segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Até já

Caros Ana Luísa, Ana, Clara, Inês, Joana, José Almeida e José Ferreira,

Demoro-me nesta ausência, de corpo e de palavras, porque... os dias encolheram (-me). Fico assim, queda em mim, à espera que o pensamento me espreguice. E é entre montanhas que o frio se abriga.
Para dizer que não estarei no jantar. Perdão.
Foi um prazer (e não o digo por simpatia) partilhar finais de quarta convosco. Ouvir-vos. Ler-vos. Falar-vos.
Obrigada.
E até já.

ana lúcia figueiredo

Sobre(leva) as asas de cera



Sobreleva o sol de inverno
sem arbustos de mistério
de contíguas sombras.
Clara a manhã azul claro.
Abertas as asas brancas longe
longe de ópios de "Opiários"
de Orientes de "Clepsidra"
de anos vinte parisienses
entre longas cigarrilhas
e os líquidos absintos.

Mas mesmo assim sobreleva
a luz louca dos artistas
inspiração de génios
"surpassados" de limbos.

Não esqueço, não se esquece
mas sobreleva o ar frio
compartido ou vazio
dentro ou fora de um
um quintal homónimo das cores.

Qual jardineiro de abas largas que passeia sobre
o asseio das flores na manhã de inverno
um bom dia mais branco e brilhante de terras
onde houve ervilhas, de cheiro, das outras
a postura deitada dos melões
o crescimento dos feijões.

Qual jardineiro na surpresa dos ramos verdes de laranjeira
e alguns frutos de cascas prontamente desbulhadas
em aromas, sabores e sumos. doçuras.

Sobreleva o sol de inverno
só, e sente-se a ténue aragem de sorrisos;
rostos "surpassados" nos seus limbos;
ares lunáticos de Dali
geometrias de Klee
guitarras coloridas de Juan Gris
imaginárias fantasias -

Sobreleva as asas de cera, inseridas
sem lugares marcados de cinzas
sem chamas, sem pavios, lisas
macias, com alma branca e solta
sem os olhos injectados de quadrículas

Sobre(leva) acima, acima, acima -

domingo, 13 de dezembro de 2009

Exercício de Emilly 632

porta, mais que parede,
siga-se a mais velha
que a outra continha
e tu de lado
a dobra
o som que se adivinha
ah a asa

ar vo r ar

de orgãos portáteis
passados a ferro
a alta velocidade
em dia de TGV
e aquele verde atrasado
pasmado à janela -

os homens têm vergonha das árvores

sem mãos de algemas
à mostra à terra

à noite
os homens choram
e injectam-nas

de olhos verdes enormes
riem lá em cima, quietos
à procura de raízes no ar

sábado, 12 de dezembro de 2009

Poema


Stéphane Poli "Ilha de Moçambique" 2004

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim, 1999

Em Copenhaga


Paul Klee "Quadro de cidade com pormenores vermelhos e verdes" 1921



“ Em Copenhaga...” - o cabelo louro.
as frases de ritmo lento.
aqui e ali a palavra inglesa:
“How do you say?...” o pequeno lapso
o espaço de uma recordação -
o olhar brilhante.

Quando se descobriam horizontes
sem GPS, a esperança do monóculo
que descia a lente redonda
o mais próximo diâmetro
na procura, na descoberta : “Eureka!”
(“...já vejo terras de Espanha ...”areias da Dinamarca).

“Em Copenhaga...” - o olhar brilhante
o cabelo louro e uma mesa metálica
desengonçada, na perna mais curta , torta
o tampo raso, ralo onde sobrevive o copo
o álcool, o malte e o sotaque.

“ Em Copenhaga...” - o rosto em fios
uma cortina e o pára-brisas
as mãos, gestos na face afirmativa
inquieta, insilente, incisiva na defesa
de súbitas e ambientes melhorias.

