quarta-feira, 21 de setembro de 2011

sobre verdade suprema - um poema de Casimiro de Brito


Wang Wei Hua

Quando me perguntam pela verdade
suprema ou apenas se conheço
a origem do pó
sento-me a teu lado
como se eu fosse uma folha branca
e fico à espera que tu entres
silenciosamente
na minha morada
como as águas entravam e os ventos
no painel de mica
que o poeta Wang Wei deixava
à porta da sua cabana

Casimiro de Brito

terça-feira, 20 de setembro de 2011

manhã atribulada


Magritte

a violência de uma casa louca.
as paredes abrem brechas, olhos negros
as tábuas dobram-se na forma pipas e barcos
os tectos desafiam o tempo no pêndulo dos candeeiros
a ausência de exorcismo solta a gargalhada
e acendem-se chamas:
“não há saída para o inferno
só entrada” - uma voz clama

três pancadas e a claridade
uma gota de suor atinge as rendas da almofada
a escuridão de um sonho perde a nitidez do desastre
o almofariz da manhã espalha um pó de luz -

na frincha do soalho a elipse fixa
e os olhos semi-abertos, semi-fechados
na incógnita sobrevivente, sem textura -

josé ferreira 20 Setembro 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

La Mer


Sarah Brightman - La Mer por chedouce

Ancient unkown animals
On a stormy sea
Like Buddha in the water
A velvet energy

As the night takes over
The spirits of the deep
Marvel at his majesty
The whale is in his sleep

La mer...
You're shimmering through
La mer...
Magnificent blue

Shimmering through the water
In search of sanctuary
Currents travel faster
In alien territory

Dancing in the distance
In a puff of spray
In a single moment
The dolphin glides away

La mer...
You're shimmering through
La mer...
Magnificent blue

La mer...

domingo, 18 de setembro de 2011

daqui são dois pés
de substâncias amedrontadas
seguem-se de pequenos
não de sustentarem agudos de gaivotas
a chamar a sombra dos chapéus antigos
às mesmas paredes
mais o quê
não há mais água
a água lembra-se de toda a água que já foi
até voltar a ser-nos
(ouvi o mar ter conversas estranhas com a água dentro de mim
à janela redonda do décimo andar de um navio)
estou envolvida com outra coisa
se é um bicho sozinho no universo
no instante de uma cereja
a imaginar
para passar de me cair
(nem vazios que saibam coser)
caio-me mais do que me quero
onde só precisávamos de ver o chão
muito antes do tempo de dois pés

o triunfo de Vénus


Cszaba Markus

a distância no aparo muito fino de uma canetilha
onde era costume tornear mapas de continentes
realçar as fronteiras e nomear a origem;
a cultura sólida e a liquidez dos mares -

mas não é este caso, a causa próxima -

da profundidade dos cabelos
nascem linhas, a forma e um objectivo
na complexidade de óleos da china
um quadro, um rosto, o sfumato
a face lisa de uma subtil continuidade -

e tudo fica subentendido, a raíz -

como confessa Apolo no longínquo oceano
há sempre o risco e a substância
quando se perde o lugar dos olhos, a linha azul;
mas não se ignora Cronos, o mostrador do relógio,
e surge a gota de sangue

o desespero da distância
o relâmpago de Vénus, o fumo na varanda
e o silêncio -

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mar - os poemas de José Almeida Silva


Wagner Lima

Gota de água

São uma gota de água estes três anos
E a poesia uma poalha de ouro –
Constroem um tesouro os poetas.

Que o diga o mar de azeite inacessível –


2011.09.09
José Almeida da Silva




.........................................… olha como é brutal o mar.

O mar intacto

Só agora o mar lhes entrou pelo olhar
Trazendo-lhes na espuma esboços de futuro.

Ela surpreende-se de êxtase e desvelo
Dedilhando o recém-passado na maré;

Ele retrai-se diante do oceano imenso
Mas a graça da terra sonha-lhe o futuro.

O futuro e o mar enlaçam-se em segredo
E a esperança e a terra prometem liberdade.

Em mim, os outros são eu sem medo da cidade
E eu o mar na minha transitória eternidade –

2011.09.08



Soneto

Olho os navios que ainda não chegaram
E os pássaros anunciam-me os teus olhos
Eu corro para o cais buscando os molhos
Da ternura que as aves felizes te levaram.

E agora que as ondas vão crescendo,
Vai crescendo o desejo de te ver,
Pois sinto a minha alma a sofrer
E todo o corpo aceso te querendo.

O distante horizonte se aproxima
E os navios em festa vão entrar
No cais do nosso amor que se ilumina,

Para que tu, meu amor, e eu contigo
Naveguemos o Amor no seu altar –
Mar de ternura que guardei comigo.
2011.09.05

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Como se constrói uma casa


Manuel Amado "Terraço com cadeira II" 1992


1
No princípio pega-se no mar
que os olhos previamente transformaram
num mar inexistente
por fora da memória.
Para tal, uma janela serve:
desoculta e dá luz.
Com essa luz depois
é que se lava o ar.

