
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Compostela
Fui sozinha
Ao decalcar o céu, reconheci-me
estrela de ósseas pontas, despojada de luz
O meu corpo recusava a força
de ser fósforo, caía sem lume na vegetação
e só roçava o chão das eiras, sabendo-o fruste
Caminhei pela manhã, a cada dia
entumecendo a paz em redor do túmulo
(trazia-o junto ao peito, o pequeno
ossário de um pássaro no granito)
Ao passar pelos acampamentos invejava
às tendas a prontidão para a elipse,
sem violência resumia os movimentos
do corpo
Dormi em albergues e estábulos
onde um cavalo ou uma peregrina muito velha
tinham morrido
Aprendi a descansar no perecível feno,
junto ao íntimo esterco dos outros
Não sustive a respiração
Andreia C. Faria
Ao decalcar o céu, reconheci-me
estrela de ósseas pontas, despojada de luz
O meu corpo recusava a força
de ser fósforo, caía sem lume na vegetação
e só roçava o chão das eiras, sabendo-o fruste
Caminhei pela manhã, a cada dia
entumecendo a paz em redor do túmulo
(trazia-o junto ao peito, o pequeno
ossário de um pássaro no granito)
Ao passar pelos acampamentos invejava
às tendas a prontidão para a elipse,
sem violência resumia os movimentos
do corpo
Dormi em albergues e estábulos
onde um cavalo ou uma peregrina muito velha
tinham morrido
Aprendi a descansar no perecível feno,
junto ao íntimo esterco dos outros
Não sustive a respiração
Andreia C. Faria
terça-feira, 4 de outubro de 2011
a intensidade de um poema de Shakespeare
a intensidade nunca saiu do seu rosto;
não indigno, não perdido, não indefinido, um pouco gasto -
ontem como hoje sempre a viu e sempre a via
como a única mulher nas areias longas,
apertando os sentimentos como água salgada, soltando o branco
e a chegada,
à praia -
sempre sentiu os sons da janela, a chuva e as dilatações do vidro;
os seus ruídos, e os ruídos longínquos dentro de si;
como ela o conhecia… nas mãos de asa… sabendo as linhas… as curvas…
os lábios entreabertos no lado interior da carícia -
sempre sorriu e sempre sorria, interiormente, na permanência incontida;
aquela dança lenta de baixar os olhos, erguer os ombros, abrir os dedos,
encurtar de gestos a planície iluminada, pela lua, em mil cinzentos -
sabiam-se assim, no rodear do tempo,de areia muito fina,
única, macia,
que não é relativa nem complicada pela física;
e corriam pelas noites magníficas na identidade dos espíritos,
vestidos pela luz sibilante dos diferentes,
em vício e adrenalina:
na dependência de escutarem o poema de Shakespeare
sempre, qualquer que fosse a distância,
como uma música -
José Ferreira 3 Outubro 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Pequeno Canto do Amigo - um poema inédito de Ana Luísa Amaral
Ay luz, ay luz do céu antigo,
não me trazeis novas do meu amigo
que em vós morreu tão cedo?
Novas nenhumas,
minha amiga,
que a luz desta cantiga
é agora como o vosso amigo
Ay tempo, ay tempo tão parado,
que parastes ao ver o meu amigo,
que novas lhe haveis dado?
Novas nenhumas,
minha amiga,
que o tempo da cantiga
é agora como o vosso amigo
Ay mar, ay mar tão escuro e fundo,
que convosco ficou o meu amigo,
não me dais curtas novas desse mundo?
Novas nenhumas,
nenhumas, minha amiga,
que a luz, o tempo e o mar desta cantiga
são agora como o vosso amigo:
não têm som, nem cor, nem hora,
só paisagem de fora
como em quadro maior
é a moldura
Ay, canto, ay canto tão parado,
mesmo que o tempo e o mar
não iluminem nada,
deixai-me pelo menos
ficar do meu amigo
algo lembrado
Só se for, minha amiga,
um instante de luz:
que se abrande a cantiga
fiquem lentas as horas
e os sons
E como o tempo e a luz
lhe foram forma,
dele fique o cuidado
Ay canto em canto desolado,
é fraco mantimento esse cuidado,
pois é sem carne ou pele,
e eu queria o meu amigo
devolvido
Não me chega este canto,
cantando o seu cuidado
Bastava, em vez do canto,
o meu amigo, ele:
gentil e imperfeito
E a sua pele –
Ana Luísa Amaral
P.S. Este poema é dedicado ao seu grande e saudoso amigo Paulo Eduardo Carvalho, ver mais aqui
domingo, 2 de outubro de 2011
O Maestro sacode a batuta
O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe ...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos ...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
Fernando Pessoa
Última carta de Van Gogh a Léo

Van Gogh
nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar
o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe a mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada
por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol
Al Berto
in A Secreta Vida das Imagens (lido aqui)
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Intervalo para Leonard Cohen
E o mistério? Ainda transfiguramos
o mistério no rastro inacessível da verdade,
ainda trocamos o crepúsculo por outra linha fugaz no horizonte ígneo? A sombra fugitiva
que habita o nosso corpo, a alma,
a insegura alma de existirmos?
Nascem e morrem, as cidades,
sucedem-se os dias, as estações, os anos,
esfuma-se o tempo, foge entre os dedos a vida
que nos religa à fuga uma outra vez ainda,
a solidão ameaça, procura-nos a morte
com o medo de querermos instintivamente resistir, a verdade efémera, o amor.
Outro cigarro?
Outro mistério, ainda,
na auréola de fumo sobre as cabeças
- e o mistério, a que devastação conclama?
O destino das coisas, o mundo de instantes
à deriva?
Amadeu Baptista
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Qualquer coisa de intermédio - um poema de Ana Luísa Amaral

