humildemente na consciência da história erros erros inscritos como raios o paradigma de uma tempestade de silêncios.
flua o rio, a seiva,a mãe árvore o incenso da verdade que derrube as montras gastas de palavras apertadas que derrame o néctar de um fio de horizonte; um anel de fumo branco do fundo da terra;
a essência de mãos e dedos como escudo das espadas dos desertos e das sombras -
às dezoito e trinta de um dia de domingo uma a uma as folhas de eucalipto o seu sentido e um aroma intenso, opulento de natura; liberto fumo de uma lei pura às dezoito e trinta. domingo.
folhas de eucalipto ferventes, nebulosas, sobrenadam dentro de um lago de oriente resultam fumo gotas condensadas lâmpadas de imagens de Aladino voadoras, como danças indescritas extremos quadros, alegorias e uma tontura às dezoito e trinta -
acordes de gitanos, harpejos, harpejos e uma nota de piano lânguida, suspensa - um desejo de domingo.
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva, com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar. Por vezes tudo se ilumina. Por vezes sangra e canta. Eu digo que ninguém se perdoa no tempo. Que a loucura tem espinhos como uma garganta. Eu digo: roda ao longe o outono, e o que é o outono? As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento. Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra. Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas. - Era uma casa – como direi? – absoluta. Eu jogo, eu juro. Era uma casinfância. Sei como era uma casa louca. Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava. Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade. Apalpo agora o girar das brutais, líricas rodas da vida. Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas, uma rosa como uma alta cabeça, um peixe como um movimento rápido e severo. Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada. Há copos, garfos inebriados dentro de mim. - Porque o amor das coisas no seu tempo futuro é terrivelmente profundo, é suave, devastador. As cadeiras ardiam nos lugares. Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento como seres pasmados. Às vezes riam alto. Teciam-se em seu escuro terrífico. A menstruação sonhava podre dentro delas, à boca da noite. Cantava muito baixo. Parecia fluir. Rodear as mesas, as penumbras fulminadas. Chovia nas noites terrestres. Eu quero gritar paralém da loucura terrestre. — Era húmido, destilado, inspirado. Havia rigor. Oh, exemplo extremo. Havia uma essência de oficina. Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras, com as suas maçãs centrípetas e as uvas pendidas sobre a maturidade. Havia a magnólia quente de um gato. Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura. Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa. As mãos tocavam por cima do ardor a carne como um pedaço extasiado. Era uma casabsoluta – como direi? - um sentimento onde algumas pessoas morreriam. Demência para sorrir elevadamente. Ter amoras, folhas verdes, espinhos com pequena treva por todos os cantos. Nome no espírito como uma rosapeixe. - Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados agora nas palavras. Prefiro cantar nas varandas interiores. Porque havia escadas e mulheres que paravam minadas de inteligência. O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar. O leite cantante. Eu agora mergulho e ascendo como um copo. Trago para cima essa imagem de água interna. - Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema. Ou o poema subindo pela caneta, atravessando seu próprio impulso, poema regressando. Tudo se levanta como um cravo, uma faca levantada. Tudo morre o seu nome noutro nome. Poema não saindo do poder da loucura. Poema como base inconcreta de criação. Ah, pensar com delicadeza, imaginar com ferocidade. Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia, com furibunda concepção. Com alguma ironia furibunda. Sou uma devastação inteligente. Com malmequeres fabulosos. Ouro por cima. A madrugada ou a noite triste tocadas em trompete. Sou alguma coisa audível, sensível. Um movimento. Cadeira congeminando-se na bacia, feita o sentar-se. Ou flores bebendo a jarra. O silêncio estrutural das flores. E a mesa por baixo. A sonhar.
