terça-feira, 27 de dezembro de 2011

psicanálise




relâmpagos, relâmpagos,
a luz forte sobre uma torre de paralelepípedos cinzentos –
brilhos de azeviche e micas, águas torrenciais
tudo cai –

acordou órfão num filme mudo de ruídos imaginários.
tornado realidade pela claridade de um sonho.
cindido numa narrativa entrecortada de signos
enquanto um gato brincava com laços de uma prenda
que caiu, estrondosamente,
do alto de um armário -

quando de novo adormeceu
a tempestade pertencia ao domínio do passado, um equívoco,
uma má interpretação de um episódio de infância
que recorrente, tinha uma boca grande, um monte muito alto,
um precipício, o risco imediato
e depois a salvação -

há noites de muitas noites, sem luz alguma, sem nenhuma lua
mas entretanto chega o Sigmund, cofia a barba, une os dedos,
cruza as pernas, e em voz calma
explica tudo -

josé ferreira 26 dezembro 2011

sábado, 24 de dezembro de 2011

feliz natal

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"feliz natal"
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vinteequatro.dezembro.doismileonze | raquel patriarca
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Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal

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esta noite espero a estrada branca - um poema de natal


Vermeer

espero a estrada branca quando subir a serra.
não haverá alces nem renas nas franjas da montanha.
talvez um lume que lance faúlhas, sorrisos abertos
e olhos que encontram olhos como arquétipos
de muitas épocas, sem litígios de ex-irmãos
sem guerras, sem fome, sem corações cortados
sem o ruir dos sonhos, das ilusões –

prevejo as calças azul de ganga, as botas de piso de borracha
e uma camisola vermelha como manda a tradição –

quando escolher o cálice, quando colocar os traços de lenha
subirão lentamente os aromas diversos, alguns sinais de fumo
a resvalar de muitos anos em múltiplos quadros firmes:
aguarelas de Turner, difusas, suaves, não terminadas
e óleos mais escuros, de Caravaggio, já ultrapassados,
mas colocando ainda relâmpagos e gritos de Münch –

lembro-me agora de Vermeer, a pérola,
Klimt, um rosto adormecido,
e os rostos tapados, dos amantes de Magritte –

recordarei preferencialmente o sabor do chocolate,
pequenos grupos de prendas no sapatinho de uma suposta lareira
que não havia, e o pai natal era invisível –

sonharei com macieiras e cerejas de brincos, já sou crescido
e não tenho medo de serpentes –

terei a caneta permanente no bolso esquerdo da camisa
e escreverei alguns versos, sem que ninguém veja –

falarei com muita gente, sem fios
e haverá uma nascente de episódios, vivos, apesar de mortos
desde o começo, desde ser berço, desde ser sólido
desde ser fogo, desde ter medo, desde fechar os olhos
e olhar todo o meu corpo, crescendo e decrescendo
de dedos grandes, de dedos mansos, de pensamentos
desde todas as certezas até um sol apagado, uma lua cega,
ou um paraíso de almas boas, uma távola redonda –

desejo sossego e sossegos para o meu músculo de sangue
para o de todos, de que me lembro, e são tantos –

não mais claustrofobias de paredes pálidas, exangues –

desejo as brisas de morango para o meu cérebro de sonho
e o de todos, e são tantos –

Holly night, holly night,
Ruidosa por dentro, silent por fora,
ninguém dará por nada –

muitos lugares e muitos outros, juntos,
que sorriem na noite de graças
minhas, deles , emoldurando os rostos de estrelas
como senão houvessem opacidades, intransparências,
himalaias, sombras, rotações de planetas –

desejo a noite máxima, feliz, luminosa, branca, sem pesadelos,
de todos, de todos os que me pisaram as nervuras dos cantos
e são muitos e são tantos -

e alguns existem, e alguns não existem
e alguns estão distantes -

josé ferreira 23 dezembro 2011

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

azul



azul
um azul claro, aguado, que me abre como flor fora d’época
na profundidade dos meus lábios, tão mal usados.
um sonho brando e doce, com braços grandes,
um segredo de praias desertas e um berço de manhãs
embalando como onda, como ondas
de um mar navegante
e raro -

josé ferreira 21 Dezembro 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Irei eu em todas as minhas mãos - um poema de Catarina Nunes Almeida




Irei eu em todas as minhas mãos
pégasos e ventanias
o corpo preso por um frio gentil
o corpo a tilintar de sonhos.

Serei eu o que ele for
na cavalgada.

Catarina Nunes de Almeida, Bailias, Deriva, 2010

o lado esquerdo, suspenso


Tamara Lempycka

nesta mesa coxa que oscila no café
traço uma diagonal que liga os fragmentos dos dias.
apoio com força o braço no canto mais direito
para que permaneça quieta
para que possa passear os dedos ternamente pelas letras
para que o lado esquerdo, suspenso
ganhe aquelas asas que reconheces
como raios de seda como luz que se acende
na volta do teu rosto na volta do teu corpo
até que sossegues
e adormeças -

josé ferreira 20 Dezembro 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

desencontro - um poema de natal




não habitei os lugares habituados de natal
não liguei o rádio e pensei em ti
nessa fúria de olhos que te abarca
sendo o teu estado natural o de uma concha
rodeada de ruídos de mar e de cinzentos bons –

