segunda-feira, 18 de julho de 2011

Poema - Maria Teresa Horta


Malevitch

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no coração enfebrecido

Primeiro a floresta em seguida
o bosque
mais do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é noz
e depois ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

Maria Teresa Horta "Poemas Leya" 2009

domingo, 17 de julho de 2011

a carta, um conto ou as palavras lançadas ao mar


imagem retirada da internet

não conseguiu caminhar na areia mas foi ver o mar.
na mesa branca pousaram o café quente e negro
ao qual disse: obrigado.

no imediato a chávena de asa de porcelana
inclinou-se por sobre os lábios e tornou-se branca,
na totalidade, como a mesa, a cadeira
e uma gaivota que passava planando em direcção à onda,
desafiando a gravidade.

jazia esquecido o romance de um escritor conhecido,
ressonava no sono pesado; não teve coragem
tornou-se silencioso, e lentamente colocou-o no canto da mesa
que era branca como a cadeira, a gaivota
e uma folha que entretanto colocara ao centro,
vazia e alinhada.

deixou fluir as palavras pelo meio dos dedos
em transe, como quem recebe uma descarga;
os olhos muito abertos e dinamite no tronco
lançando faíscas, imperceptíveis na generalidade
de todos os outros que cruzavam os braços
escutavam as frases, decifravam as vagas
ou liam apenas notícias dos jornais.

a folha perdeu o anonimato e aqui e ali
sofreu a mancha de um traço,
por fim tornou-se pesada e completa;
o alívio de não mais ser branca
como a mesa, a cadeira, a gaivota
e as espumas fragmentadas que subiam acima das rochas.

colocou-a cuidadosamente à frente dos lábios
e perante o espanto de alguns que observavam,
soprou com força as palavras
para que o mar as levasse, mesmo assim
impermeáveis e sem garrafa.

dobrou a folha densa em quatro e com muito cuidado
sem acordar o livro que ressonava de forma estranha
levantando aqui e ali a capa, duas ou três páginas
colocou-a de uma só vez, junto ao prefácio.

um euro e vinte, disse o empregado;
bom dia, muito obrigado.

de livro aconchegado na almofada do braço,
oitocentas páginas,
subiu as escadas e desapareceu com a carta,
em direcção à cidade -

as mesmas palavras erguiam as velas como naus
e seguiam marítimas os caminhos do mar -


José Ferreira 17 Julho 2011

sábado, 16 de julho de 2011

um poema de Cesariny


Gerhard Richter 1984

Muito acima das nuvens seja o centro
das nossas misteriosas poéticas
o irresistível anseio de viajar
um só movimento trabalhado à mão
nos ermos mais altos
mais desaparecidos

Mário Cesariny "Autografia e outros poemas de Pena Capital", Assírio & Alvim

sexta-feira, 15 de julho de 2011

diálogo à lua





um sentimento vago e flutuante, dizes,
conhecido como os lavagantes
que andam no fundo do mar;
e no entanto, não o vejo assim -

começou persistente nos acordes de uma melodia longínqua,
impermeável à neblina das manhãs cinzas.
não o vejo assim -

na longitude dos dias,
como no corte largo e duro da cortiça, mostra-se a essência clara,
o diáfano da árvore, o fruto do sangue que cresce da terra,
película a película, pelos caminhos finos das raízes -

e o sentimento habita a guarida do espírito,
tecido autêntico de prata, ouro e platina,
e predomina, na moldura que enclausura
por sobre as águas lancinantes,
o início,
a noite e a luz branca,
impregnada de altitude -

José Ferreira 15 de Julho de 2011

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Nós todos e cada um de nós




Nota: o texto que se apresenta de José de Almada Negreiros reproduz-se na íntegra como foi publicado em Lisboa no ano de 1924

- Sabem quantas pessoas tem havido desde o principio do mundo até hoje?
- Duas. Desde o principio do mundo até hoje não houve mais do que duas pessoas: uma chama-se humanidade e a outra individuo. Um a é toda a gente e a outra é uma pessoa só.
Um dia perguntaram a Democrito como tinha chegado a saber tantas coisas.
Respondeu: Perguntei tudo a toda a gente.
Bastantes seculos mais tarde Goethe confessou por sua propria bocca que "se lhe tirassem tudo quanto pertencia aos outros, ficava com muito pouco ou nada".
Por aqui se vê que cada um é o resultado de toda a gente; o que de maneira nenhuma quererá dizer que seja o bastante ter cada qual conhecido toda a gente para que resulte immediatamente um Democrito ou um Goethe! Precisamente o difficil não é chegar aos Grandes, mas a si proprio!...Ser o proprio é uma arte onde existe toda a gente e em que raros assignaram a obra-prima.
O que está fora de duvida é que cada um deve ser como toda a gente, mas de maneira que a humanidade tenha effectivamente um bello representante em cada um de Nós.

