domingo, 25 de setembro de 2011
sobre o amor solúvel e a insensatez
o pior de um último acontecimento
a indiferença
temo que aconteça - disse, olhando o lago -
caíram três gotas de nuvens, as arestas e as notas do piano,
pontiagudas -
o rosto soou como um vidro partido, um ar escuro e o vazio
na impermanência da janela,
qual plano inclinado da planície que mistura verde e castanho,
arbustos, árvores e terra, o longínquo de uma lã,
os latidos de um cão grande, a capa grossa e um rebanho,
ínfimo, no ponto distante do plano, na perspectiva
sem fim, e sem saída -
as notícias falam de crise, os factos juntam-se no possível precipício -
muito ao fundo corre a linha d’água, o trajecto, o pormenor diluído,
nada se distingue de original; apenas tudo igual, apenas similar a tudo;
não houve o deslumbre, o arco-íris, o peso de chumbo no cristal antigo -
resta o presente, imprevisto mas exacto, como a rotação e o eixo, o dia e a noite,
a lua infinita -
o pior de um acontecimento, recente
Setembro, o mês de vindimas, os cachos loiros e outros de veludo
azul, um líquido impossível, néctar doce que acidula
e ganha o corpo, a densidade que se oxida e vaporiza
o morno quente, passados anos, alguns de vida -
e depois a impreparação para o súbito
o derrube
e a ausência -
e o silêncio -
José ferreira 25 Setembro 2011
sábado, 24 de setembro de 2011
Primeira imagem - um poema de Ana Luísa Amaral
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Veneza aos gatos
Lisboa às moscas e Veneza aos gatos…
(os pombos da bondade só conspurcam
a praça de S. Marcos)
… ao gato perna alta que não vem quando o chamas,
ao contrário da patrícia mosca,
que não era para aqui chamada,
mas logo te soprou os últimos zunzuns
mal chegaste a Lisboa.
O gato de Veneza não te dá pretextos
para miares o que te vai na alma,
nem os sacros temores da miaulesca
esfinge rilkeana.
Não é um gato é um perfil de gato
tapando a saída da calleta.
O gato veneziano é gato sem regaços
e sem selvajaria.
De Veneza o gato é sempre muitos gatos
que vão à sua vida…
… como tu, afinal, não vais à tua.
(De Veneza a Lisboa, num zunido,
já trazias a mosca no ouvido…)
Alexandre O'Neill
Assinar a Pele, Assírio & Alvim, 2001
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
tento não pensar muito nas coisas
.
tento não pensar muito nas coisas
que quero fazer porque - as mais das vezes - se penso, penso demais e não as faço. e, se não as faço, fica-me uma sensação de perda por nunca as ter feito. como uma constante inconclusão de mim própria. outras vezes faço-as, sem pensar, mas na verdade não as devia fazer. e depois de já as ter decidido e começado, não consigo voltar atrás. numa espécie de mudança de ideias que não muda nada. como se cada decisão implicasse a recompensa ou o castigo de a ver realizada. feita. cumprida. e agora que penso nisso,
pergunto-me o que estou a fazer - e porquê - que não tenho ideia de o ter decidido
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tento não pensar muito nas coisas
que quero fazer porque - as mais das vezes - se penso, penso demais e não as faço. e, se não as faço, fica-me uma sensação de perda por nunca as ter feito. como uma constante inconclusão de mim própria. outras vezes faço-as, sem pensar, mas na verdade não as devia fazer. e depois de já as ter decidido e começado, não consigo voltar atrás. numa espécie de mudança de ideias que não muda nada. como se cada decisão implicasse a recompensa ou o castigo de a ver realizada. feita. cumprida. e agora que penso nisso,
pergunto-me o que estou a fazer - e porquê - que não tenho ideia de o ter decidido
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raquel patriarca | vinteedois.setembro.doismileonze
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Sobre a ausência de Sophia e Júlio Resende
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
sobre verdade suprema - um poema de Casimiro de Brito

Wang Wei Hua
Quando me perguntam pela verdade
suprema ou apenas se conheço
a origem do pó
sento-me a teu lado
como se eu fosse uma folha branca
e fico à espera que tu entres
silenciosamente
na minha morada
como as águas entravam e os ventos
no painel de mica
que o poeta Wang Wei deixava
à porta da sua cabana
Casimiro de Brito
terça-feira, 20 de setembro de 2011
manhã atribulada

