quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O Cigarro e o meu Ser

Queima-te cigarro frágil, some-te em fumo,
Para sempre esvai-te em cinza,
Que no chão será lançada,
E indiferente calcada
Pelo magro valor ou nulo,
Que a natureza lhe demarcou.

Olho-te enternecido, amargurado me havendo,
Pelo que em mim hoje sucede...
Vejo-te seres esmagado
Pelo fogo reles, irónico,
Que te suprime, indiferente!
Não olha a quem fere, não se importuna!

E tu deixas-te derrubar,
Concedes que te destruam, sempre vencido...
Atormento-me só de ver que não combates.
E sei-o agora, sim,
Tu não te irritas!...

...E nova porção de cinza,
Pacata, ingénua, calada,
Se edifica insignificante;
Breve sei será desprezada
E no chão imóvel e insensível
Sei que será esmagada e a nada concluída
Pelo curso do teu destino!...

Lanço-te os meus olhos, ó cinza,
Que ao lado de meus pés te achas;
...Mas eis que um feixe de vento,
Buliçoso, breve e intenso,
Manso sopra , cauteloso, e te arrasta...

É o teu destino simples que te aborda!...

Cigarro agora eu reparo:
De ti resta um filtro ainda
Que a chama não consumiu...

...Perscruto-o com singeleza,
Sincero sou , te confesso;
...E eis que nele admiro uma tão rara firmeza!
Fixo-me nele então, mais de perto,
Observo-o sereno, independente;
Súbito, de minha mente fria e abandonada,
Algo se aproximou;
Se me afigurou conforto amigo,
Restabelecedor...
.............................................................

Alegro-me, pois me ensinaste
Que algo em nós fica retido, indefeso sim,
Mas como que rocha dura
Que as vagas furiosas enfrenta,
E que se mantém e não lamenta!!

Algo notei que persiste
E me alenta a existência;
Algo incólume
Que a crítica alheia não feriu,
...Enfim, a pégada do meu Ser...

E assim já despertado,
Seguirei meus passos firmes,
Sabedor que não me engano,
E não permitirei jamais que te abandone,
Amor meu diferente, a mim predestinado!

(Antonio Pinto Oliveira, 1968 - Luanda;
in " Eu e o Silêncio ", 1994/2008 - Edições Ecopy).

3 comentários:

Elza disse...

Se há coisas de nós que são como a cinza que o vento leva, há outras que permanecem e nos tornam mais... nós. Que sejam o amor, aquilo que cada um quiser que seja, que seja a poesia!

Anabela Couto Brasinha disse...

O verso "Amor...a mim predistinado!", fez-me pensar no que tinhas dito sobre Magnólia (estimulo que o autor precisa).
Será a palavra veículo? será que poetizamos sobre e para as "coisas-palavra(s), ou sobre e para nós próprios(quando somos autores), e daí, o que será que se espera de quem lê?

António Pinto de Oliveira (António Luíz) disse...

Anabela, se bem entendi teu comentário, ele é perfeitamente pertinente. A palavra como estímulo ou veículo tem o mesmo significado, e a mesma força. O importante é q dirija ou alcandore o autor aos seus objectivos, q é passar a mensagem ao leitor do seu estado de ânimo ( ou de alma) no momento da escrita. Poderá mesmo conseguir transmitir a sua intimidade ou o "núcleo duro" de todos os seus sentimentos naquela circunstância , ou evento.
Ao analisar o filtro do cigarro,"indestrutível", "com rara firmeza", - poetisar uma coisa -, o autor, sem lhe dar voz, tira uma ilação q o conforta e restabelece: também nele (autor)há algo q permanece "incólume, embora indefeso", mas "como rocha dura" em silêncio (não se lamenta). É algo q nele existe imune a tudo, e q resiste às "críticas alheias", mas q deu voz ao eu do autor (a pégada do meu ser). Esta constatação e auto-confissão levou-o à promessa de ser capaz de nunca abandonar o seu amor. Aceito q por vezes, com mensagens não muito explícitas, o leitor possa ter dificuldade em decifrar o enígma, e atingir o bjectivo do poema. Concordarás por certo. Obrigado pelo reparo. Cordialmente, António