terça-feira, 2 de julho de 2013

Ana Luísa Amaral - Fechar os olhos e por dentro ecoar


Erica Hopper


Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado.
Pensar «podia ter outra cor de pele, outra pelagem»
E o tempo virar-se do avesso, e entrar-se ali,
em vórtice, pelo tempo dentro.
Escolher.

Trazer cota de malha e de salitre,
ter chorado quando o porto ao longe se afastara,
milhares de milhas antes,
meses em sobressalto para trás.

As febres e tremuras durante a travessia,
 a água amarga, as noites
carregadas de estrelas,
 junto ao balanço do navio, um astrolábio.

Numa manhã de sol, do porto de vigia,
ver muito ao fundo, em doce oval,
a linha, quase tão longínqua como constelação.
Gritar «terra», gritar aos companheiros
ao fundo do navio, do fundo dos pulmões gritar,
e o bote depois, os remos largos,
a cama de areia e o arvoredo.

Ou trazer na cabeça penas coloridas,
conhecer só a fundo a areia branca
e o mar sem fundo, peixes pescados ao sabor dos dias,
uma língua a servir de subir a palmeiras,
a servir de caçar e contar histórias.

Moldar um arpão, começar por um osso
ou pedra e madeira,
entrelaçar o corpo da madeira, e o afiado da extremidade.
Contemplar devagar o resultado do trabalho
e da espera.
Ou a beleza. Escolher.

Trazer o fogo na mão, escondido pela pólvora,
fazer o fogo na orla da floresta.
Os risos das crianças, tocar a areia branca, tocar
a outra pele. Cruel,
o medo, vacilar entre a fome e o medo.
Ou não esco1her.

As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira a1ta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.


ana luísa amaral  vozes  dom quixote    2011 lido aqui

segunda-feira, 24 de junho de 2013

poema da noite de S.João

                                          imagem da internet  


cheiravas a manjerico
o teu rosto trazia a suavidade da seda
os olhos brilhavam mais do que a lua
que sendo assim se tornava pequena
para o tamanho do meu mundo -

foi como se um puzzle se completasse
a peça de muitos milhares que faltava
e os meus braços abraçaram-te tanto
no teu tamanho exacto  -

foi como se um anjo descesse à terra
e não fosse a madrugada
de novo a noite grande imensa
de novo a noite de balões que sobem
de foguetes que disparam
de novo o rio, a ponte e a cidade
de novo a noite iluminada -

josé ferreira 24 junho 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

escrevo-te XV - a rua das gaivotas e a metamorfose dos pássaros



imagem daqui 


escrevo-te no primeiro dia de abril
no simbolismo de inscrever verdades e negar mentiras.
não sei  dos teus olhos nem qual o mar em que navegam
quais as ondas, quais os ventos, quais os últimos caminhos
sei que andam soltos e sei que brilham –

vou-te contar: num pinheiro perto de moinhos e de sargaços
havia um pássaro pousado, recortado na cor da sombra contra o mundo
e fazia soar uma melodia, numa transparência tão cristalina que comovia.
sabes, não chovia e algumas linhas de sol abriam. fiquei parado
surpreendido, naquela dicotomia:
um silêncio na rua e o fluir seguro de uma melodia.
o que  diria a ave na árvore e naquele dia?
seria uma carta sem  palavras na metamorfose da música?
a quem escrevia?

escrevo-te e digo-te, as cores de acordes eram luminosidades perto do mar
sequenciais:  sol de sétima, si bemol, dó maior.
magnífica melodia. fiquei parado
sabes, fiquei petrificado, preso pelos ouvidos –

vou-te contar: à volta daquela redoma de sons nada ousava tocar
e ficámos parados, eu, o silêncio e a árvore.
depois de cinco minutos naquela quietude completa
por detrás de uma janela
numa casa abraçada de ambos os lados, por irmãs gémeas
por detrás de uma janela, uma cortina oscilava de nascente a poente
na perpendicularidade do mar da Apúlia, onde ondas chegavam e partiam
sem ganharem qualquer protagonismo, envolvidas e mudas
nos cristais da melodia –

a luz de fora das janelas escondia as mãos, os dedos, a fisionomia
mas não escondia a leveza de gestos, a sensibilidade feminina.
sabes, fiquei parado, qual mármore em estátua, e a melodia subia, subia -

a ave depois da cortina oscilar, cantava mais expressiva, esdrúxula e afirmativa
como uma ópera de Puccini, como  um uníssono sem vozes no deslizar de cerdas
sobre cordas de violinos –

escrevo-te e digo-te, foi uma surpresa de rouxinol, uma história infantil
reassumida na memória dos primeiros livros, Andersen, o nórdico
e outras histórias em que se acredita em fantasias
em que não queremos crescer para os mundos modernos, tão frios
sem qualquer poesia -

 lembro-me e digo-te o que me ocorreu naquele dia
naquela hora parada de uma tarde de sábado
em que o mar estava demasiado longe para que juntasse a força das ondas
provavelmente povoado de búzios em dunas de areias sozinhas
e em que se ouvia no lado esquerdo do pinheiro
o pulsar da melodia, cristalino, interminável
enquanto a cortina, segura nos dedos femininos, escutava e escutava
na mesma linha, sem desistência, sem movimento e em silêncio -

sabes, talvez fosse um príncipe
talvez fosse um príncipe que cantava e uma princesa que ouvia
e vão ser felizes, vão ser felizes
na rua das gaivotas e na metamorfose dos pássaros -

josé ferreira 1 de abril de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


INSUBMISSÃO

Somos corsárias
febris
por areias dos desertos

Seguimos estrelas cadentes
e montando os nossos sonhos
cumprimos roteiros incertos

