domingo, 19 de julho de 2009

A vida é sonho


(não sei de quem é mas gostei!)

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.



Pedro Calderón de La Barca (1600-1681)


Tradução de Renata Pallotini
Editora Scritta, Rio de Janeiro, 1992

sexta-feira, 17 de julho de 2009

H2O



a cápsula fechada
na garrafa de vidro e água
no gargalo hidrogénio agitado
de catálise
gasoso e aéreo
sem ligação dupla de oxigénio.

A mulher mais bonita do mundo


Paula Rego Auto retrato a vermelho 1962




estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

quinta-feira, 16 de julho de 2009

AS ILHAS



Andy Warhol, sem título 1959




Qualquer que seja a viagem
protegem-nos as células, a genética das idades;
crescem-nos dedos de lagartos para subir as rochas.

Somos o ser agora nos filamentos futuros
as paisagens por abrir, o segredo dos rios míudos
a voz cissiada de mistérios nos halos das searas
o destino das seivas no segundo seguinte
o que está p'ra vir.

Não somos deuses mas homens
os não eternos, abertos nas costelas do tempo
gladiadores de fim próximo na escala dos séculos
anjos e demónios nos fios de teia frágil, suspensa
entre o infindável céu, o infindável mar
o impenetrável magma do ventre da terra.

E Somos!... Viajantes de dilúvios de Noé
de ondas graves e tábuas partidas nos Oceanos;
"Liliputs" de escafrando nas cidades submersas.

Mas Não Somos de Ninguém!...Unos, diferentes
construímos as nossas jangadas atingimos ILHAS.

As nossas ILHAS!

As ILHAS aguardam a chegada dos navios.

As ILHAS são o paraíso dos peixes
o descanso de algas, o lugar do coqueiro
das catatuas.

E são os pontos pequenos do mundo
quando vistas da Lua.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

VIVÊNCIA DOS TEMPOS ( comentário a Miguel Torga)

O Tempo foge-me

louco e desenfreado,

por muito que o queira reter,

tocar, ou agarrar

ou mesmo subtilmente prender...



Por vezes tenho louco desejo

de o encarcerar em mim,

p'ra que não possa fugir-me mais,

para que o possa assim dominar!



Não me restam dúvidas

que o tempo passado me fugiu,

mas tentei que me ensinasse

algo de sublime, ou de muito vital;

procurei ser receptáculo fiel

dos seus melhores ensinamentos,

p'ra que me ajude a agarrar

um Tempo ideal no presente,

p'ra que me ensine a amá-lo

sem desesperança, mas com amor,

e sem quaisquer critérios de submissão!



Nesta interdependência fulcral,

ou nesta amálgama de razoável vivência,

eu sobrevivo, e testo

a tamanha importância do Tempo;

por vezes vejo-me sem alternativa,

acreditando na louca decisão

da procura de um novo Tempo...



Como Miguel Torga em sua "Viagem",

eu assumo fielmente que

"em qualquer aventura, o que importa é partir,

não é chegar!" .

Interrogo-me se na viagem louca do Tempo,

não haverá a mesma percepção (?)

em relação a um Tempo vindouro

que se não pretende adivinhar?!...



Afinal, o mais importante pode ser

recriar ou reinventar um Tempo futuro,

partir para ele sem hesitação,

ou sem qualquer arrependimento,

por certo sem qualquer lamúria,

não importando saber

se o momento-instante do começo,

- quer para o bem, quer para o mal -,

poderá passar algum dia

a um qualquer tempo deserto,

sem chegada e sem qualquer fim?!...



Primordial é o Tempo da coragem,

da realização dos sonhos,

o Tempo do altruísmo e da abnegação,

mesmo que não haja homenagem,

ou um qualquer tipo de condecoração!