2
O ar que está por dentro
e o ar que está lá fora.
É uma bruma de cor
que ao pairar entre as coisas
nos retira dos olhos
o cisco real.

3
E depois a parede
a que ninguém se encosta,
ela mesma encostada
mas a esta parede.
a poltrona, uma bola,
a banheira banhada
pelo quente aquário
onde os peixes pararam.
4
Ninguém olha de lá,
todos olham para lá.
No terraço não há
mais que olhos para ele.
Nesta sala não está
quem dormite ou quem vele,
quem por ela zele:
só do lado de cá
está
quem faz a pele.

5
E assim passou a ser
uma casa de ausência
não só de gente dentro,
também de casa mesmo.
A passo construída
De tinta e de latência,
Vazia e ocupada,
veio a vida viver
aonde é exigida
com que finta premência.
Remundo exagerado,
sono purificado,
nada reformulado,
Mondrian recheado.

Pedro Tamen Janeiro 1994
in Um poeta/ Um pintor - Manuel Amado/Pedro Tamen ed. Casa Fernando Pessoa, Lisboa, 1994

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR - POEMA

















FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR


à beira-mar.
e é da interrupção deste desejo
que nasce este desejo;
é da interrupção desta capacidade
que se realiza esta capacidade;
é da organização do som
que se mede o poder do embate;
é do soluço desta peixidez
que fazemos por fim nosso
o nosso mar;
sempre uma coisa na dependência
dessa mesma coisa ou algo
à beira-mar.
sempre uma nova pessoa
que nasce dela mesma.

Sylvia Beirute

em Uma Prática para Desconserto (4Águas, 2011)

Nocturnos



I

Há um inverno cansado nas copas extáticas
e as estrelas acendem-se de um vento alto
que azula o céu
de um azul que a noite vai roendo consigo

As grades, ao prolongarem-se por aí fora,
trazem-me um sinal contínuo de muro falso
e enferrujado.

As grades não apontariam nada,
se cada uma delas se prolongasse também
no voo completo de ambas as curvas da seta.


II

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
— os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.


III

Contaram-me, quando era pequeno,
a história de várias estrelas,
não a história dos nomes que têm e não conhecem
[por nós,
sim uma história em que eram estrelas,
verdadeiras estrelas nem pregadas no céu,


Muitas vezes, ouvir contar foi só:
estar de cabeça pousada no peitoril da janela
a vê-las tremeluzir...
e tornarem-se mais salientes com o escurecer.


Muitas vezes, foi só
aceitar o frio e fechar a janela
— e, em pequeno, não era eu quem a fechava.


IV

Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.

Nas noites claras de mar imenso,
enquanto a proa ia ensinando às águas
o murmúrio para depois, ao longo do navio,
os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.


Para baixo do centro havia três estrelas juntas.
Quando calhava passarem por entre duas,
repetiam todo o princípio
e vinham passar por entre as outras duas.


V

Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.

VI

Há um inverno nas copas extáticas
e as estrelas acenderam-se de um vento alto
que azulou o céu
de um azul que a noite foi roendo consigo.

VII

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.


Jorge de Sena

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

a chegada do mar

.
raquel patriarca | apúlia
.
.
espero a chegada do mar.
espero que venha por mim e que fique,
livre da lua, do tempo e do movimento das marés.
espero que me lave a alma,
que me faça naufragar no esquecimento do mundo,
que me dispa de pecados e culpas.
espero a chegada do mar
como se fosse um pôr-do-sol
na infância ou uma madrugada
de maturidade.
espero a chegada do mar
que traz em si o amor e a vida,
que nascem em mim em laivos de fogo e de céu.
espero a chegada do mar
que me vem abraçar e que, no entre-
cortar da respiração, apaga a tristeza e
desfaz a solidão.
quero ser a terra que lhe faz de leito e
o céu do horizonte, mas sou ainda
a desfigura nublada que na margem
se mantém presa à rocha e exposta no
vento, onde espero a chegada do mar.
.
raquel patriarca | setembro.doismileoito
.

i am


.
raquel patriarca - porto santo
.
.
Can’t find my soul when away from you
I remain cold, sad and alone
I am a stone
.
Then I see your face and my soul too
I become all that I can be
I am the sea
.
raquel patriarca | doismileoito
.

a memória do mar

.
raquel patriarca - colagem
.
há um lugar secreto
e encantado,
de onde vêm as
sereias,
com castelos
de rocha e coral
e cavalos marinhos
que patrulham as ameias.
.
e as estrelas,
(que nascem das areias)
não brilham,
dançam!
são pingos de cor
nas profundezas,
enroladas em abraços
de anémonas
como as flores do campo
em cabelos de princesas.
.
as baleias
falam da origem de tudo
em canções de embalar,
que ecoam –
muito longe
e muito fundo –
em cada onda,
em cada grão de areia,
em cada concha
do mar.
.
é um mundo
imenso imenso.
azul e fantástico,
cheio de criaturas
estranhas, ferozes, bonitas
tubarões, raias,
caranguejos eremitas.
.
vive por lá uma linha,
branca e suave,
em que o céu toca no mar,
onde o vento é eterno
e até os sonhos vêm sonhar,
como o voo lento
de uma pequena ave
no colo doce da maré,
que sempre, sempre
continua,
e sorri –
de vez em quando –
ao reflexo claro
da lua.
.
raquel patriarca | vinteenovedesetembrodedoismilenove
.

