A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.
Reparaste por me aproximar, precisei
do desvanecer de teu receio, que fosse
sereno e doce onde
não conhecias quase ninguém.
Não sabia que dei um passo, até me dares
a garantia de não atracar ao largo.
Aceitei não haver horizonte, e depois
como não recear seres um ilusionista, mesmo
ao segurares minha mão.
Se estivesse eu longe, que não estou, e
me dissesses o que esperar, para não apenas
lembrar como pousam os teus olhos sincronizados
com sorriso tão aberto.
Assim não sei se descanso.
não sei como falar-te nos dias intermédios. sobre um leito de nuvens, o sol, amarelo, deitado. sobre a rua a luz branca e o movimento a cidade cinzenta, e no entanto a ameaça de um fogo incidente, que não se vê que não sucede, que não se mexe permanece no silêncio, como um espírito que se sente e não diz quando.
não sei como falar-te na voz dos pássaros aqueles trinados de folha em folha, de ramo em ramo como naquela tarde mais segura, vinda de dentro qual marioneta sem saberes de pensamento seguindo uma mão de sol, um braço sem relento um rosto onde os cantos dos lábios bem sabes, como a lua, um berço crescente balouçando o mar ao som de uma ária ; uma harpa, um violoncelo, um piano -
não sei como de novo falar-te, prometer um rio de ouro em grito lancinante, sem medo um gomo húmido e tangente, 50 000 estrelas uma nuvem sem tempo, sem pressa, sem ausência -
tudo depende desse lugar que sempre mostra sem possibilidade de ordem, a fantasia e a pedra a filosofia e a fome,o icebergue e o fogo o Id sem ego -
não sei como falar-te, não sei como dizer-te apenas sei que nos dias intermédios, me lembro e não sei se me conheço -
Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo recto
Da construção possível
Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla
Desde a sombra do bosque desde a orla do mar
Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado
Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído
As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga
A língua torceu-se na boca de Sibila
A água que primeiro eu escutei já não se ouvia
Só Antínoos mostrou o seu corpo assombrado
Seu nocturno meio-dia
Sophia do Mello Breyner Andresen
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Já não lembrava ter encontrado este poema num blog, nem mesmo ter deixado o improvisado comentário. E agora, também por aqui fica. Deixo também um abraço para cada um dos residentes.
apenas a areia
e as rochas
não fazem parte
do grande conclave do mundo
Ana Peluso
Comentário:
Grande? Os grandes
O conclave do mundo? Mundano
que sei eu
faz-me pensar poder dizer apenas
apenas areia? A areia
e as rochas? É eterna a areia
Tudo se transforma
na areia a memória da rocha
enquanto não é rocha, outra
lentidão certa
tudo o que faz parte
a água que não apenas contorna
sensata, natural a defesa
a terra que a aceita
a água que ignora conclaves
e invenções
A água baila sempre
até onde bate e quando se vai no ar
não ignora o frio nem o sol
nem o mais pequeno grão de areia
também aí está
e faz parte da descoberta
Diogo esperava na companhia do folheado de impressões, ideias de futuros projectos de pinturas capazes de lançar confusão na mente mais aberta; traços negros em quadrículas de tinta da china, quase sem objectivos. Abraços, encontrões, ricochetes, cruzadismo sem palavras, charada de acasos. Diogo gostava de classificar a sua forma de abordar a arte como um agricultor na rega; deixar a água entrar, chegar ao fim da leira, fechar, e abrir a nova entrada à água/inspiração. Sempre atento, sempre alerta na descoberta de um efeito novo. Em casa, os blocos pareciam acomodar-se nos sítios mais invulgares, acenando aos visitantes: -Olá! Eu sou o bloco nº1, não desista, procure, numa prateleira perto de si, na frincha do sofá, em cima do frigorífico, junto ao comando da televisão, pode encontrar os meus irmãos, nº2,nº3, ….,etc.! Funcionava como distracção para os amigos mais próximos, habituados à rotina, durante o café, no intervalo de um filme. Não sentiam a necessidade de solicitar autorização, invadiam a intimidade do artista, arejando as folhas de gramagem acima da média, movimentando o bloco em baralho de cartas, procurando a animação no ondulado das linhas. Algumas eram preenchidas com espaços a cor, aguarelas que acrescentava. A valorização dos amigos não o seduzia, classificava-os como filhos da casa, peças da sua própria engrenagem, críticos de máximos, em bajulação ou feroz oposição. Utilizava técnicas mistas, por vezes desconcertantes no seu objectivo de pintura abstracta, valorizando a pureza do olhar. Certo dia a pedido do irmão foi buscar a sobrinha ao infantário. Chegou carregado com seis telas de 40x60 cm, embaladas em papel castanho. Sob o olhar divertido dos educadores, improvisou uma exposição entre gritos e saltos, palmas, risos dos pequenos circunstantes. A cada um deu pincéis nº 2,4 e 6, e ali perante a animação geral, improvisou o concurso, a votação, o quadro eleito pelo jardim escola “Girassol”. Convidou nessa noite os seus amigos para um café e amena cavaqueira. Sem aviso, num jeito de vamos dar início ao espectáculo, anunciou votação de um a cinco com os dedos no ar e por fim alinhou os quadros por pontos. Conclusão alarmante ou nem por isso, entre algumas divagações filosóficas de arqueólogo de pinturas rupestres, confirmou o total desacordo com a análise e selecção dos seus convivas. Naturalmente no rame rame alargado das profissões tradicionais, não estavam preparados para a análise pura das crianças, que decalcam mãos cobertas de gouache, que se deliciam atrás de libelinhas sem sacos de rede, que saltam de pés para o lado e franzem narizes arrebitados, que esticam os olhos e deitam línguas de fora sem medo do ridículo. - A minha escolha!- dizia Diogo, orgulhoso do resultado - é a delas! Aquelas pequenas aventuras passavam mas eram respeitadas pelo artista que ainda guardava o quadro de nome “O Girassol”, em exposição permanente, acima do fogão de sala com título a letras manuscritas na parede, onde sempre que podia colocava uma caixa forrada de colagens, oferta da sobrinha, em missão de jarra, com um girassol. Acrescentava que o quadro em acrílico de tons azul suave, ligava muito bem com o girassol. Quem não conhecia a história, gostava, e queria muitas vezes comprar o quadro, a suposta jarra, o girassol, oferecendo para o efeito quantias avultadas. No diluir do tempo, a resposta, em movimento pendular do rosto de Diogo para o quadro, para o comprador,de forma repetida,para o quadro, para o comprador, surgia com um sorriso e um seguro: - Não seria capaz! Este quadro representa muito para mim! Teria que pintar de novo a parede! Está no lugar certo!
