quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Qualquer coisa de intermédio - um poema de Ana Luísa Amaral




Eu não sou um nem outro:
Sou qualquer coisa de intermédio

M. de Sá-Carneiro

Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos

Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos

E mesmo se não foi ele quem disse
( e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro



Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Há metafísica bastante em não pensar em nada


Henri Matisse

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.



Alberto Caeiro In O Guardador de Rebanhos

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

terça-feira, 27 de setembro de 2011

gosto de passear nos sítios fora da época

gosto de passear nos sítios fora da época
.
praias desertas de pescadores rugosos e redes rompidas
gaivotas alinhadas em espera,
sossegada e colectivamente,
pela promessa de uma tempestade
.
caminhos de monte com gado nenhum só a sombra de
quem passou de madrugada pela
morrinha das horas e que há-de voltar
só depois, já tarde, longe do toque dos sinos
.
calçadas vazias de gente sem eco de passos corridos
janelas sem vidro, reflexo ou rosto
beirais sem amparo que se empreste,
fora de época, a pessoa alguma
.
raquel patriarca|vinteequatro.setembro.doismileonze
.

domingo, 25 de setembro de 2011

sobre o amor solúvel e a insensatez



o pior de um último acontecimento
a indiferença
temo que aconteça - disse, olhando o lago -

caíram três gotas de nuvens, as arestas e as notas do piano,
pontiagudas -
o rosto soou como um vidro partido, um ar escuro e o vazio
na impermanência da janela,
qual plano inclinado da planície que mistura verde e castanho,
arbustos, árvores e terra, o longínquo de uma lã,
os latidos de um cão grande, a capa grossa e um rebanho,
ínfimo, no ponto distante do plano, na perspectiva
sem fim, e sem saída -

as notícias falam de crise, os factos juntam-se no possível precipício -

muito ao fundo corre a linha d’água, o trajecto, o pormenor diluído,
nada se distingue de original; apenas tudo igual, apenas similar a tudo;
não houve o deslumbre, o arco-íris, o peso de chumbo no cristal antigo -
resta o presente, imprevisto mas exacto, como a rotação e o eixo, o dia e a noite,
a lua infinita -

o pior de um acontecimento, recente
Setembro, o mês de vindimas, os cachos loiros e outros de veludo
azul, um líquido impossível, néctar doce que acidula
e ganha o corpo, a densidade que se oxida e vaporiza
o morno quente, passados anos, alguns de vida -

e depois a impreparação para o súbito
o derrube
e a ausência -

e o silêncio -

José ferreira 25 Setembro 2011

sábado, 24 de setembro de 2011

Primeira imagem - um poema de Ana Luísa Amaral


Armanda Passos


Numa tarde de sol,
dispôs-se no bordado e a bordar.
É que a luz da varanda era tão forte
que os olhos se detinham,
implodindo.
“Um sonho”, desejara.
E alguém, sorrindo,
lentamente afastou-se,
monte acima.

ANA LUÍSA AMARAL, Imagens, Campo das Letras, 2000

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Veneza aos gatos




Lisboa às moscas e Veneza aos gatos…
(os pombos da bondade só conspurcam
a praça de S. Marcos)
… ao gato perna alta que não vem quando o chamas,
ao contrário da patrícia mosca,
que não era para aqui chamada,
mas logo te soprou os últimos zunzuns
mal chegaste a Lisboa.

O gato de Veneza não te dá pretextos
para miares o que te vai na alma,
nem os sacros temores da miaulesca
esfinge rilkeana.
Não é um gato é um perfil de gato
tapando a saída da calleta.

O gato veneziano é gato sem regaços
e sem selvajaria.
De Veneza o gato é sempre muitos gatos
que vão à sua vida…
… como tu, afinal, não vais à tua.

(De Veneza a Lisboa, num zunido,
já trazias a mosca no ouvido…)

Alexandre O'Neill


Assinar a Pele, Assírio & Alvim, 2001

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

tento não pensar muito nas coisas

.
tento não pensar muito nas coisas
que quero fazer porque - as mais das vezes - se penso, penso demais e não as faço. e, se não as faço, fica-me uma sensação de perda por nunca as ter feito. como uma constante inconclusão de mim própria. outras vezes faço-as, sem pensar, mas na verdade não as devia fazer. e depois de já as ter decidido e começado, não consigo voltar atrás. numa espécie de mudança de ideias que não muda nada. como se cada decisão implicasse a recompensa ou o castigo de a ver realizada. feita. cumprida. e agora que penso nisso,
pergunto-me o que estou a fazer - e porquê - que não tenho ideia de o ter decidido
.
raquel patriarca | vinteedois.setembro.doismileonze
.