“Em Copenhaga...” - muita polícia
a insanidade climática e fria
de quem decide sem pertença
uma outra cor, a impossível
se vazia e branca a cor do colarinho
se mais escura a cor verde
no balanço medido de um tempo
de dióxidos, oxigénios e carbonos
que viajam de Concorde
entre Amazónia e Nova Iorque;

“Quem me dera uma ilha e uma horta”

“Em Copenhaga...” - incipiente e sem saída.
Não há memória de Quioto.
Sólida só a ausência pura do ar
e a esperança de um olhar brilhante
de um cabelo de ouro
que recomeça a história:

“Em Copenhaga...”

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

quem me explica mãe?


Este poema foi composto na notícia real e horrível de mais um caso de violência doméstica à cerca de uma semana. O poema pousou durante alguns dias e agora que de novo deparo com o mesmo horror resolvi publicar.

quem me explica mãe?



empedernida e cinzenta a tarde
a tarde da notícia medonha:
"ex-fuzileiro mata na ambulância
completa a dor de uma sirene
morre o polícia incrédulo
nas mãos trágicas de um Rambo."
horror! chacina! mãe salva filha;
seis anos de vida, um mau colorido.

quando for grande , um outro mundo
mas quem explica o domingo
o dia, o relâmpago
o último instante - sobrevive
o sangue - mãe salva filha.

quem explica o grito: "mãe! mãe!"
quem explica o grito: "não! filha!"

"quem me explica mãe?
quem me leva ao parque mãe?
quem me explica os ouriços
as castanhas da índia?
mãe!mãe!
quem me explica a luz assassina mãe?
os olhos de tigre?
as palavras malignas?
antes das tuas tão lindas mãos
como arcos soltando as crinas
salvando a cria.
quem me explica mãe?

mãe - tu não morreste

Drogas

Olá a todos!

O 7º trabalho de casa para a última sessão é sobre drogas. Como base de apoio foram fornecidos os seguintes textos:

"Como um deserto imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?
(...)

Camilo Pessanha "Branco e vermelho" (1867-1926)

(...)
Nem ópio, nem morfina. O que me ardeu,
Foi o álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)


É antes do ópio que a minh'alma é doente
sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.
(...)

Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa) (1888-1935) " Opiário " 1915



EUA/Angola:«Parceria Estratégica» discute tráfico de drogas e de pessoas
17 de Novembro de 2009 03:02

Washington, 17 Nov (Lusa) - O tráfico de drogas e de pessoas foram discutidos na primeira sessão do "Diálogo de Parceria Estratégica" entre Angola e os Estados Unidos, refere uma declaração do Departamento de Estado norte-americano.

Delegações dos dois países reuniram-se na segunda-feira pela primeira vez no quadro desse "Diálogo" acordado durante a visita que a secretária de Estado, Hillary Clinton, efectuou a Angola em Agosto.

O acordo prevê encontros regulares de grupos de trabalho para discutir "questões de preocupação mútua".

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Olá, amigos de palavras, estive calada, tempo demais.
Lamento a minha não presença no último encontro de poesia. Mas, conforme já tinha comentado, a minha princesa mais velha fez anos nesse dia, e como entendem, há tanta poesia na preparação e execução de um jantar de festa, que era de todo impossível a minha ida ao Porto.
No entanto, confirmo a minha presença no próximo dia 16. Agradeço muito, e isto é para si, José, que poste o trabalho de casa logo que possível. Beijos

Fecho a porta
trancada do lado de fora
recebo o frio no rosto
recebo a noite minha irmã
como tu escura
como tu mentira
olho bem alto
pontos brilhantes encontro
que não me iluminam a alma
asas me crescem no dorso
abrem-se em toda a sua envergadura
já não sou eu
em anjo me transformo
anjo de manto negro
na brisa gélida da noite plana
vagueia errante sem sentido
de pensamento liberto
de coração acorrentado
a vontade de voar é brutal
dor funda sente no peito
algo o atinge sem contar
as asas recolhem sem aviso
os pés no chão sinto
sou eu
pouco depois adormeço com sabor amargo nos lábios

