quarta-feira, 4 de novembro de 2009

sentia o chegar do fim

sentia o chegar do fim

e eu sem medo...
já te esperava
há tantas auroras atrás

e eu sem medo...
sinto o teu olhar sangrento
de vermelho tinto
inundar o meu de nada

e eu sem medo...
anjo da morte
orla de sombra
negra como carvão
envolves-me no teu aperto

e eu sem medo...
pregam-se ao palco
os meus pés
pesado como chumbo
o meu corpo
leve com brisa morna
de final de tarde
o meu coração
alada
desprende-se de mim
a alma

e eu...
sem medo...
entrego-me

matas o homem
mas não matas nunca
o IDEAL

Clara Oliveira

3 comentários:

Joana Espain disse...

Gostei muito Clara do ritmo e do medo que o repetir do 'sem medo' deixa no poema. E está muito bonito 'o olhar sangrento que inunda de nada' e dos pés que não querem fugir e ficam 'presos ao palco' por ideal. Gostei muito

josé ferreira disse...

Clara concordo com o que disse a Joana e acrescento que o teu poema cria uma melodia que vai aumentando de intensidade e acaba na força do "IDEAL".gostei muito.

Abraço

Ana Luísa Amaral disse...

Há momentos muito interessantes no seu poema ("pregam-se ao palco / os meus pés" -- imagem forte, ainda por cima servida por uma bela aliteração). Não gosto muito do final, com "ideal", para mais grafado em maiúscula. Acho que a Clara consegue fazer melhor. Se escrever, por exemplo, "matas o homem / mas não matas / o resto" (isto é um mero exemplo) o efeito de surpresa e de convite à imaginação é muito mais forte. Mas isto é um mero comentário..