segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Entrevista da Ana Luísa Amaral no Câmara Clara

http://camaraclara.rtp.pt/#/arquivo/228

María Valencia Insignia



María Valencia Insignia. O corpo condecorado de sal. Não demorou muito. Não demora muito, normalmente. As certezas têm mil patas e asas. As certezas são insectos a sul de todas as eventualidades possíveis. As certezas matam um homem em menos de um hino, que é a partícula de tempo imediatamente inferior ao instante abissal. E a evidência viaja à velocidade da luz. E o sal deposita-se no fundo, tão insolúvel e estéril como o enigma do olhar e o rosto aflito, a pose pretensamente indelével, pouca ou nenhuma maquilhagem visível, não fossem os demónios às avessas e às cegas conferir ao número um tom difícil, negro e difícil, com as secreções todas em teu poder, María, com a facilidade com que encarnaste o complemento directo numa frase onde o sujeito era a vítima. E eu, casualmente, o vilão.
Amar é defender a tese da nudez antes mesmo de esta ser vista. Numa rua deserta, alguém apregoa o impossível. É cálculo divinatório cheio de probabilidades de falhar, mas sem nenhuma inveja ou medo do dia seguinte. É humano, como as fezes. Mas é também eco da distância e a soma mais bela que se conhece de insucessos astrofísicos. Por isso eu não respeitei o teu credo, María. E depois de termos arrumado os teus estorvos e os meus, fomos brincar para onde a culpa beija a mais anaeróbia mentira.
Nus, necessariamente nus, em Marienbad.

domingo, 9 de outubro de 2011

Vozes - Lançamento de novo livro de Ana Luísa Amaral

luminosidades


de um filme de Godard


nada te posso negar, nem o vento como brisa
quando o calor é forte e aquece,
nem o raio de sol quando a neve é fria
e resistente se derrete -

nada te posso negar nas lágrimas de sal,
nem o mar nem as ondas,
nem o meu corpo de ossos bambos,
de luminosidades pirilampo
pelo meio das sombras -


José Ferreira 8 de Outubro de 2011

sábado, 8 de outubro de 2011

Adrianne e Paris



branco de nevoeiro na meia-noite insegura,
e o silêncio tão quieto da rua -

porque não pára um carro antigo de portas de árvore
no par do número da casa
no ímpar das glândulas que batem?

uma ave abre as asas;
os telhados de Paris, os escritores,
os dedos líquidos dos pintores -

Adrianne e os gatos
pela hora dos cristais -

de olhos em claro, sob um céu de Van Gogh
se escreve a incredível história;
nas não formas
no não tempo -

e de trompete as pontes -



José Ferreira 7 Outubro 2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Compostela

Fui sozinha

Ao decalcar o céu, reconheci-me
estrela de ósseas pontas, despojada de luz
O meu corpo recusava a força
de ser fósforo, caía sem lume na vegetação
e só roçava o chão das eiras, sabendo-o fruste

Caminhei pela manhã, a cada dia
entumecendo a paz em redor do túmulo
(trazia-o junto ao peito, o pequeno
ossário de um pássaro no granito)

Ao passar pelos acampamentos invejava
às tendas a prontidão para a elipse,
sem violência resumia os movimentos
do corpo

Dormi em albergues e estábulos
onde um cavalo ou uma peregrina muito velha
tinham morrido

Aprendi a descansar no perecível feno,
junto ao íntimo esterco dos outros
Não sustive a respiração


Andreia C. Faria

terça-feira, 4 de outubro de 2011

a intensidade de um poema de Shakespeare



a intensidade nunca saiu do seu rosto;
não indigno, não perdido, não indefinido, um pouco gasto -

ontem como hoje sempre a viu e sempre a via
como a única mulher nas areias longas,
apertando os sentimentos como água salgada, soltando o branco
e a chegada,
à praia -

sempre sentiu os sons da janela, a chuva e as dilatações do vidro;
os seus ruídos, e os ruídos longínquos dentro de si;
como ela o conhecia… nas mãos de asa… sabendo as linhas… as curvas…
os lábios entreabertos no lado interior da carícia -

sempre sorriu e sempre sorria, interiormente, na permanência incontida;
aquela dança lenta de baixar os olhos, erguer os ombros, abrir os dedos,
encurtar de gestos a planície iluminada, pela lua, em mil cinzentos -

sabiam-se assim, no rodear do tempo,de areia muito fina,
única, macia,
que não é relativa nem complicada pela física;
e corriam pelas noites magníficas na identidade dos espíritos,
vestidos pela luz sibilante dos diferentes,
em vício e adrenalina:

na dependência de escutarem o poema de Shakespeare
sempre, qualquer que fosse a distância,

como uma música -

José Ferreira 3 Outubro 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Pequeno Canto do Amigo - um poema inédito de Ana Luísa Amaral


Ay luz, ay luz do céu antigo,
não me trazeis novas do meu amigo
que em vós morreu tão cedo?


