quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Irei eu em todas as minhas mãos - um poema de Catarina Nunes Almeida




Irei eu em todas as minhas mãos
pégasos e ventanias
o corpo preso por um frio gentil
o corpo a tilintar de sonhos.

Serei eu o que ele for
na cavalgada.

Catarina Nunes de Almeida, Bailias, Deriva, 2010

o lado esquerdo, suspenso


Tamara Lempycka

nesta mesa coxa que oscila no café
traço uma diagonal que liga os fragmentos dos dias.
apoio com força o braço no canto mais direito
para que permaneça quieta
para que possa passear os dedos ternamente pelas letras
para que o lado esquerdo, suspenso
ganhe aquelas asas que reconheces
como raios de seda como luz que se acende
na volta do teu rosto na volta do teu corpo
até que sossegues
e adormeças -

josé ferreira 20 Dezembro 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

desencontro - um poema de natal




não habitei os lugares habituados de natal
não liguei o rádio e pensei em ti
nessa fúria de olhos que te abarca
sendo o teu estado natural o de uma concha
rodeada de ruídos de mar e de cinzentos bons –

não quero acrescentar a neve artificial
o aerossol de falso branco
nem renas nem trenós nem Ooh! Ooh! Ooh!
apenas dizer-te algo de diferente que te acalme
que te abra um sorriso manso
como dedos quentes de lã, deslizando
pelo canto esquerdo da nuca
torneando o cimo dos ombros
a curva inclinada do pescoço
e terminando num chorinho muito baixo
que seja curto e depois pare
num abraço que seja forte, muito forte e depois pare
e num silêncio que junte todas as palavras
que não disse, que não disseste
nas mil e uma oportunidades –

sinto que as nossas almas estão despenteadas.
não percebo a razão porque não és concha
porque não sou onda –

josé ferreira 19 dezembro 2011

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Precocemente pressentiu - palavras de David Mourão Ferreira


Ralph Gibson

XXI

Precocemente pressentiu
que na Mulher coexistem quatro figuras:
a Mãe, a Irmã, a Filha; e a Fera.
Ou,melhor dizendo, a Terra, o Ar, a Água; o Fogo.

David Mourão Ferreira
Jogo de Espelhos, Presença, 2011

Livro do desejo - poemas de Leonard Cohen


Guy Bourdin

Ela entrou no meu pé com o pé dela
e entrou na minha cintura com a neve dela.
Entrou no meu coração a dizer,
"Sim, é isso mesmo."
E foi assim que o corpo de solidão
se viu coberto por fora,
e por dentro se viu
o corpo de solidão abraçado.
Agora sempre que tento inspirar
ela segreda à minha falta de ar,
"Sim, meu amor, é isso mesmo, isso mesmo."

Leonard Cohen, Livro do Desejo, quasi, 2008

sábado, 17 de dezembro de 2011

por vezes a chave do sonho


Fotografia de Annie Leibovitz


a tua hipnose de alma vê o vazio
mas há um outro lugar, a suavidade distendida –

a imperfeição das margens não pode condicionar os rios
e as aves intermináveis não interrompem os cursos livres,
voam por sobre a barragem abrupta
que suspende o leito
e bicam incessantes a saída –

não permaneças nas vestes de tecidos pesados,
é triste e mudo o espelho deitado, horizontal sob a lua,
sem a dupla característica, sem a envoltura de um olhar vertical,
omisso no frente a frente que ilumina olhos e lança braços como lenhos
- a árvore magnífica, grande –

as palavras são uma armadura ronceira, pesada, imperfeita,
em algumas batalhas movem-se sem jeito.

as palavras perdem-se no ruído de rotinas
não se escutam, nem sempre dizem
e reinventam-se por vezes no almofariz de um alquimista
como um cálice de persistente loucura, mas boa e cheia de sentido -

as palavras batem cruamente nos desenhos de um muro, por vezes não entram
no som oco do tijolo, na porta, na fechadura
e deformam-se e misturam a incompreensão dos sinos
mas por vezes como chaves dirigidas, têm boca e têm dentes
e rodam certas no cronómetro do tempo
provocam a síncope na anacronia que colocava anteriormente
um aro em volta do espelho como uma redoma de espinhos

e a porta abre no primeiro lugar, no suave distendido
num cimo do monte
onde os pés podem ser mãos,
despentear os cabelos e tapar os ouvidos

um eco completo que inunda as planícies -

josé ferreira 17 dezembro 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

o nº 1 da revista ATHENA _ Outubro de 1924

















Tive a oportunidade de consultar e fotografar o nº1 da Revista ATHENA - Revista de Arte, dirigida por Fernando Pessoa e Raul Vaz,editada em Outubro de 1924 e na qual se publicou a tradução do poema "O Corvo" de Edgar Allan Poe, as Odes de Ricardo Reis e ainda a peça de Almada Negreiros "Pierrot e Arlequim". Resolvi partilhar algumas dessas páginas.

sobre a evidência do sonho - fragmentos de Coimbra de Matos


Gerard Richter

«Um corpo que não sonha
é como uma casa desabitada
- a ruína é o seu destino»

«Nascemos de um sonho, vivemos no sonho,
morremos quando o sonho acaba. E a cura
analítica não é mais que a abertura ao sonho;
acaba quando o paciente sabe sonhar»

