sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O pôr do sol em espinho

Conforme o prometido, aqui fica o poema ao pôr-do-sol de Espinho, ilustrado por um dos ditos.

LITERATURA EXPLICATIVA

O pôr do sol em espinho não é o pôr do sol
nem mesmo o pôr do sol é bem o pôr do sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medicis
onze quilometros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr do sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr do sol apenas pôr do sol

RUY BELO in Homem de Palavra(s)

1 comentário:

josé ferreira disse...

Teresa obrigado pelo privilégio de um pôr-do sol cor de azeite qual tempero de poemas que se completa na escrita deste, fantástico, de Ruy Belo.

Bjo. e até breve