terça-feira, 22 de março de 2011

Fragmentos III - A dedicatória


José Torrent

O presente de amor procura-se, escolhe-se e compra-se na maior excitação - excitação essa que parece ser da ordem da felicidade. Calculo activamente se este objecto dará prazer, se não desiludirá ou se, pelo contrário, parecendo muito importante, ele próprio não denunciará o delírio - ou o logro - em que estou preso. O presente de amor é solene; arrastado pela metonímia devorante que regula a vida imaginária, transporto-me inteiramente nele.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70

segunda-feira, 21 de março de 2011

minha amiga poesia, admiro-te


Salvador Dali 1934

minha amiga poesia, admiro-te.
hoje foi difícil.
acordei com os olhos demasiado fechados por um vento aberto
e escondi as pupilas nos vidros redondos
mesmo debaixo das sombras.
bem sei que é o teu dia. bem sei que é Primavera.
mas foi difícil. talvez logo com o fogo das estrelas
e uma pena de tinta permanente
consiga de novo procurar-te no silêncio da noite
no sossego de um mocho e de uma árvore que conheço
aquela onde de asas recortadas vejo tudo ao contrário
como os morcegos -

e não vejo a rua.
só a musa que conheço. descalça.
girando girando em danças de véus brancos
girando girando na superfície mais lisa do teu ventre
esse lugar onde habitas
minha amiga poesia -

José Ferreira 21 Março 2011

no dia mundial da poesia

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"dia mundial da poesia"
fragmentoisas - e outras colagens - em reflexos invertidos
raquel patriarca | vinteeum.março.doismileonze
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"o pão é fundamental, a poesia é supérflua. mas o homem não consegue viver sem o supérfluo. pão e poesia andam lado a lado."
ana luísa amaral | vinteequatro.fevereiro.doismileonze

poesia

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tu –
mal sentada e meia de lado –
na madrugada da página
.
e eu
que não sei nada do mundo ou das coisas da vida –
e estou longe –
a ler-te
.
raquel patriarca | vinteeum.março.doismileonze

Dia Mundial da Poesia

domingo, 20 de março de 2011

Culpa mía (Concha Buika)

Um poema de Ana Luísa


Mary Cassat "Auguste lendo com a filha" 1910


POESIA (OU PALIMPSESTO)


Limpa o cesto bem limpo,
mas deixa lá ficar sombra ligeira:
essa primeira sílaba.
Sobre ela,
podes encher o cesto com mais sílabas,
e até outras palavras.

Terás assim um cesto
que aos olhos de quem vê
é um cesto só teu,
onde escondeste as coisas
do costume dos cestos: flores, solidões,
rastilhos, bombas.

Foi limpo o cesto
aos olhos de quem vê,
mas tu sabes que não.
Que houve ali um momento de ladrão,
quando nele ficou
a sombra dessa sílaba.

E agora mostras
a toda a gente o cesto,
e não há sombra.
Há só a mão que surge
e pega no teu cesto,
o toma devagar.

E o olha com olhos de quem lê,
e o limpa muito limpo,
ao teu antigo cesto,
deixando lá no fundo,
disfarçada,
uma segunda sílaba.

Ana Luísa Amaral

sábado, 19 de março de 2011

A minudência de um cisne




Meia-noite e a minudência de um cisne. Num determinado ângulo, a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, visível pela vibração das ondas concêntricas, que se formam quando a pedra derruba a sanidade espontânea do charco e deixa-se ir, na validação consequente do gesto, na trepidação elegante e convulsiva, na direcção mais sinistra, até ao fim, até que o atrito a separe do movimento que ela, se pudesse, manteria para sempre impingido.
E como é maravilhoso ver uma pedra deixar-se impingir.
Aproximemos, por isso, a fé da objectiva, a ganância do credo, a prática do sistema mental que o branco do cisne produz no seu duvidoso equilíbrio, como se o cisne não passasse de uma representação fria de um ansiolítico tomado a desoras, perto da periferia do nada a sua total inadequação ao tumulto e não obstante as ondas, a frequência, o imprinting, pedra-água-meia-noite-e-a-minudência-de-um-cisne.
Sejamos leais com as evidências. Foquemos o momento em que a arte radicaliza o momento da meia-noite e da minudência de um cisne, o momento em que o cosmos abre totalmente o ângulo determinado onde só é possível a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, a electrocussão de um cisne, e voltemos às 23 e 59 do cadáver do dia anterior, porque no dia seguinte é meia-noite ainda e a minudência de um cisne.

sexta-feira, 18 de março de 2011

I e II e III


Paul Klee 1939


I.
Na cidade não se falava de amor
mas eu amava
e resistia à cidade
porque falava de amor.


II.
Uns viviam em ruas com nome
de escultor,
outros viviam em ruas com nome
de pintor,
muito poucos viviam em ruas com nome
de gente.