O homem de Imilchil

.
David Minguillon | Uma família de Imilchil
.
Conheci um homem em Imilchil
que não era pastor, nem padeiro nem tecelão.
E isso, por si só, dizia tudo
como se a diferença fosse o seu
traço mais definidor.
.
Conheci um homem em Imilchil
que tinha uma Petri 7S de 63.
Não sabia explicar de onde
viera o objecto que lhe definia
os dias, apenas que lho tinha deixado
o pai junto com a vocação
de ser fotógrafo da aldeia.
.
Vivia numa casa apertadinha que
ofereceu sem reservas ou cerimónias.
Nas paredes de terracota e
no meio dos livros e jornais
espalhavam-se as imagens de
dezenas de vidas.
.
Vi um soldado em despedida, fardado,
orgulhoso e resoluto,
assustado;
uma noiva sorridente e ansiosa, sentada
com as mãos no regaço,
envergonhada;
uma tenda erguida na montanha e um
homem apoiado no cordame o rosto como
um nó;
uma família composta em pose, as
mulheres à esquerda e os homens à direita,
as crianças na frente. No fundo, em pé,
a avó.
.
O cheiro dos papéis amarelecidos
misturava-se com o dos líquidos
desconhecidos e emulsões estranhas
com que as vidas se tornavam
imagem latente. O cheiro da missão
única, respeitável, grata
de guardar tantas memórias de tantas
vidas em imagens e cristais de prata.
.
Perguntei-lhe se o podia fotografar.
Assentiu, alegre e generoso.
Sentou-se sobre os calcanhares
no chão a máquina pousada na coxa,
a boca séria os olhos a sorrir.
.
Conheci um homem em Imilchil
capaz de reconhecer a angústia que
se esconde num sorriso, a saudade
no mais pequeno gesto, a alegria
secreta num olhar.
.
Escondia um sonho secreto só dele:
ver uma fotografia do mar.
.
raquel patriarca | nove.setembro.doismileonze
.

para que os peixes saibam (porque os peixes também andam no mar)


Duartte (retirada daqui)


nunca por nunca de qualquer modo
quis pálpebras tristes janelas fechadas
sem asas sem aves sem árvores.
corro.corro. junto ao jardim da buganvília
à fonte da boca d'água e cara de teatro.
desço.desço. a rua inclinada
até à margem só de madrugada
de orvalho sem vivalma. e grito. grito.
para que todos os peixes saibam
que nunca. nunca por nunca
quis teus olhos tristes
os braços como espadas
os ombros altos de muralhas
e os lábios a sete chaves
sem o sopro das palavras.

José Ferreira 26 Abril 2010

Mao II - Don Delillo dez anos antes de 11 de Setembro



(diálogo entre uma fotógrafa, andando de um lado para o outro na procura do melhor plano, e um escritor no seu esconderijo secreto):

"- Fale-me de Nova Iorque - pediu ele - já deixei de lá ir. Quando penso nas cidades em que vivi, vejo grandes quadros cubistas

- Vou dizer-lhe o que vejo.

- Todos aqueles gumes, a densidade, esses velhos tons ocres e o modo como as cidades envelhecem e nos mancham o espírito, como se fossem muralhas romanas.

- No sítio onde vivo, é verdade, a vista dos telhados é caótica, uma confusão. quatro, cinco, seis, sete pisos, com os seus depósitos de água, as cordas da roupa, antenas, campanários, pombais, chaminés, tudo o que de humano existe na parte inferior da ilha - jardins atarracados, estatuária, letreiros pintados. E eu acordo para esta paisagem e tenho-lhe amor e dependo dela. Mas está tudo a ser arrasado e varrido, para que possam construir as suas torres.

- Talvez em breve as torres venham a parecer humanas, uma coisa local, e subtil. Dê-lhes tempo.

- Então eu vou ali bater com a cabeça na parede. Avise-me quando quiser que eu pare.

- Vai acabar por perguntar porquê toda essa fúria.

- É que eu já tenho o World Trade Center.

- Que por sinal, é já inofensivo e sem idade. Como que esquecido. E pense no quão pior seria

- O quê ? - disse ela

- Se fosse uma torre em vez de duas

- Quer dizer com isso que elas interagem. Que estabelecem um jogo de luzes.

- Não seria muito pior se fosse só uma?

- Não porque o tamanho é apenas uma parte do problema. O tamanho é mortífero. Mas ter duas torres é como se fosse uma espécie de comentário, como um diálogo, só que eu não sei que coisas estão elas a dizer."

Don Delillo, Mao II, Relógio d'Água, 2004 ( livro publicado em 1991 nos Estados Unidos)