segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Abismo à Portuguesa - continuação

Sonha para mim um abismo dourado
Um abismo à portuguesa
Com toda a sua chama, toda a sua Vida
– Assim que houver abismo e assim que houver portuguesas com os seus cabelos sexys e mãos sexys e que com a sua linha dourada teçam o destino do nosso país.
O mar está fora de moda e nós estamos rodeados de mar…
Ao primeiro marinheiro que chegar ao nosso triste povoado – hei-de apanhá-lo na doca
Fazer-lhe um broche à portuguesa – pô-lo louco – fazê-lo vir-sena minha boca –
dentro de mim A literatura vive
Gosto dos escritores que nunca escreveram, sobretudo esses me são favoráveis
Escritores que como Perseu entram nas melhores pastelarias de Montevideu para comerem bolos dourados e mijarem em urinóis de prata.
Mijam em urinóis de prata a dez quilómetros de Montevideu
quero mais do que a vida
Ontem vieram ter comigo homens tristes, acho que lhes dei confiança sou bem capaz disso
Aliás sou capas de tudo e tenho medo disso - nunca te apaixones por mim o mais provável é encontrares-me numa pastelaria de Berlim a fabricar bolos para os escritores comerem enquanto escrevem nos seus guardanapos isto e aquilo porque tudo é isto e aquilo mas será preciso dizê-lo ? Esses guardanapos hão de servir de alimento aos pássaros que não debicam só migalhas, pelo menos os alemães, mas toda uma literatura, todos os guardanapos à saída da esplanada: toda uma literatura de vanguarda comida, reciclada, escondida, descoberta nos casacos dos mortos -- e eu a rir-me com sarah kane – ela ri-se e nós rimo-nos porque somos pessoas a sério ou temos medo de o ser - E porque temos casacos de marca e isso dá conforto.
Tenho um medo violento – Amo tudo quanto fluí tal Milton – do extremo do corpo ao extremo da alma – a experiência mais profunda – um abismo doce e alucinado à portuguesa –
(Como os teus olhos) para onde todos saltem à doida português atrás de português – do extremo do corpo digo –o mar está fora de moda
Mata agora os nossos marinheiros – o peixe está contaminado – a droga vem do mar – os cadáveres vem do mar – vem do mar a literatura triste do nosso país.
porque é que o mar vai e vem? Porque é que ele não fica quieto– a questão foi levantada por um filósofo


Nuno Brito 2009

1 comentário:

M. disse...

Não acredito mais no abismo à portuguesa. Não temos mais os olhos pregados no mar à espera de redes. Não trazemos na pele impregnado o cheiro do peixe. O abismo é também uma enorme montanha. A escolha de ver a vertigem ou a viagem é de quem olha. Lá do alto faz-se o que se escolhe. Ou se segue a Sarah Kane até às 4:48 horas da morte. Ou se vive até deixar o abismo para um outro dia.