terça-feira, 9 de março de 2010

Z


Georges Braque "O português"


As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.

António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

segunda-feira, 8 de março de 2010

8 de março




humildemente
na consciência da história
erros
erros inscritos como raios
o paradigma
de uma tempestade de silêncios.

flua o rio, a seiva,a mãe árvore
o incenso da verdade
que derrube as montras gastas
de palavras apertadas
que derrame o néctar
de um fio de horizonte;
um anel de fumo branco
do fundo da terra;

a essência de mãos e dedos
como escudo das espadas dos desertos
e das sombras -

domingo, 7 de março de 2010

dezoito e trinta


eucalipto (retirado da internet)


às dezoito e trinta de um dia de domingo
uma a uma as folhas de eucalipto
o seu sentido e um aroma
intenso, opulento de natura;
liberto fumo de uma lei pura
às dezoito e trinta.
domingo.

folhas de eucalipto
ferventes, nebulosas, sobrenadam
dentro de um lago de oriente
resultam fumo
gotas condensadas
lâmpadas de imagens de Aladino
voadoras, como danças indescritas
extremos quadros, alegorias
e uma tontura às dezoito e trinta -

acordes de gitanos, harpejos, harpejos
e uma nota de piano
lânguida, suspensa -
um desejo de domingo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Súmula



Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa – como direi? – absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta – como direi? -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder, Poemacto II

quinta-feira, 4 de março de 2010

Lancaster


Lake district Lancaster (retirado da internet)



no lugar de montanhas e lagos
dois mil metros, quadrados
passo a passo
perto da cidade de Lancaster.

o gelo escorregadio no ano 84
um lugar parado, longo, largo.

nas brumas de pura lã
o recorte de altitude na distância;
um redil de água, uma moldura cinzenta
um espelho branco

as maçãs frias e um fogo de silêncio -

Vivaldi - Inverno

quarta-feira, 3 de março de 2010

O segredo do rio


Torner "quatro quartetos - quatro estações (a T.S.Eliot))" 1979


como se fosse um intervalo
na exortação dos crocodilos

entre dois rios e outras noites
um deus de pequenas coisas
revela as horas de todos os nomes;
um jardim sem limites
em busca do tempo perdido;
o caminho de Swann.

a faca não corta o fogo
de 366 poemas de amor;
a luz da sua lucidez
passeando sob a brisa
de uma cidade invisível.

combateremos a sombra
de sentimentos à deriva

na outra margem da memória -

josé ferreira



Tradução de um roubo de palavras:

O segredo do Rio - Miguel Sousa Tavares

Se fosse um intervalo – Ana a Luísa Amaral
Entre dois rios e outras noites- "

Exortação dos crocodilos – António Lobo Antunes

O Deus das pequenas coisas – Arundhati Roy

As horas – Michael Cunningham

Todos os nomes – José Saramago

O Jardim sem limites – Lídia Jorge

Combateremos a sombra - “

Em busca do tempo perdido – Marcel Proust
O caminho de Swann "

A faca não corta o fogo - Herberto Hélder

366 poemas de Amor – Vasco Graça Moura

A lucidez do Amor – Tânia Ganho

Um deus passeando sob a brisa da tarde - Mário de Carvalho

As cidades invisíveis – Italo Calvino

Sentimentos à deriva – Yves Simon

Na outra margem da memória - Vladimir Nabokov

terça-feira, 2 de março de 2010

Porque - a melodia de pianos


Gerhard Richter "Betty" 1978


A nossa cosmografia não tem textura definida
Encosta o azul riscado das gangas nos ramos distraídos
Desliza o brilho acetinado nas sedas de Viena

Reinventa o subtil estado imaterial;
Não é névoa, nem água ou imóvel sólido
Impávido de ventos

Não sobrevive de silêncios
porque todas as melodias dos pianos
transbordam o impossível esquecimento -

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Porque

«Porque», de Sophia de Mello from blocsdelletres on Vimeo.




Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

prosa ou poesia?


René Magritte "A grande família" 1963


não encontro a diferença
a fronteira, se o universo são palavras.

prosa ou poesia? similares
talvez espelhos milhares de imagens
de orgulhosa insubmissão tão rectilínea
que uma a outra e outra a uma
se inveja e sublima
e não houvesse
entre terra e nuvem
toda a chuva que aproxima

e mais, tanto mais me anima
este gémeo desafio das palavras
quanto
é tão fértil a humana tranquilidade
de saber que existe um paraíso

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um dizer ainda puro


Klimt 1911


imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonámos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.


Vasco Gato, "Um Mover de Mão" Assírio & Alvim

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Correntes d'escrita





Amanhã 4ª feira pelas 17H00 tem início o encontro da Póvoa de Varzim "Correntes d'escrita". Ana Luísa Amaral vai animar a 1ªmesa juntamente com outros notáveis das nossas letras. É concerteza um bom programa para quem tiver possibilidade de estar presente. Pelas 22 horas segue-se o lançamento de livros.


1ª MESA: "Escrevo para desiludir com mérito" A.B.L
Ana Luísa Amaral
Eduardo Pitta
Fernando J.B. Martinho
Gilda Nunes Barata
Zuenir Ventura
Catherine Dumas - moderadora
AUDITÓRIO MUNICIPAL DA PÓVOA DE VARZIM


22h00
Lançamento de Livros
Ana Luísa Amaral, Inversos - Poesia 1990-2010, Dom Quixote
Inês Botelho, O Passado que Seremos, Porto Editora
J.J. Armas Marcelo, A Ordem do Tigre, Teorema
Lourenço Pereira Coutinho, Cinco de Outubro, Sextante
Manuel da Silva Ramos, Três Vidas ao Espelho, Dom Quixote
Tânia Ganho, A Lucidez do Amor, Porto Editora

23h00
Sessão de Poesia

AXIS VERMAR

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

pés de sandália


Juan Romero " A casa do pastor" 1990

o rosto no brilho de marfim vê a água,
rápida, na fonte de pedra no meio do bosque.

o rosto. um ponto branco juntando verde e água;
uma terra vestida de um tom musgo de veludo
do qual se liberta uma névoa que sobrenada,
esvoaçando, a transparência do espaço.

o rosto, depois o corpo nos pés de sandália
roda as árvores de ramos verdes,
onde pássaros cinzentos de bicos acesos
dão as notícias, as notícias do bosque:
hoje cresceram mais folhas - trezentas.

o rosto que passa entre este e aquele lado;
a fonte, a árvore, o musgo, em pequena dança,
lava a alma do poeta num banho de certezas;
solta e salta nos olhos de água.

o rosto do bosque.
um ponto branco no liame dos braços ruboriza.

os pássaros dão logo a notícia-

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Inquérito


Hiro Yamagata "Bubbles" 1983


Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.

Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.

Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.

Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.

Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.

A ti mesmo, nada perguntes.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Intervalo (II)


Ricardo Asensio "Amanhecer de um Rio" 1968

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.


Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.