
acrescenta ou enfatiza demasiadas informações´
às fatias ou na íntegra.

o escritor de olhos oblíquos gosta de neblinas
da cor lisa dos bosques e das colinas,
da sombra das árvores e da natureza escondida
por onde sobem os esquilos, ressaltam as lebres
voam os pintassilgos.

o escritor de olhos oblíquos quando não escreve livros
também corre nas cidades.
sonha falar com os gatos que habitam as casas abandonadas
e todos os telhados;
contariam segredos, sementes de enredos
e o escritor pelas noites dentro, pelas manhãs fora
teria muitas letras e menos folhas brancas.

o escritor de olhos oblíquos diz que o mundo está torto
as cidades sabem a fumo e fogo
e são muitos os jardins habitados por casas.

já não se vêm tantos gatos -

2 comentários:

Joana Espain disse...

Olá José. Adorei! Os olhos oblíquos em fuga das casas ... pouco mais haveria a dizer sobre coisa poética ...

Marlene disse...

Adoro Haruki Murakami.
E adorei o poema

bjo