Magritte
a violência de uma casa louca.
as paredes abrem brechas, olhos negros
as tábuas dobram-se na forma pipas e barcos
os tectos desafiam o tempo no pêndulo dos candeeiros
a ausência de exorcismo solta a gargalhada
e acendem-se chamas:
“não há saída para o inferno
só entrada” - uma voz clama
três pancadas e a claridade
uma gota de suor atinge as rendas da almofada
a escuridão de um sonho perde a nitidez do desastre
o almofariz da manhã espalha um pó de luz -
na frincha do soalho a elipse fixa
e os olhos semi-abertos, semi-fechados
na incógnita sobrevivente, sem textura -
josé ferreira 20 Setembro 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
La Mer
Sarah Brightman - La Mer por chedouce
Ancient unkown animals
On a stormy sea
Like Buddha in the water
A velvet energy
As the night takes over
The spirits of the deep
Marvel at his majesty
The whale is in his sleep
La mer...
You're shimmering through
La mer...
Magnificent blue
Shimmering through the water
In search of sanctuary
Currents travel faster
In alien territory
Dancing in the distance
In a puff of spray
In a single moment
The dolphin glides away
La mer...
You're shimmering through
La mer...
Magnificent blue
La mer...
domingo, 18 de setembro de 2011
daqui são dois pés
de substâncias amedrontadas
seguem-se de pequenos
não de sustentarem agudos de gaivotas
a chamar a sombra dos chapéus antigos
às mesmas paredes
mais o quê
não há mais água
a água lembra-se de toda a água que já foi
até voltar a ser-nos
(ouvi o mar ter conversas estranhas com a água dentro de mim
à janela redonda do décimo andar de um navio)
estou envolvida com outra coisa
se é um bicho sozinho no universo
no instante de uma cereja
a imaginar
para passar de me cair
(nem vazios que saibam coser)
caio-me mais do que me quero
onde só precisávamos de ver o chão
muito antes do tempo de dois pés
de substâncias amedrontadas
seguem-se de pequenos
não de sustentarem agudos de gaivotas
a chamar a sombra dos chapéus antigos
às mesmas paredes
mais o quê
não há mais água
a água lembra-se de toda a água que já foi
até voltar a ser-nos
(ouvi o mar ter conversas estranhas com a água dentro de mim
à janela redonda do décimo andar de um navio)
estou envolvida com outra coisa
se é um bicho sozinho no universo
no instante de uma cereja
a imaginar
para passar de me cair
(nem vazios que saibam coser)
caio-me mais do que me quero
onde só precisávamos de ver o chão
muito antes do tempo de dois pés
o triunfo de Vénus

Cszaba Markus
a distância no aparo muito fino de uma canetilha
onde era costume tornear mapas de continentes
realçar as fronteiras e nomear a origem;
a cultura sólida e a liquidez dos mares -
mas não é este caso, a causa próxima -
da profundidade dos cabelos
nascem linhas, a forma e um objectivo
na complexidade de óleos da china
um quadro, um rosto, o sfumato
a face lisa de uma subtil continuidade -
e tudo fica subentendido, a raíz -
como confessa Apolo no longínquo oceano
há sempre o risco e a substância
quando se perde o lugar dos olhos, a linha azul;
mas não se ignora Cronos, o mostrador do relógio,
e surge a gota de sangue
o desespero da distância
o relâmpago de Vénus, o fumo na varanda
e o silêncio -
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Mar - os poemas de José Almeida Silva

Wagner Lima
Gota de água
São uma gota de água estes três anos
E a poesia uma poalha de ouro –
Constroem um tesouro os poetas.
Que o diga o mar de azeite inacessível –
2011.09.09
José Almeida da Silva
.........................................… olha como é brutal o mar.
O mar intacto
Só agora o mar lhes entrou pelo olhar
Trazendo-lhes na espuma esboços de futuro.
Ela surpreende-se de êxtase e desvelo
Dedilhando o recém-passado na maré;
Ele retrai-se diante do oceano imenso
Mas a graça da terra sonha-lhe o futuro.
O futuro e o mar enlaçam-se em segredo
E a esperança e a terra prometem liberdade.
Em mim, os outros são eu sem medo da cidade
E eu o mar na minha transitória eternidade –
2011.09.08
Soneto
Olho os navios que ainda não chegaram
E os pássaros anunciam-me os teus olhos
Eu corro para o cais buscando os molhos
Da ternura que as aves felizes te levaram.
E agora que as ondas vão crescendo,
Vai crescendo o desejo de te ver,
Pois sinto a minha alma a sofrer
E todo o corpo aceso te querendo.
O distante horizonte se aproxima
E os navios em festa vão entrar
No cais do nosso amor que se ilumina,
Para que tu, meu amor, e eu contigo
Naveguemos o Amor no seu altar –
Mar de ternura que guardei comigo.
2011.09.05
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Como se constrói uma casa