Torner "quatro quartetos - quatro estações (a T.S.Eliot))" 1979
como se fosse um intervalo na exortação dos crocodilos
entre dois rios e outras noites um deus de pequenas coisas revela as horas de todos os nomes; um jardim sem limites em busca do tempo perdido; o caminho de Swann.
a faca não corta o fogo de 366 poemas de amor; a luz da sua lucidez passeando sob a brisa de uma cidade invisível.
combateremos a sombra de sentimentos à deriva
na outra margem da memória -
josé ferreira
Tradução de um roubo de palavras:
O segredo do Rio - Miguel Sousa Tavares
Se fosse um intervalo – Ana a Luísa Amaral Entre dois rios e outras noites- "
Exortação dos crocodilos – António Lobo Antunes
O Deus das pequenas coisas – Arundhati Roy
As horas – Michael Cunningham
Todos os nomes – José Saramago
O Jardim sem limites – Lídia Jorge
Combateremos a sombra - “
Em busca do tempo perdido – Marcel Proust O caminho de Swann "
A faca não corta o fogo - Herberto Hélder
366 poemas de Amor – Vasco Graça Moura
A lucidez do Amor – Tânia Ganho
Um deus passeando sob a brisa da tarde - Mário de Carvalho
não encontro a diferença a fronteira, se o universo são palavras.
prosa ou poesia? similares talvez espelhos milhares de imagens de orgulhosa insubmissão tão rectilínea que uma a outra e outra a uma se inveja e sublima e não houvesse entre terra e nuvem toda a chuva que aproxima
e mais, tanto mais me anima este gémeo desafio das palavras quanto é tão fértil a humana tranquilidade de saber que existe um paraíso
imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonámos a flor.
dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.
diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.
Amanhã 4ª feira pelas 17H00 tem início o encontro da Póvoa de Varzim "Correntes d'escrita". Ana Luísa Amaral vai animar a 1ªmesa juntamente com outros notáveis das nossas letras. É concerteza um bom programa para quem tiver possibilidade de estar presente. Pelas 22 horas segue-se o lançamento de livros.
1ª MESA: "Escrevo para desiludir com mérito" A.B.L Ana Luísa Amaral Eduardo Pitta Fernando J.B. Martinho Gilda Nunes Barata Zuenir Ventura Catherine Dumas - moderadora AUDITÓRIO MUNICIPAL DA PÓVOA DE VARZIM
22h00 Lançamento de Livros Ana Luísa Amaral, Inversos - Poesia 1990-2010, Dom Quixote Inês Botelho, O Passado que Seremos, Porto Editora J.J. Armas Marcelo, A Ordem do Tigre, Teorema Lourenço Pereira Coutinho, Cinco de Outubro, Sextante Manuel da Silva Ramos, Três Vidas ao Espelho, Dom Quixote Tânia Ganho, A Lucidez do Amor, Porto Editora
o rosto no brilho de marfim vê a água, rápida, na fonte de pedra no meio do bosque.
o rosto. um ponto branco juntando verde e água; uma terra vestida de um tom musgo de veludo do qual se liberta uma névoa que sobrenada, esvoaçando, a transparência do espaço.
o rosto, depois o corpo nos pés de sandália roda as árvores de ramos verdes, onde pássaros cinzentos de bicos acesos dão as notícias, as notícias do bosque: hoje cresceram mais folhas - trezentas.
o rosto que passa entre este e aquele lado; a fonte, a árvore, o musgo, em pequena dança, lava a alma do poeta num banho de certezas; solta e salta nos olhos de água.
o rosto do bosque. um ponto branco no liame dos braços ruboriza.
Pergunta às árvores da rua que notícia têm desse dia filtrado em betume da noite; se por acaso pressentiram nas aragens conversadeiras, ágil correio do universo, um calar mais informativo que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos do sol e do espaço, que viram ou bicaram de mais estranho, seja na pele das estradas seja entre volumes suspensos nas prateleiras do ar, ou mesmo sobre a palma da mão de velhos profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas de sono que precede a vida e a consuma, sem que a vigília intermédia as liberte e faça conhecedoras de si mesmas, que prisma, que diamante fluido concentra mil fogos humanos onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo de clepsidra, areia e carocha se foi desenrolando, lento, no calado rumo do infante a divagar por entre símbolos de símbolos outros, primeiros, e tão acessíveis aos pobres como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta perfilado à porta do tempo, aguardando vez de possível; pergunta ao vago, sem propósito de captar maiores certezas além da vaporosa calma que uma presença imaginária dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'