durante qualquer coisa
que possa ser tomada como
medida de tempo –
uma vida, uma soluço, tanto faz –
abandonei-me das dúvidas e acreditei
acreditei nos milagres, nas mentiras, na possibilidade
de todos os impossíveis e de todos os infinitos.
acreditei por vontade de esperança.
para fugir ao cinismo e ao tédio. acreditei por desespero
agora sofro as dores de estarem moribundas
as expectativas. sangra-me a vontade
e, em breve, uma lividez inerte limpará os vestígios
de quaisquer boas vontades pensadas ou cometidas
serei incólume.
entregue a nada. crente em nada. pela rendição
aos absurdos, parte integrante de algo indiferente. em
repouso e à espera, sem tecto e sem relento, que
entretanto, o vento
Pensei que o nosso breve amor tinha terminado. A sua última recordação seria uma distante chamada telefónica pelo Natal. Acreditei que tinha acontecido algo de muito bom na tua vida, que não necessitasses mais do que nos uniu; ou que, talvez vivesses algo de mau e estavas tão triste que não tinhas vontade de escrever. Não sei. Dei voltas sem fim e coloquei muitas hipóteses mas não cheguei a nenhuma conclusão satisfatória. Melhor, cheguei a uma, e essa talvez já a soubesse antes: que passasse o que passasse, mesmo que o tempo ditasse a sua lei, iria sempre recordar-te como o rapaz do sorriso mágico. O rapaz que só de olhar para mim fazia sentir-me bem, porque olhava de uma terra inteiramente desconhecida, mas que ainda assim era segura, como uma casa que atrai e acolhe com lírios os viajantes cansados.
Apesar que reconheço que mantive sempre a esperança de que um dia, uma carta tua, chegasse de novo às minhas mãos. E dentro das mãos, dentro de mim, nas marcas das palavras, pudesse olhar desenhado o palpitar nas covas do teu rosto, sonhando que precisasses da minha mediação para que o teu sorriso mágico nunca acabasse.
O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe ...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos ...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
a explicação célere do universo não revelará estrelas. por isso bela a filosofia e a sua procedência de segredos.
há uma fábula feita de palavras que encanta quando os pássaros falam e as nuvens trémulas de cinzas se sentam a dar conselhos, objectivos de portas brancas sem sombras pálidas nem lugares indomáveis. duas a duas as linhas de um tracejado; traço intervalo traço e na distância traço intervalo traço olhos fechados e almas cobertas de folhas. quase se sente o horizonte habitando o deserto transformado num mar largo onde inquieto balouça um barco e uma imagem; à ré, à proa , batendo de um lado, inclinando no próximo nódoas negras de tábuas, tropeços nas cordas soltas à direita, à esquerda, querendo saber qual a realidade de mãos abertas e nós desfiados dos dedos.
gémeos batimentos leves nos vidros da ilusão . o tempo ganha um lugar silente e o tempo pára. pode ser uma hora ou um segundo a pequena picada de vespa e a vermelhidão o agudo sintoma expansivo uma gota engolida como um comprimido que adormece miligramas de seratonina como morangos de Viena dando voltas pelos labirintos como um passeio de bicicletas sem paredes , sem espelhos gastos de diferenças que esticam os olhos e engordam as formas. transforma-se em grande a pequena gota tão real, que leva à sua volta toda a chuva miudinha a um belíssimo lugar de desejo, guardião de sono ao tocar indelével o desconhecido -
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
peco sempre que solto o meu pensamento e te encontro no espaço liquido de bolha de sabao levada no vento a toa em purpurinas de brilho peco sempre que imagino o teu gosto e te beijo sorvendo o sal e o doce que de ti se desprende labios de carne rosada tintos de sabor peco sempre que as minhas maos desenham o teu rosto contorno redondo e quente do amor tatuado a ferro e fogo no mais fundo de mim e peco neste lugar sem pecado nuvem suspensa e leve de algodao doce como tu peco mas nao tanto