Manuel Amado "Terraço com cadeira II" 1992
1
No princípio pega-se no mar
que os olhos previamente transformaram
num mar inexistente
por fora da memória.
Para tal, uma janela serve:
desoculta e dá luz.
Com essa luz depois
é que se lava o ar.
2
O ar que está por dentro
e o ar que está lá fora.
É uma bruma de cor
que ao pairar entre as coisas
nos retira dos olhos
o cisco real.
3
E depois a parede
a que ninguém se encosta,
ela mesma encostada
mas a esta parede.
a poltrona, uma bola,
a banheira banhada
pelo quente aquário
onde os peixes pararam.
4
Ninguém olha de lá,
todos olham para lá.
No terraço não há
mais que olhos para ele.
Nesta sala não está
quem dormite ou quem vele,
quem por ela zele:
só do lado de cá
está
quem faz a pele.
5
E assim passou a ser
uma casa de ausência
não só de gente dentro,
também de casa mesmo.
A passo construída
De tinta e de latência,
Vazia e ocupada,
veio a vida viver
aonde é exigida
com que finta premência.
Remundo exagerado,
sono purificado,
nada reformulado,
Mondrian recheado.
Pedro Tamen Janeiro 1994
in Um poeta/ Um pintor - Manuel Amado/Pedro Tamen ed. Casa Fernando Pessoa, Lisboa, 1994
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR - POEMA

FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR
à beira-mar.
e é da interrupção deste desejo
que nasce este desejo;
é da interrupção desta capacidade
que se realiza esta capacidade;
é da organização do som
que se mede o poder do embate;
é do soluço desta peixidez
que fazemos por fim nosso
o nosso mar;
sempre uma coisa na dependência
dessa mesma coisa ou algo
à beira-mar.
sempre uma nova pessoa
que nasce dela mesma.
Sylvia Beirute
em Uma Prática para Desconserto (4Águas, 2011)
Nocturnos

I
Há um inverno cansado nas copas extáticas
e as estrelas acendem-se de um vento alto
que azula o céu
de um azul que a noite vai roendo consigo
As grades, ao prolongarem-se por aí fora,
trazem-me um sinal contínuo de muro falso
e enferrujado.
As grades não apontariam nada,
se cada uma delas se prolongasse também
no voo completo de ambas as curvas da seta.
II
Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.
E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
— os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.
III
Contaram-me, quando era pequeno,
a história de várias estrelas,
não a história dos nomes que têm e não conhecem
[por nós,
sim uma história em que eram estrelas,
verdadeiras estrelas nem pregadas no céu,
Muitas vezes, ouvir contar foi só:
estar de cabeça pousada no peitoril da janela
a vê-las tremeluzir...
e tornarem-se mais salientes com o escurecer.
Muitas vezes, foi só
aceitar o frio e fechar a janela
— e, em pequeno, não era eu quem a fechava.
IV
Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.
Nas noites claras de mar imenso,
enquanto a proa ia ensinando às águas
o murmúrio para depois, ao longo do navio,
os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.
Para baixo do centro havia três estrelas juntas.
Quando calhava passarem por entre duas,
repetiam todo o princípio
e vinham passar por entre as outras duas.
V
Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.
VI
Há um inverno nas copas extáticas
e as estrelas acenderam-se de um vento alto
que azulou o céu
de um azul que a noite foi roendo consigo.
VII
Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.
Jorge de Sena
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
a chegada do mar
.

.
.
espero a chegada do mar.
espero que venha por mim e que fique,
livre da lua, do tempo e do movimento das marés.
espero que me lave a alma,
que me faça naufragar no esquecimento do mundo,
que me dispa de pecados e culpas.
espero a chegada do mar
como se fosse um pôr-do-sol
na infância ou uma madrugada
de maturidade.
espero a chegada do mar
que traz em si o amor e a vida,
que nascem em mim em laivos de fogo e de céu.
espero a chegada do mar
que me vem abraçar e que, no entre-
cortar da respiração, apaga a tristeza e
desfaz a solidão.
quero ser a terra que lhe faz de leito e
o céu do horizonte, mas sou ainda
a desfigura nublada que na margem
se mantém presa à rocha e exposta no
vento, onde espero a chegada do mar.
.
raquel patriarca | setembro.doismileoito
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