III.
Na cidade tudo era circular:
terminava no mesmo ponto
em que começava.
Redondos, inúteis,
sobrevivíamos
como as montanhas lá ao fundo.

Filipa Leal "A cidade líquida e outras texturas"

uma poetisa de quem gosto...

Era ontem quando o rodado das bicicletas passeava na estrada solarenga e levava os nossos risos transformados em eco de gargalhadas aos vales da nossa infância. Fazíamos grinaldas com o branco dos carrapiteiros que nos aguardavam na caminhada. Pareciam sorrir por entre a brancura florida e pactuavam connosco nas descobertas. Tínhamos o mundo nas mãos. Adormecíamos no tapete dos sonhos e inventávamos a felicidade.


Dalila Moura

poesia e outras surrealidades úteis

o dia em que atingiu a maturidade não tinha nenhum significado especial. era quinta feira e o sol tentava desarrepelar-se das nuvens. a meio caminho de atravessar a estrada, sem os vestígios da epifania ou apoteose que se esperam num momento de absoluta clarividência, descobriu uma verdade fundadora. quando pisou o passeio do outro lado, estava em paz. aceitara sem reserva a natureza desajustada de si próprio e a incapacidade molecular para compreender a aritmética das coisas da vida. aceitara a incoerência como condição essencial de existência e o absurdo de depender a felicidade nos sorrisos alheios, na poesia e noutras surrealidades úteis.
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raquel patriarca | dezassete.março.doismileonze

talvez




a tulipa esguia e alta. caule e pétalas.
no lado esquerdo. repara. alta.
e o silente batente de um metrónomo. repara.
travo o fumo do cigarro.
uma digestão de palavras. um diálogo íntimo
de olhos abertos e olhos fechados
onde há realidades
e onde os sonhos se surpassam
como cenas de um teatro de gaivotas
em recorte curvilíneo de asas
onde
areias finas
uma enseada -

penso na porta aberta de um espelho
quando anoitece
quando a lua solta as cordas da cítara
e canta. alta.penso -

talvez solte o fumo.
talvez pouse os braços.
talvez apague o cigarro.
talvez vista o casaco.
talvez saia no volume negro da cidade
pelas ruas largas, pelas ruas gastas.
talvez saia talvez saia
de rosto aberto e botões apertados.
talvez saia talvez saia
ensaiando a face
ensaiando as palavras
na esperança branca de um segredo
e na presença dos teus olhos -

José Ferreira 18 de Março 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

Partilha

Olá a todos,

Queria partilhar apenas uma coisa convosco:

Eu pertenço a esta lista.

Um abraço enorme.



Momento - poesia e imagens num filme de Manuel de Oliveira


Uma espécie de céu
Um pedaço de mar
Uma mão que doeu
Um dia devagar
Um Domingo perfeito
Uma toalha no chão
Um caminho cansado
Um traço de avião
Uma sombra sozinha
Uma luz inquieta
Um desvio na rua
Uma voz de poeta
Uma garrafa vazia
Um cinzeiro apagado
Um hotel na esquina
Um sono acordado
Um secreto adeus
Um café a fechar
Um aviso na porta
Um bilhete no ar
Uma praça aberta
Uma rua perdida
Uma noite encantada
Para o resto da vida
(Refrão)
Pedes-me um momento
Agarras as palavras
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas
Levas a cidade
Solta me o cabelo
Perdes-te comigo
Porque o mundo é o momento

Uma estrada infinita
Um anuncio discreto
Uma curva fechada
Um poema deserto
Uma cidade distante
Um vestido molhado
Uma chuva divina
Um desejo apertado
Uma noite esquecida
Uma praia qualquer
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher
Um encontro em segredo
Uma duna ancorada
Dois corpos despidos
Abraçados no nada
Uma estrela cadente
Um olhar que se afasta
Um choro escondido
Quando um beijo não basta
Um semáforo aberto
Um adeus para sempre
Uma ferida que dói
Não por fora, por dentro

Pedro Abrunhosa

uma frase apenas. importante.


Frase de um discurso de Almada Negreiros
fotografada no museu de Serralves