(António Luíz, 15-07-2009 )

The partisan

A melhor maneira de viajar é sentir



Amadeo Sousa Cardoso, óleo 1917 Pintura(Brut 300 TSF)



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

terça-feira, 14 de julho de 2009

Allegro nº1

Olha! Inventaram as estrelas
E criaram os pântanos,
E girafas, touros e zebras!
Há laranjas redondas para serem comidas!
Há cegonhas e baleias,
Pinguins e elefantes!
Há também elefantes de duas patas e sem tromba
Com dois braços e com pêlos no cimo da cabeça
Que falam como papagaios.
Obrigado Deus maluco!
Pela eterna loucura que nos deixaste.

No entanto a voz segue segura no meio dos braços





Soube que estavas sozinha na noite treze
sentada numa mesa de estrelas extremas;
pêndulos de luz na visível hipnose.

Não havia qualquer lírica que atingisse o teu céu.
Pareceu-me imprudente esse estar estranho e ausente.

Uma melodia evolava debaixo dessa mesa na figura
de um querubim pequeno de sandálias e asas brancas.

Hesitei nas palavras que achava únicas e leves.
Gravítico de nada não sabia porque seguiam autónomas.
Duas mãos - as minhas - esmagaram o cabelo castanho
o mal feito queixo.

Por momentos só a luz, a música, o ar de quem não deu
por nada... se nada ouvias de olhos fixos e rectos.

A força de mil homens soltou a mão esquerda
os cabelos de alfinete a outra impotente e pálida.

O recomeço da lírica em cima de uma mesa de estrelas
e o rasgo de um cometa ardente, insistente
de voo célere que despede os ombros...longe;
artifício de alcance que não atinge... não demove...
não alcança...

No entanto a voz segue segura no meio dos braços-

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Você e Eu




Você e Eu

Composição: Carlos Lyra/Vinícius de Moraes

Podem me chamar
E me pedir e me rogar
E podem mesmo falar mal
Ficar de mal que não faz mal
Podem preparar
Milhões de festas ao luar
Que eu não vou ir
Melhor nem pedir
Eu não vou ir, não quero ir
E também podem me obrigar
Até sorrir, até chorar
e podem mesmo imaginar
O que melhor lhes parecer
Podem espalhar
Que eu estou cansado de viver
E que é uma pena
Para quem me conheceu
Eu sou mais você
E... eu

A maior solidão é do ser que não ama

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 10 de julho de 2009

As cidades invisíveis






"Talvez seja mais fácil visualizar algo através da escrita do que através de um desenho. Alguns textos excepcionalmente bem redigidos possuem essa capacidade mesmo sobre as mais brilhantes pinturas, pois as suas descrições são mais vagas e sugestivas do que as linhas precisas de um desenho. Consciente de tudo isto, a artista americana Nora Sturges lançou a si própria um desafio tão impossível como aliciante: colocar na tela os ambientes fabulosos do livro "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino."

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A praia dos ouriços

Início de Julho mês abrasivo.
Gotas descolando a testa luzidia
junto ao mar.

Quando se pode se marca a areia molhada
traços de caminho breve nas horas quentes.
Um colar de brisa alisa em cada um
o silêncio de passos no socalco liso
de espuma e algas; enguias deslizantes
esguias de abandono nos dedos brancos
ao contrair frio dos vasos, azuis, finos
límpidos sinais de rios; um mapa em
movimento de areia e águas.

Sendo sempre o mesmo mar será sempre
a mesma onda que nos segue? Insígnia
de um céu destino que nos toca a alma
acerta a mente, na viagem e fuga
dos arenitos, roliços, e das conchas
capas leves em quedas de rebuliço.

Sendo sempre o mesmo mar será sempre
nova, essa água? Extensiva e circular
que se esconde, renova mais além
onde há cascos de navios, a linha
o voo agudo de asas marítimas.

Na praia dos ouriços sigo a queda do sol
a nitidez clara da lua quando chega
e pergunto se há alguém dentro de mim
que me solta as lágrimas
que me pára o vento
que me acende o riso?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A ceifa noutros lugares


Silva Porto (1850- 1893), A ceifa- 1884



NOUTROS LUGARES

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é tanto que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância permitissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.


JORGE DE SENA