Para adormecer o sono como
chocolates regina morango after eight
bebo finos
sonhos docinhos
meninas meninos
travesseiros tortas de azeitão
como nuvens
sombras de sono
sombrinhas de chocolate regina
à noite
de novo
garfadas de algodão
borregos
barrigas
umbigos
bagos
torradinhos de mel
torradinhas de malmequer
e margaridas saladas
delícias do mar morto
quarta-feira, 9 de março de 2011
a partir do céu é possível

A partir do céu é possível a visão da muralha.
Dizem.
Mas de todo o lado da superfície o céu é visível.
A muralha é a intersecção atípica do plano
Não é analogia porque divide na forma ingénua
De ser maior mas não sublime
De ser matéria e não fluidez sensível de espírito
De não sentir a pele, a cor dos olhos, a auréola
A singularidade de uma janela olhando a lua.
Quando falamos de céu é metonímia
Sabemos onde começa
Sabemos que não tem fim -
José Ferreira 9 Março 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
Fragmentos II - A-REALIDADE

David Hockney
A-REALIDADE. Sentimento de ausência, fuga da realidade experimentada pelo sujeito apaixonado face ao mundo
I. Espero um telefonema e essa espera angustia-me mais do que é habitual. Tento fazer qualquer coisa mas não consigo. Passeio no meu quarto: todos os objectos - cuja familiaridade normalmente me reconforta - , os telhados cinzentos, os ruídos da cidade, tudo me parece inerte, separado, siderado como um astro deserto, como uma Natureza onde o homem nunca tivesse existido.
II. Folheio o álbum de um pintor que apreço; não posso fazê-lo senão com desprendimento. Aprovo essa pintura mas as imagens estão geladas e isso aborrece-me.
III. Num restaurante a abarrotar, na companhia de amigos, sofro (palavra incompreensível para quem não está apaixonado). O sofrimento vem-me das pessoas, do barulho, da decoração (kitsch). Um manto irreal, vindo dos lustres, dos tectos de vidro, atinge-me.
IV. Estou sozinho num café. É domingo, à hora de almoço. Do outro lado do vidro, num anúncio mural, Coluche faz caretas e faz de imbecil. Tenho frio.
( o mundo está cheio sem mim, como em La nausée (Sartre); aprende a viver por detrás de um vidro; o mundo está num aquário; vejo-o perto e, no entanto, afastado, feito de uma outra substância; caio continuamente na precisão, fora de mim próprio, sem vertigem, sem nevoeiro, como se estivesse drogado)
…………..
Roland Barthes " Fragmentos deum discurso amoroso" Ed. 70 1981
Um poema para o dia da Mulher

Pablo Picasso
Mãe, agora que guardaste na arca
as blusas pretas e os teus olhos
voltaram a ser azuis; que os meus
irmãos dormem no seu quarto um
sono de poderem ser felizes, que
já conseguimos dizer uma à outra
o nome dele no meio de um sorriso
porque a morte, afinal, é uma coisa
tão longe – deixa-me perguntar-te
porque não há retratos do meu pai
comigo ao colo, como os dos meus
irmãos que ele trazia sempre junto
ao peito e tu depois dividiste pela
casa para ele poder saber que ainda
te lembravas; ou então debruçado
no meu berço – que tu escondeste
no sótão ainda eu era pequena e te
sentavas a embalar vazio quando ele
não entendia porque estavas tão
triste. Mãe, eram tão azuis os olhos
do meu pai no dia em que levou os
meus irmãos à escola e tinham tanto
medo do que pudesse acontecer-lhes;
são tão azuis também os olhos deles
debaixo do seu sono, e os meus tão
negros de dúvidas – porque foste
sempre tu que me levaste sozinha
para as coisas difíceis da minha vida,
que o meu pai nem nunca quis saber
que coisas eram. Mãe, estão hoje tão
azuis os teus olhos com essas roupas
claras, e eu ainda tenho o nome do
meu pai entre as minhas lágrimas, mas
agora, que os meus irmãos descansam
no seu quarto, que já todos podemos
dizer o nome dele sem nos cortar os
lábios, diz-me a verdade: esse homem
que chorámos era mesmo meu pai?
Maria do Rosário Pedreira "Nenhum nome depois" Págs. 42-43
(retirei de blog de Arlindo Correia)
segunda-feira, 7 de março de 2011
Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha
Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado,
a cabeça em partilha de almofada.
Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.
Bartók em relação ao resto.
A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu
das coisas e dos sons, orgulhoso
e dorido Bartók.
Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.
Ana Luísa Amaral
as lentas nuvens fazem sono