Vamos atrás das paixões
com o faim à cintura
e a pena no coração

Para escrevermos poesia
invertendo o cantochão

Com a arte da insídia
olhamos o horizonte alucinando
os oásis, abismando sortilégios

Escutamos os clamores
os oceanos celestes
nos silêncios dos desertos

Buscamos os infiéis
com olhos de expiação

Somos hábeis e seguras
ambíguas, doces, cruéis
nós partimos sem regresso

Ora flibusteiras
em horas de cerração
entre a paixão e o inverso

Ora piratas do limbo
abandonando os arquétipos

A cimitarra à cintura
e o júbilo no coração
pelo avesso dos versos

Somos a rosa e o espinho
a sombra no seu desvão

Entre o fuso e o enigma
a navalha entreaberta
e os nevoeiros secretos

Somos corsárias
sonhando
nas areias dos desertos

Maria Teresa Horta
Lisboa, 8 de Março de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

um poema de amor

 .
Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa. 
 .
Manuel António Pina
Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde | 1969
.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

que rompam as águas: é de um corpo que falo - um poema de Eugénio de Andrade




Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria, nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo, desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio, 
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol, 
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas, 
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

De luz?
Que sabemos nós
dessas nuvens altas,
dessas agulhas
nuas
onde o silêncio se esconde?
Desses olhos redondos,
agudos de verão,
e tão azuis
como se fossem beijos?

Um corpo amei,
um corpo, um rio,
um pequeno tigre de inocência,
com lágrimas esquecidas nos ombros,
gritos
adormecidos nas pernas,
com extensas,
arrefecidas
primaveras nas mãos.

Quem não amou
assim? Quem não amou?
Quem?
Quem não amou
está morto.

Piedade,
também eu sou mortal.
Piedade
por um lenço de linho
debruado de feroz melancolia,
por uma haste de espinheiro
atirada contra o muro,
por uma voz que tropeça
e não alcança os ramos.

De um corpo falei:
que rompam as águas.


Eugénio de Andrade In Mar de Setembro

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Teu Riso -Um poema de Pablo Neruda

                                           imagem daqui
Tira-me o pão, se quiseres, 
tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 
a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 

A minha luta é dura e regresso 
por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 

Meu amor, na hora 
mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 

Perto do mar no outono, 
o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 

Ri-te da noite, 
do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda lido aqui

domingo, 20 de janeiro de 2013


O teu rosto torna-se periódico às vezes
e persiste 
em oráculo 
a querer saber do meu
e dessa certa quantidade de gente à procura de gente:


É um enlace nos olhos dos bichos
uma energia claríssima
um fogo em artificio de espelhos 
com tendência para rios 

a cobrir devagar,
atrás de cada passo
acordando cada cão que se espreguice ao sol
transparente a cada mão, tão liquida 
(como a música 
mas menos horizontal)
e no entanto move-se 
como se ainda na sombra de uma luz que nos amedronta

e vai levando gente 
para a clareira mais provável
ao nível das nuvens dos átomos 
quando ainda se tocavam

alinha olhares inteiros de bicho
na inclinação certa de se imitarem 

é uma energia claríssima que depois se vem a saber 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ano Novo - um poema de José Almeida da Silva




ANO NOVO

Andou o ano todo
a envelhecer –

As noites e os dias
desnudados
e enxertados na vida
distraída

E o caminho a fazer-se
momento a momento
como se fosse único

A luz e a sombra
cresciam
como a Lua e o Sol

O choro e o riso
repetiam-se
e o sofrimento
e também a alegria

E como por magia
as doze badaladas
a soarem repetidas

E como o crepúsculo
se faz noite levemente
a madrugada desvela
da alegria a luz

Andou o ano todo
a envelhecer –

O tempo sempre outro
não cessa de nascer –

2012.12.28
José Almeida da Silva

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

  "De Sapiãos"

em riste
sem olhos, ouvidos, dedos
ou não, ironia
riste, que disfarce
o resto, entenderia à mesma
não fico a ver
 .......................................................................................................
Alguém que achava ter sentido de humor, com saudade de sereias, nunca foi de regresso, por ser imaturo e sem si nem dó, tudo não quererá.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Um poema de Natal por José Almeida Silva


   Imagem daqui

Neste Natal é imenso o frio

Neste Natal é imenso o frio –
Belém é um denso nevoeiro
E um obscuro e tímido silêncio
E o orçamento das famílias
Não suporta o calor

Da mensagem de amor
Que em Belém de Judá
Foi anunciada
Faz tanto tempo já.

O frio então era natural
Tão diferente do frio
Cúmplice e artificial
Dos pastores e reis magos
Destes tempos –

O Menino continua o mesmo
Mas os carneiros e as ovelhas
Estão gordos com as pastagens
Dos outros, já tão magros.

Há de crescer o Menino,
Assim o creio,
E na mão um chicote
Para afastar a tirania
E devolver a Esperança.

Não é da cabeça a sua essência,
O Natal é do coração –
Simplicidade e fraternidade
Não cabem no prodígio frio da razão – 
                                                 
19.12.2012
José Almeida da Silva