Eu não sou um nem outro:
Sou qualquer coisa de intermédio
M. de Sá-Carneiro
Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos
Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos
E mesmo se não foi ele quem disse
( e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro
Ana Luísa Amaral
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Há metafísica bastante em não pensar em nada

Henri Matisse
V
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Alberto Caeiro In O Guardador de Rebanhos
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001
terça-feira, 27 de setembro de 2011
gosto de passear nos sítios fora da época
gosto de passear nos sítios fora da época
.
praias desertas de pescadores rugosos e redes rompidas
gaivotas alinhadas em espera,
sossegada e colectivamente,
pela promessa de uma tempestade
.
caminhos de monte com gado nenhum só a sombra de
quem passou de madrugada pela
morrinha das horas e que há-de voltar
só depois, já tarde, longe do toque dos sinos
.
calçadas vazias de gente sem eco de passos corridos
janelas sem vidro, reflexo ou rosto
beirais sem amparo que se empreste,
fora de época, a pessoa alguma
.
.
praias desertas de pescadores rugosos e redes rompidas
gaivotas alinhadas em espera,
sossegada e colectivamente,
pela promessa de uma tempestade
.
caminhos de monte com gado nenhum só a sombra de
quem passou de madrugada pela
morrinha das horas e que há-de voltar
só depois, já tarde, longe do toque dos sinos
.
calçadas vazias de gente sem eco de passos corridos
janelas sem vidro, reflexo ou rosto
beirais sem amparo que se empreste,
fora de época, a pessoa alguma
.
raquel patriarca|vinteequatro.setembro.doismileonze
.
domingo, 25 de setembro de 2011
sobre o amor solúvel e a insensatez
o pior de um último acontecimento
a indiferença
temo que aconteça - disse, olhando o lago -
caíram três gotas de nuvens, as arestas e as notas do piano,
pontiagudas -
o rosto soou como um vidro partido, um ar escuro e o vazio
na impermanência da janela,
qual plano inclinado da planície que mistura verde e castanho,
arbustos, árvores e terra, o longínquo de uma lã,
os latidos de um cão grande, a capa grossa e um rebanho,
ínfimo, no ponto distante do plano, na perspectiva
sem fim, e sem saída -
as notícias falam de crise, os factos juntam-se no possível precipício -
muito ao fundo corre a linha d’água, o trajecto, o pormenor diluído,
nada se distingue de original; apenas tudo igual, apenas similar a tudo;
não houve o deslumbre, o arco-íris, o peso de chumbo no cristal antigo -
resta o presente, imprevisto mas exacto, como a rotação e o eixo, o dia e a noite,
a lua infinita -
o pior de um acontecimento, recente
Setembro, o mês de vindimas, os cachos loiros e outros de veludo
azul, um líquido impossível, néctar doce que acidula
e ganha o corpo, a densidade que se oxida e vaporiza
o morno quente, passados anos, alguns de vida -
e depois a impreparação para o súbito
o derrube
e a ausência -
e o silêncio -
José ferreira 25 Setembro 2011
sábado, 24 de setembro de 2011
Primeira imagem - um poema de Ana Luísa Amaral
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Veneza aos gatos
Lisboa às moscas e Veneza aos gatos…
(os pombos da bondade só conspurcam
a praça de S. Marcos)
… ao gato perna alta que não vem quando o chamas,
ao contrário da patrícia mosca,
que não era para aqui chamada,
mas logo te soprou os últimos zunzuns
mal chegaste a Lisboa.
O gato de Veneza não te dá pretextos
para miares o que te vai na alma,
nem os sacros temores da miaulesca
esfinge rilkeana.
Não é um gato é um perfil de gato
tapando a saída da calleta.
O gato veneziano é gato sem regaços
e sem selvajaria.
De Veneza o gato é sempre muitos gatos
que vão à sua vida…
… como tu, afinal, não vais à tua.
(De Veneza a Lisboa, num zunido,
já trazias a mosca no ouvido…)
Alexandre O'Neill
Assinar a Pele, Assírio & Alvim, 2001
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
tento não pensar muito nas coisas
.
tento não pensar muito nas coisas
que quero fazer porque - as mais das vezes - se penso, penso demais e não as faço. e, se não as faço, fica-me uma sensação de perda por nunca as ter feito. como uma constante inconclusão de mim própria. outras vezes faço-as, sem pensar, mas na verdade não as devia fazer. e depois de já as ter decidido e começado, não consigo voltar atrás. numa espécie de mudança de ideias que não muda nada. como se cada decisão implicasse a recompensa ou o castigo de a ver realizada. feita. cumprida. e agora que penso nisso,
pergunto-me o que estou a fazer - e porquê - que não tenho ideia de o ter decidido
.
tento não pensar muito nas coisas
que quero fazer porque - as mais das vezes - se penso, penso demais e não as faço. e, se não as faço, fica-me uma sensação de perda por nunca as ter feito. como uma constante inconclusão de mim própria. outras vezes faço-as, sem pensar, mas na verdade não as devia fazer. e depois de já as ter decidido e começado, não consigo voltar atrás. numa espécie de mudança de ideias que não muda nada. como se cada decisão implicasse a recompensa ou o castigo de a ver realizada. feita. cumprida. e agora que penso nisso,
pergunto-me o que estou a fazer - e porquê - que não tenho ideia de o ter decidido
.
raquel patriarca | vinteedois.setembro.doismileonze
.
Sobre a ausência de Sophia e Júlio Resende
Subscrever:
Mensagens (Atom)