"Pierrot e Arlequim", personagens de Theatro. Ensaios e dialogo seguidos de commentarios por José ALMADA NEGREIROS com um autoretrato dois figurinos um desenho allusivo e o motivo de capa

Portugalia Editora 78, rua do Carmo, 75 Lisbôa Nov. XXIV

XLVVIII


De um filme de Godard


Dois amantes felizes fazem um só pão,
uma só gota de lua sob a erva,
deixam andando duas sombras que se juntam,
deixam um único sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios, mas com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A alegria é uma torre transparente.

O ar, o vinho, vão com os dois amantes,
a noite dá-lhe as suas pétalas felizes,
têm direito aos cravos que apareçam.

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

Pablo Neruda " Antologia Breve" Dom Quixote 1977

terça-feira, 12 de julho de 2011

depois passa -




“It’s four in the morning
I’m writing to you now just to see if you are better”
Leonard Cohen

não me peças palavras vestidas de penumbra
a subtileza escura de um jogo de espelhos
adensa-se a noite, estou triste como uma folha solta
no pó do jardim, enrolo-me nas teias presas
um adesivo sem cura, uma mancha de tabaco -

as persianas da janela escurecem a cidade, fecham o quarto
abrem o rádio, fecham o rádio
estou denso no meio da alma e guardo as palavras;
foi um terramoto, sabes -

dá-me um instante, alguns miligramas de silêncio
depois passa -
dá-me o sossego de um refúgio nos olhos fechados
em que polpa dos dedos não percorre o contorno dos lábios
um piano leve de Schubert, nas mãos, a pele do teclado
como um bálsamo que descansa a lava dos sonhos, fortes
ternos, doces, sem névoas nem moinhos moendo as velas -

adormece-me o escuro, estou cheio de medo
como a figueira abandonada e plena de frutos maduros
por onde passam os pássaros e dão bicadas -

inseguro
desculpa, não fiques preocupada
depois passa -

José Ferreira 12 de Julho 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma carta no livro de Philip Roth


Eliseu Visconti

"Sim lembrava-se dela e da sua história e de ela lhe ter pedido que matasse o marido, como se fosse um ganster de cinema e não um simples doente num hospital psiquiátrico que, apesar de corpulento, era tão incapaz como ela de pôr termo ao seu próprio sofrimento com uma arma. Abundam os filmes em que as pessoas se matam a torto e a direito, mas a razão pela qual se fazem todos esses filmes é que 99,9% são incapazes de o fazer."

A carta:

"Talvez você não saiba, mas o facto de ter ouvido a minha história com atenção contribuiu para que me aguentasse. Não que tenha sido fácil. Não que o seja agora.Não que alguma vez venha a sê-lo. O monstro com quem fui casada causou danos irreparáveis na minha família. O desastre foi maior do que eu sabia quando fui hospitalizada. Vinham-se passando coisas terríveis desde há muito tempo sem que eu soubesse de nada. Coisas trágicas que envolviam a minha filhinha. Lembro-me de lhe ter perguntado se não queria matá-lo por mim. Disse-lhe que pagava. Pensei que você podia fazê-lo porque era muito grande e forte. Você foi compreensivo e não me chamou de louca quando eu lhe disse aquilo, deixou-se ficar sentado a ouvir a minha loucura como se eu estivesse no meu perfeito juízo. Estou-lhe grata por isso. Mas há uma parte de mim que nunca voltará a ser mentalmente sã. Não pode ser. Estupidamente condenei à morte a pessoa errada."

Philip Roth "Humilhação" 2011

De um poema de Pablo Neruda - O homem invisível




...e olho as estrelas
deito-me na erva, passa
um insecto cor de violino
ponho o braço
num pequeno seio
ou sob a cintura
da doce mulher que amo,
e olho o veludo
duro
da noite que treme
com as suas constelações congeladas,
então
sinto que sobe à minha alma
a onda dos mistérios,
a infância,
o choro às escondidas,
a adolescência triste,
e dá-me o sono,
e adormeço
como uma macieira,
fico a dormir um instante
com as estrelas ou sem as estrelas,
ou com a amada ou sem ela,
e quando me levanto
foi-se a noite,
e a rua despertou antes de mim...

em Poesia do séc XX Pablo Neruda Trad. Fernando Assis Pacheco "Antologia Breve" Dom Quixote, Lisboa 1977

sábado, 9 de julho de 2011

pela noite que se adensa




pela noite que se adensa e me reentra dentro, penso
como seria diferente
se soubesse voar, nocturno, acima das luzes
aos milhares
contá-las
uma a uma, como segundos que se gastam
descendo a encosta esquálida
de olhos no mar, até à reentrância azul
- foz natural, recepção oceânica -
onde estás
rodeada de círculos, por vezes laminar
no bico das arestas, no gume molhado das faces
quando centrípeto, divago
de centímetros cinza no caminho lasso
- período fraco de metamorfose -
como ilha no espaço.