Sobre a ausência de Sophia e Júlio Resende


Júlio Resende 1917 - Setembro 2011

Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho


Sophia do Mello Breyner Andresen In O Nome das Coisas 1982

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

sobre verdade suprema - um poema de Casimiro de Brito


Wang Wei Hua

Quando me perguntam pela verdade
suprema ou apenas se conheço
a origem do pó
sento-me a teu lado
como se eu fosse uma folha branca
e fico à espera que tu entres
silenciosamente
na minha morada
como as águas entravam e os ventos
no painel de mica
que o poeta Wang Wei deixava
à porta da sua cabana

Casimiro de Brito

terça-feira, 20 de setembro de 2011

manhã atribulada


Magritte

a violência de uma casa louca.
as paredes abrem brechas, olhos negros
as tábuas dobram-se na forma pipas e barcos
os tectos desafiam o tempo no pêndulo dos candeeiros
a ausência de exorcismo solta a gargalhada
e acendem-se chamas:
“não há saída para o inferno
só entrada” - uma voz clama

três pancadas e a claridade
uma gota de suor atinge as rendas da almofada
a escuridão de um sonho perde a nitidez do desastre
o almofariz da manhã espalha um pó de luz -

na frincha do soalho a elipse fixa
e os olhos semi-abertos, semi-fechados
na incógnita sobrevivente, sem textura -

josé ferreira 20 Setembro 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

La Mer


Sarah Brightman - La Mer por chedouce

Ancient unkown animals
On a stormy sea
Like Buddha in the water
A velvet energy

As the night takes over
The spirits of the deep
Marvel at his majesty
The whale is in his sleep

La mer...
You're shimmering through
La mer...
Magnificent blue

Shimmering through the water
In search of sanctuary
Currents travel faster
In alien territory

Dancing in the distance
In a puff of spray
In a single moment
The dolphin glides away

La mer...
You're shimmering through
La mer...
Magnificent blue

La mer...

domingo, 18 de setembro de 2011

daqui são dois pés
de substâncias amedrontadas
seguem-se de pequenos
não de sustentarem agudos de gaivotas
a chamar a sombra dos chapéus antigos
às mesmas paredes
mais o quê
não há mais água
a água lembra-se de toda a água que já foi
até voltar a ser-nos
(ouvi o mar ter conversas estranhas com a água dentro de mim
à janela redonda do décimo andar de um navio)
estou envolvida com outra coisa
se é um bicho sozinho no universo
no instante de uma cereja
a imaginar
para passar de me cair
(nem vazios que saibam coser)
caio-me mais do que me quero
onde só precisávamos de ver o chão
muito antes do tempo de dois pés

o triunfo de Vénus


Cszaba Markus

a distância no aparo muito fino de uma canetilha
onde era costume tornear mapas de continentes
realçar as fronteiras e nomear a origem;
a cultura sólida e a liquidez dos mares -

mas não é este caso, a causa próxima -

da profundidade dos cabelos
nascem linhas, a forma e um objectivo
na complexidade de óleos da china
um quadro, um rosto, o sfumato
a face lisa de uma subtil continuidade -

e tudo fica subentendido, a raíz -

como confessa Apolo no longínquo oceano
há sempre o risco e a substância
quando se perde o lugar dos olhos, a linha azul;
mas não se ignora Cronos, o mostrador do relógio,
e surge a gota de sangue

o desespero da distância
o relâmpago de Vénus, o fumo na varanda
e o silêncio -

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mar - os poemas de José Almeida Silva


Wagner Lima

Gota de água

São uma gota de água estes três anos
E a poesia uma poalha de ouro –
Constroem um tesouro os poetas.

Que o diga o mar de azeite inacessível –


2011.09.09
José Almeida da Silva




.........................................… olha como é brutal o mar.

O mar intacto

Só agora o mar lhes entrou pelo olhar
Trazendo-lhes na espuma esboços de futuro.

Ela surpreende-se de êxtase e desvelo
Dedilhando o recém-passado na maré;

Ele retrai-se diante do oceano imenso
Mas a graça da terra sonha-lhe o futuro.

O futuro e o mar enlaçam-se em segredo
E a esperança e a terra prometem liberdade.

Em mim, os outros são eu sem medo da cidade
E eu o mar na minha transitória eternidade –

2011.09.08



Soneto

Olho os navios que ainda não chegaram
E os pássaros anunciam-me os teus olhos
Eu corro para o cais buscando os molhos
Da ternura que as aves felizes te levaram.

E agora que as ondas vão crescendo,
Vai crescendo o desejo de te ver,
Pois sinto a minha alma a sofrer
E todo o corpo aceso te querendo.

O distante horizonte se aproxima
E os navios em festa vão entrar
No cais do nosso amor que se ilumina,

Para que tu, meu amor, e eu contigo
Naveguemos o Amor no seu altar –
Mar de ternura que guardei comigo.
2011.09.05

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Como se constrói uma casa


Manuel Amado "Terraço com cadeira II" 1992


1
No princípio pega-se no mar
que os olhos previamente transformaram
num mar inexistente
por fora da memória.
Para tal, uma janela serve:
desoculta e dá luz.
Com essa luz depois
é que se lava o ar.

2
O ar que está por dentro
e o ar que está lá fora.
É uma bruma de cor
que ao pairar entre as coisas
nos retira dos olhos
o cisco real.

3
E depois a parede
a que ninguém se encosta,
ela mesma encostada
mas a esta parede.
a poltrona, uma bola,
a banheira banhada
pelo quente aquário
onde os peixes pararam.
4
Ninguém olha de lá,
todos olham para lá.
No terraço não há
mais que olhos para ele.
Nesta sala não está
quem dormite ou quem vele,
quem por ela zele:
só do lado de cá
está
quem faz a pele.

5
E assim passou a ser
uma casa de ausência
não só de gente dentro,
também de casa mesmo.
A passo construída
De tinta e de latência,
Vazia e ocupada,
veio a vida viver
aonde é exigida
com que finta premência.
Remundo exagerado,
sono purificado,
nada reformulado,
Mondrian recheado.

Pedro Tamen Janeiro 1994
in Um poeta/ Um pintor - Manuel Amado/Pedro Tamen ed. Casa Fernando Pessoa, Lisboa, 1994