sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Minúcia difícil de pontas

Desculpa mas sinto a morrinha
a imagem do leão sobre a águia
no alto obelisco da Rotunda

Caem penas de lento oscilar
demoram o tempo do voo da cegonha
entre a tília e árvore das camélias

No centro do banco gasto
no espaço de tábuas abertas
crava-se a ferrugem de follhas
recortadas e o silêncio
no deserto de graus negativos
de ser só um

Um e a natureza por cima do ombro
olhos grandes nas letras pequenas
de um caderno azul de argolas

Um e a caneta de tinta permanente
a das verdades de lâminas aguçadas
chuva de bocas abertas no redondo
das orelhas, versos aos pedaços
flocos bailarinos em dança de estrelas
na minúcia difícil de pontas
sem gente nas areias e terras
de um palco só jardim

No gesto estranho e louco, acto repetido
tudo miudinho, um sal grosso de tintas
aos bocados no bolso do casaco de veludo
ainda dentro de linhas, lado para lado
sem bússola na mistura de letras, dos factos
entre dedos de mistura no poema rasgado

Altero os óculos e as lentes de claro
até escuro, atravesso a alameda
passeio a teimosia na dobra do cabelo
e sopro algum que cai junto ao bico
do sapato, entre o verde e o vermelho
do semáforo

Enquanto surge aquele fio de luz
que espanta o orvalho
e a morrinha feiticeira
nos vazios da cidade.

3 comentários:

Marlene disse...

Obrigada José por mais um poema muito bonito.

auxília disse...

Gosto deste modo interseccionista de ver a cidade e de fazer da Rotunda poesia.
Um bom ano, José, e até breve.

Joana Espain disse...

Gostei muito mesmo do poema. Que frio....:)

Acho estes versos impressionantes:


No centro do banco gasto
no espaço de tábuas abertas
crava-se a ferrugem de folhas
recortadas e o silêncio

Abraço e bom ano


Joana