Concurso de desenho

Caros poetas e poetisas,
não querendo misturar as artes, mas já misturando, lembrei-me de vir aqui fazer um apelo.
Eu concorri para um concurso de desenho da Throtlleman, uma loja de roupa maioritariamente para crianças e adolescentes, e os vencedores determinam-se pelo numero de votos nos desenhos. Os votos sao feitos no site http://www.mundofunny.com/, em "concurso de desenho". Ao ir para a "galeria", os meus dois desenhos estão na página 12 e dizem Maria Inês ao lado.
Para votar é necessario um registo rapido no site - nome, email, etc. - e o numero de estrelas corresponde ao quanto gostam do desenho. No dia 15 a votação fecha e quem tiver mais estrelas e depois mais votos ganha.
Portanto, se tiverem paciência, e se acharem que os meus desenhos até merecem 5 estrelas (ou então que eu mereço porque até sou uma menina simpática de vez em quando) poderiam perder uns minutinhos e ajudar-me :)

Um grande beijinho e obrigada!

Maria Inês Beires

Há cidades cor de pérola onde as mulheres V


Matisse "A janela azul" 1913



Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.




Herberto Helder
Lugar
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sessão aberta e Jantar

Depois de recolher as preferências de todos os que responderam e após contacto com a Ana Luísa ficou marcada a última sessão aberta do Curso de Escrita Criativa de Poesia (III), seguida de Jantar, para as 19H00 do dia 16 de Dezembro.
Todos os anteriores participantes estão convidados para este encontro onde, se para tal tiverem oportunidade, podem também participar do último trabalho de casa que publicarei aqui no Blogue.

Continuação de festividades poéticas

Grande Abraço e Até breve

Haikai - Vários




Aurora Boreal Lapónia (retirado da Internet)

H1 Se...
SE a pradaria junta o trevo e a abelha
como a aurora a noite e a madrugada
- o sonho sopra asas e absorbe

H2 Revery
"revery" e som
- imperial o tom


H3 Peso em libras
O peso em libras de Deus
-é nada

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Os aromas discretos das flores de sal




Uma manhã moderna seguiu o mar
"foot by foot" na canção do metrónomo.
Passou o lago sem patos ao primeiro sinal
e de barro, pousados, na última passagem;
águas paradas, um vítreo plano de prata.


Uma manhã moderna os atletas
de gorros e luvas pretas
cumpriam uma corrida sem metas
atingiam clareiras de pássaros adormecidos
e o apito seria mais bonito se fosse corneta
o som possante, brilhante dos metais.

Uma manhã, manhã moderna
no intervalo de um cansaço, estava trémula
sentada na relva madura, a pele húmida.
longe estava o lago e era leve um sussurro
sem nexo, um sussurro de falésias
burilado no ruído de marés - estava perto.

Um manhã, manhã moderna
as nuvens caíram no mar
como flocos doces de um açúcar de feira;
as águas tornaram-se doces, calmas.
não era monótona a cor da areia: dois tons
de um lado mais branca e seca
do lado do mar o horizonte molhado, sem marcas
as marcas de um caminho de pés
que em segredo, nas costas, as mãos
as mãos brancas levavam aos barcos
longe, tão longe, sem remos, sem redes
porque sabia divertidos os peixes
sempre que as ondas descalças
cobriam as linhas, as gravadas plantas
e desnudavam aos poucos os vermelhos
os vernizes no rosto dos dedos.

Uma manhã, manhã moderna
a camisola longa, as calças azuis
as sapatilhas de corrida, sózinhas
e as meias, os desenhos das cerejas
- os brincos de princesa -
sorrisos de infância nos lábios
rubros, displicentes de sumo
ao afastar as águas.

Uma manhã, manhã moderna
sentia as ondas, os segredos do mar;
as nuvens doces e os aromas mais discretos
das flores de sal.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Uma flor para Di Cavalcanti


Emilio Di Cavalcanti

"Criar é acima de tudo dar substância ideal ao que existe." - Di Cavalcanti


Esta é uma flor para Di,
uma flor em forma di-
ferente: de flor-mulher,
desabrochada onde quer
que exista amor e verão.
Verão como a cor cinti-
la nas curvas, e sorri
nesse púrpuro arrebol
que Di tirou do seu Rio
coado de mel e sol.
Uma flor-pintura, zi-
nindo o canto de amor
que acompanhou toda a vi-
da do pincel, o gozo-dor
de criar e de sentir, di-
vina e tão sensual ração
que coube, na Terra, a Di.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.