Novas nenhumas,
minha amiga,
que a luz desta cantiga
é agora como o vosso amigo


Ay tempo, ay tempo tão parado,
que parastes ao ver o meu amigo,
que novas lhe haveis dado?


Novas nenhumas,
minha amiga,
que o tempo da cantiga
é agora como o vosso amigo


Ay mar, ay mar tão escuro e fundo,
que convosco ficou o meu amigo,
não me dais curtas novas desse mundo?


Novas nenhumas,
nenhumas, minha amiga,
que a luz, o tempo e o mar desta cantiga
são agora como o vosso amigo:

não têm som, nem cor, nem hora,
só paisagem de fora
como em quadro maior
é a moldura


Ay, canto, ay canto tão parado,
mesmo que o tempo e o mar
não iluminem nada,
deixai-me pelo menos
ficar do meu amigo
algo lembrado


Só se for, minha amiga,
um instante de luz:
que se abrande a cantiga
fiquem lentas as horas
e os sons

E como o tempo e a luz
lhe foram forma,
dele fique o cuidado


Ay canto em canto desolado,
é fraco mantimento esse cuidado,
pois é sem carne ou pele,
e eu queria o meu amigo
devolvido

Não me chega este canto,
cantando o seu cuidado

Bastava, em vez do canto,
o meu amigo, ele:
gentil e imperfeito

E a sua pele –


Ana Luísa Amaral

P.S. Este poema é dedicado ao seu grande e saudoso amigo Paulo Eduardo Carvalho, ver mais aqui

domingo, 2 de outubro de 2011

O Maestro sacode a batuta



O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe ...

Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos ...

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

Fernando Pessoa

Última carta de Van Gogh a Léo


Van Gogh

nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar

o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe a mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada

por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol


Al Berto
in A Secreta Vida das Imagens (lido aqui)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Intervalo para Leonard Cohen



E o mistério? Ainda transfiguramos
o mistério no rastro inacessível da verdade,
ainda trocamos o crepúsculo por outra linha fugaz no horizonte ígneo? A sombra fugitiva
que habita o nosso corpo, a alma,
a insegura alma de existirmos?

Nascem e morrem, as cidades,
sucedem-se os dias, as estações, os anos,
esfuma-se o tempo, foge entre os dedos a vida
que nos religa à fuga uma outra vez ainda,
a solidão ameaça, procura-nos a morte
com o medo de querermos instintivamente resistir, a verdade efémera, o amor.

Outro cigarro?

Outro mistério, ainda,
na auréola de fumo sobre as cabeças
- e o mistério, a que devastação conclama?

O destino das coisas, o mundo de instantes
à deriva?

Amadeu Baptista

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Qualquer coisa de intermédio - um poema de Ana Luísa Amaral




Eu não sou um nem outro:
Sou qualquer coisa de intermédio

M. de Sá-Carneiro

Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos

Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos

E mesmo se não foi ele quem disse
( e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro



Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Há metafísica bastante em não pensar em nada


Henri Matisse

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.



Alberto Caeiro In O Guardador de Rebanhos

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

terça-feira, 27 de setembro de 2011

gosto de passear nos sítios fora da época

gosto de passear nos sítios fora da época
.
praias desertas de pescadores rugosos e redes rompidas
gaivotas alinhadas em espera,
sossegada e colectivamente,
pela promessa de uma tempestade
.
caminhos de monte com gado nenhum só a sombra de
quem passou de madrugada pela
morrinha das horas e que há-de voltar
só depois, já tarde, longe do toque dos sinos
.
calçadas vazias de gente sem eco de passos corridos
janelas sem vidro, reflexo ou rosto
beirais sem amparo que se empreste,
fora de época, a pessoa alguma
.
raquel patriarca|vinteequatro.setembro.doismileonze
.