A. Coimbra de Matos

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

seria indevido como um relâmpago


Thomas Struth

seria indevido como um relâmpago
partir ao meio o tronco
separar o som dos sinos
os mil fragmentos dos vidros -
quem poderá ser anjo sempre
de asas caídas
quando sopra o vento sul
e se perde a bússola
e se perdem os dias, os dias
os dias prometidos
e se perdem as causas e se embrulha um lençol branco
um sudário sem cor e sem espinhos
porque foi uma partida, um desvanecimento físico
um desvanecimento de presença e de sentidos
uma ausência de leituras
vapores insolúveis arrumados dentro de frascos antigos
em prateleiras largas de cerejeiras, polidas de ceras
aos pares, em brincos, vermelhos, sobressaindo
de aromas verdes de folhas, mal apreendidos –

sobram brancos e cinzentos
e seria indevido o silêncio das fontes
a elegia da sombra
ao omitir as gotas de água, para que a sede subsista
para que a semente se elimine -

josé ferreira 15 de Dezembro 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

areias esvoaçantes


Renée Magritte

(...)
Areias esvoaçantes, sob o foco dessa luz, enchiam-lhes o quarto, o claro território da ternura.
Então adormeceu, com a mão dela na sua mão, e entre os cabelos dela. A princípio ainda escutava, no fundo longínquo de si, o pulsar das nascentes do sono; depois tornou-se tudo azul e inefável, era o prolongamento daquela felicidade de asas e orvalho.
(...)

Urbano Tavares Rodrigues

entrei pelo mar - um poema de Ruy Cinatti




Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.

Ruy Cinatti

sábado, 10 de dezembro de 2011

saliento esse silêncio que te abarca


Gerard Richter Tate Gallery

saliento esse silêncio que te abarca e te reduz, não o uses.
na demasia, fractura e alucina, esfuma,
desvanece a brasa simbólica no manto escuro do céu;
essa lua magnífica que envolta, rodeia e se envolve
num crepúsculo de segredos. sublima
perto das pontas dos dedos, nas faces verdes,
nos musgos certos que decoram os muros. afirma
essa dança habitual, o acordeão, o violino,
o sublinhar das melodias, e desliza
por sobre a frialdade das noites
como a musa dos gregos, do parténon,
das ágoras duplas e inventadas,
esse lugar de ninfa
acariciando na ponta dos pés
as pedras mais difíceis -

josé ferreira 10 dezembro 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quero sentir brotar a espiga do universo - um poema de Paul Eluard




(...)
Quero sentir brotar a espiga do universo

Tenho o sublime instinto da chuva e do fogo
Fecundo a terra e restituo à luz
O leite dos seus anos férteis em milagres
E devoro e alimento o esplendor do céu

Apenas temo a sombra atroz do silêncio

Pronuncio pedra e aí se aninha a erva
Aí se reflecte a vida excessiva e móvel
A penugem de um pássaro é musgo no granito
Uma débil trepadeira devora um muro de pedra

O canto do rouxinol diminui a noite

Presa do alto a baixo em minha voz flexível
A floresta aglutina-se ou então entra em férias
Ravinas e pântanos em minha voz renascida
Aligeiram-se como um corpo que se despe e canta

Mares planícies desertos nasce o dia na terra

Vitoriosa aventura das cores dos sabores
A flor é o fermento da minha língua faladora
O tempo não passa quando o ruído cintila
E refaz cada aurora com o nome de uma flor

(...)


Paul Eluard, Algumas das Palavras, Trad. António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, Dom Quixote, 1977

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Próspero morreu (II) - um novo livro de Ana Luísa Amaral




"Em Próspero morreu, aquele que é o seu primeiro texto em forma dramática, Ana Luísa Amaral convoca vozes vindas de tempos diferentes e tradições diversas, que falam do amor, do poder, da ambição – e da magia. “Próspero morreu” e, com ele, uma ordem chegou também ao fim. “Sem liberdade é o poder um monstro / de braços bifurcados e língua bifurcada / onde se alojam leis sem pensamento / e se torna viscoso o coração” – o aviso é de Ariel, “ser vindo do caos e do abismo”, cuja voz anuncia a chegada à ilha de gentes de paragens várias. Será na ilha que se entrecruzam os vários fios que dão lugar às histórias de Penélope, de Teseu e Ariadne, de Barbara (a escrava) e Luiz, e também a história de amor entre Ariadne e Caliban." retirado do blog Graphias

Foi esta a história do labirinto,
as ilhas, e além.
E eu, que a contei, ou eu, coro de nós,
irei ficar em história.
Escrava dos tempos, mas do tempo livre.
Que mais a desejar, senão memória?
Caiu a noite. E sopra um vento fino.
E não é já assombro
assombro tal?

Ana Luísa Amaral

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


era uma mulher escrita há muito tempo
ou talvez fosse uma mulher sentada numa cadeira
com a hipótese de cair lá dentro
a sala à volta era suficiente
mas ela interessou-se pelo espaço quieto dentro da madeira
na quase divergência que era ver-se
com um infinito por dentro
a ser ultrapassada devagar
era a cadeira o mais apetecível
o importante equilíbrio da matéria sem vontade
será o não saber do problema da velocidade das coisas
que a debruçava para dentro
porque havia espaços mais quietos ali
espaços onde certamente os espaços dela podiam ser atrasados
não a forma e o nome de esperar
teriam ali dentro ficado debruçados de outros
e acima de tudo o que não podia entender era que de entre as duas
a que ficasse não devolvesse ali quieta
a história de movimentos lancinantes
de demandas a moinhos bem explicados
da velocidade ridícula a que se gastam as coisas vivas

tinha um século aquela cadeira
à medida de a assustar
e não lhe devolvia quase nada
a não ser que lhe fora escrita por um infinito
para outro que lhe iria nascer e sentar-se
na mesma cadeira
que a ultrapassou devagar