abres e abres-me
a existência imaginária
desordenada
a viagem, na vertigem branca
a lua, que se alimenta
nos largos lábios de sal;
nas margens emplumadas
nas flores de prata;
oferenda submersa e vasta
na lisa lousa das palavras -

José Ferreira 9 Julho 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um poema de Eluard a Pablo Picasso- Palavras Pintadas


Pablo Picasso


Para tudo compreender
Tudo
A árvore adorada dos cipós e lagartos
Para compreender o fogo
Para compreender o cego

Para reunir a asa e orvalho
Coração e nuvem dia e noite

Para abolir
A careta do zero
Que amanhã rolará sobre o ouro

Para talhar
As pequenas maneira
Dos gigantes que se alimentam de si mesmos

Para ver todos os olhos reflectidos
Por todos os olhos

Paul Eluard "Algumas das palavras" Antologia organizada por António Ramos Rosa, Dom Quixote, 1977

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Partes de um poema de Keats - Ode a um Rouxinol


Édouard Boubat

......
Como eu queria partir para longe, voar para ti
não sobre o carro de Baco e os seus leopardos,
mas com as asas invisíveis da poesia
embora, vagaroso, o pensamento ainda hesite e se demore.
Assim apareço, subitamente, ao teu lado! A noite está calma
e, como uma rainha, a lua talvez permaneça no seu trono
cercada por todas as suas fadas, as estrelas;
mas aqui, onde fiquei, nenhuma luz pode brilhar
a não ser a que chega pelo céu com a brisa
através das sombras verdes e dos sinuosos caminhos
cobertos pelo musgo.

Não posso reconhecer as flores debaixo dos meus pés,
nem que suave incenso flutua sobre os ramos,
mas, pela noite perfumada, adivinho cada aroma
que este mês propício veio entregar aos bosques,
à relva, aos frutos das árvores silvestres,
ao espinheiro branco e à rosa brava dos prados,
às últimas violetas escondidas por entre as folhas
e à filha primogénita de Maio, a rosa almiscarada
e entreaberta, cheia de um vinho orvalhado,
asilo, nas tardes de Verão, dos insectos rumorosos.

.....

Não nasceste para morrer, tu, ave imortal!
Nenhuma geração impaciente pode apagar o teu vestígio,
e o canto que escuto nesta noite fugitiva
também foi ouvido, outrora, por reis e aldeãos;
talvez esta seja a mesma harmonia que atravessou
o espírito triste de Ruth, quando recordava o seu lar
e chorava diante das searas dum país estrangeiro;
a mesma que veio encantar tantas vezes as janelas
mágicas que se abriram sobre a espuma
dum mar ameaçador, em lendárias terras esquecidas.

.....

Jonh Keats "Poesia Romântica Inglesa" (Byron, Shelley, Keats) Trad. FFernando Guimarães, Relógio D'água, 1992

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O silêncio de uns


Almada Negreiros

Não se classificam os versos alheios escritos no pó dos anos
Como pensamentos dos nossos olhos; curiosidade apenas
O deslumbre de diferentes formas de ordenar as letras.
Não se reduzem a cinzas as chamas luminosas de platina
Mesmo que a noite se pinte no mais escuro e renove a lua.
Não se esquece nunca as mitologias, os ventos diáfanos
As pinturas coloridas que atrasam os dilúvios
E revelam na cor de prata, o novo mundo -

O silêncio de uns, pode ser ruído -

José Ferreira 6 Julho 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

Um poema de Edgar Allan Poe - Soneto-Silêncio


Almada Negreiros


Há certas qualidades...tais compósitos
Com uma dupla vida, a que assiste
Uma entidade gémea que consiste
Em luz e em matéria, sombra e sólido.
Cindido é o Silêncio: mar e cais,
Corpo e Alma. Um vive solitário
Em campo raso, e faz-se temerário
Mercê de humanos ecos, rituais
E indulgências...seu nome "Nunca mais".
Tal Silêncio tem corpo: não temais!
Pois por si só não pode fazer mal;
Mas se vos lança o Fado inexorável,
De encontro à sua sombra (elfo inefável
Que assola os ermos onde outrem jamais
Pisou)...vos guarde Deus então a alma!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Fragmento XI - Quando o meu dedo por inadvertência





Por inadvertência, o dedo de Werther toca no dedo de Carlota; os pés sob a mesa, encontram-se. Werther poderia abstrair-se do sentido destes acasos; poderia concentrar-se corporalmente nestas fracas zonas de contacto e gozar este pedaço de dedo ou de pé inerte de modo fetichista,sem se inquietar com a resposta. Mas: Werther não é perverso, é um apaixonado: sempre e em toda a parte, Werther dá sentido a um nada e é o sentido que o faz estremecer: está no ardor do sentido. Todo o contacto, para o apaixonado, levanta a questão de resposta: pediu-se à pele que responda.

Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70