não quero acrescentar a neve artificial
o aerossol de falso branco
nem renas nem trenós nem Ooh! Ooh! Ooh!
apenas dizer-te algo de diferente que te acalme
que te abra um sorriso manso
como dedos quentes de lã, deslizando
pelo canto esquerdo da nuca
torneando o cimo dos ombros
a curva inclinada do pescoço
e terminando num chorinho muito baixo
que seja curto e depois pare
num abraço que seja forte, muito forte e depois pare
e num silêncio que junte todas as palavras
que não disse, que não disseste
nas mil e uma oportunidades –

sinto que as nossas almas estão despenteadas.
não percebo a razão porque não és concha
porque não sou onda –

josé ferreira 19 dezembro 2011

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Precocemente pressentiu - palavras de David Mourão Ferreira


Ralph Gibson

XXI

Precocemente pressentiu
que na Mulher coexistem quatro figuras:
a Mãe, a Irmã, a Filha; e a Fera.
Ou,melhor dizendo, a Terra, o Ar, a Água; o Fogo.

David Mourão Ferreira
Jogo de Espelhos, Presença, 2011

Livro do desejo - poemas de Leonard Cohen


Guy Bourdin

Ela entrou no meu pé com o pé dela
e entrou na minha cintura com a neve dela.
Entrou no meu coração a dizer,
"Sim, é isso mesmo."
E foi assim que o corpo de solidão
se viu coberto por fora,
e por dentro se viu
o corpo de solidão abraçado.
Agora sempre que tento inspirar
ela segreda à minha falta de ar,
"Sim, meu amor, é isso mesmo, isso mesmo."

Leonard Cohen, Livro do Desejo, quasi, 2008

sábado, 17 de dezembro de 2011

por vezes a chave do sonho


Fotografia de Annie Leibovitz


a tua hipnose de alma vê o vazio
mas há um outro lugar, a suavidade distendida –

a imperfeição das margens não pode condicionar os rios
e as aves intermináveis não interrompem os cursos livres,
voam por sobre a barragem abrupta
que suspende o leito
e bicam incessantes a saída –

não permaneças nas vestes de tecidos pesados,
é triste e mudo o espelho deitado, horizontal sob a lua,
sem a dupla característica, sem a envoltura de um olhar vertical,
omisso no frente a frente que ilumina olhos e lança braços como lenhos
- a árvore magnífica, grande –

as palavras são uma armadura ronceira, pesada, imperfeita,
em algumas batalhas movem-se sem jeito.

as palavras perdem-se no ruído de rotinas
não se escutam, nem sempre dizem
e reinventam-se por vezes no almofariz de um alquimista
como um cálice de persistente loucura, mas boa e cheia de sentido -

as palavras batem cruamente nos desenhos de um muro, por vezes não entram
no som oco do tijolo, na porta, na fechadura
e deformam-se e misturam a incompreensão dos sinos
mas por vezes como chaves dirigidas, têm boca e têm dentes
e rodam certas no cronómetro do tempo
provocam a síncope na anacronia que colocava anteriormente
um aro em volta do espelho como uma redoma de espinhos

e a porta abre no primeiro lugar, no suave distendido
num cimo do monte
onde os pés podem ser mãos,
despentear os cabelos e tapar os ouvidos

um eco completo que inunda as planícies -

josé ferreira 17 dezembro 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

o nº 1 da revista ATHENA _ Outubro de 1924

















Tive a oportunidade de consultar e fotografar o nº1 da Revista ATHENA - Revista de Arte, dirigida por Fernando Pessoa e Raul Vaz,editada em Outubro de 1924 e na qual se publicou a tradução do poema "O Corvo" de Edgar Allan Poe, as Odes de Ricardo Reis e ainda a peça de Almada Negreiros "Pierrot e Arlequim". Resolvi partilhar algumas dessas páginas.

sobre a evidência do sonho - fragmentos de Coimbra de Matos


Gerard Richter

«Um corpo que não sonha
é como uma casa desabitada
- a ruína é o seu destino»

«Nascemos de um sonho, vivemos no sonho,
morremos quando o sonho acaba. E a cura
analítica não é mais que a abertura ao sonho;
acaba quando o paciente sabe sonhar»

A. Coimbra de Matos

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

seria indevido como um relâmpago


Thomas Struth

seria indevido como um relâmpago
partir ao meio o tronco
separar o som dos sinos
os mil fragmentos dos vidros -
quem poderá ser anjo sempre
de asas caídas
quando sopra o vento sul
e se perde a bússola
e se perdem os dias, os dias
os dias prometidos
e se perdem as causas e se embrulha um lençol branco
um sudário sem cor e sem espinhos
porque foi uma partida, um desvanecimento físico
um desvanecimento de presença e de sentidos
uma ausência de leituras
vapores insolúveis arrumados dentro de frascos antigos
em prateleiras largas de cerejeiras, polidas de ceras
aos pares, em brincos, vermelhos, sobressaindo
de aromas verdes de folhas, mal apreendidos –

sobram brancos e cinzentos
e seria indevido o silêncio das fontes
a elegia da sombra
ao omitir as gotas de água, para que a sede subsista
para que a semente se elimine -

josé ferreira 15 de Dezembro 2011