David Hockney
As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.
E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém.
Não sou capaz de gozo ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.
Que bom, à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo…
E eu? Vou indo dianteiro
No som inútil e infindo.
Fernando Pessoa 25.12.1931
Fragmentos I

Guy Bourdin
Esta noite regressei só ao hotel; o outro decidiu regressar mais tarde, já noite dentro.Aí estão as angústias, como o veneno preparado (o ciúme, o abandono, a inquietação); apenas aguardam o tempo suficiente para se declararem. Vou buscar um livro e um soporífero, «calmamente». O silêncio deste grande hotel é sonoro, indiferente, idiota (ronrom distante das banheiras que se esvaziam); os móveis, os candeeiros, são estúpidos; nada de amigável onde nos possamos aquecer («Tenho frio, regressemos a Paris»).
Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1981
domingo, 6 de março de 2011
domingo

Retirada da internet
acordámos na cor dos raios imprevistos
de sol. focos iluminados de suspenso pó.
múltiplo pó molecular de carnaval. multifacetado.
um dois três quatro…impossível de contar
quantos em movimentos rotacionais de sombra e brilho.
todos iguais numa girândola sem actores
sem palcos sem disfarces.
raios imprevistos irrequietos
os primeiros ruídos de domingo -
José Ferreira 6 Março 2011
sexta-feira, 4 de março de 2011
Esplanada

Richard Avedon
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
Manuel António Pina "Poesia Reunida" Assírio & Alvim
quinta-feira, 3 de março de 2011
Um poema luminoso de Sophia - Mar
lembro_______lembro lembro

Guy Bourdin
lembro___________ lembro lembro
os primeiros dias de fevereiro
antes das glicínias
quando os canteiros de amores perfeitos
gotejavam de amarelos azuis e roxos;
um vestido de folhos nos caules das japoneiras -
lembro__________lembro lembro
vestida de branco
surgia como um raio súbito e passeava o sol
enquanto ele era e permanecia.
até que por fim subia degrau a degrau aquela escada dura
e desaparecia atrás de uma porta
de almofadas verdes e claves prateadas.
lembro__________lembro lembro
descia assim frio o ainda inverno sobre as raízes da terra
sobre a silhueta das árvores a cor das folhas as primeiras flores
em noites de fevereiro___ lembro
lembro_________lembro lembro
subsistia um silêncio sem presença
mas deixava sempre as mãos abertas
e conduzia da lua um foco de luz
na sombra dos muros nos quartos escuros
na cidade deserta -
José Ferreira 3 Março 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Rotações perfeitas

Se me pedisses de repente e aqui:
«fala das luas e dos dias», eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
ofício de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem
Nem saberia por onde começar:
se no olhar, se na palavra,
ou se no teu sorriso
que me devastou o equilíbrio do igual
Não sei, meu amor,
como entender este pequeno girassol,
explicar-lhe o movimento certo,
a rotação completa e tão
perfeita,
as folhas muito verdes
de uma tal filigrana delicada
Sobretudo, este seu hino
em direcção a tudo
e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras
Ana Luísa Amaral "Se fosse um intervalo" Dom Quixote 2009
terça-feira, 1 de março de 2011
Lagos e Vacas

Se há alguma coisa verdadeiramente perturbadora, essa coisa é a actualidade. E o facto (ainda mais perturbador) de não existir, por exemplo, medicação que nos afaste um pouco dessa persistente pátria espontânea que é a actualidade de tudo e de todos, e, ao mesmo tempo, a de nada e a de ninguém.
No fundo, estamos tão sentados em cima da actualidade, como o poeta do relato de Hélder está sentado em cima da Holanda. Já sem recursos suficientemente convincentes que o levasse a tomar a decisão (ainda que teórica, apropriada) de se deslocar, ele (mantendo-se em cima da Holanda) pensa na tradição. E nós pensamos na tradição, com ele. Depois ele diz para si mesmo que é “alimentado pelos séculos, [e que vive] afogado na história de outros homens”. E nós repetimo-lo, repetimo-lo incessantemente, num estado de transe, próximo da ecolalia e dos estados catatónicos mais primários, enquanto engolimos água, e nos engasgamos com pedaços das biografias alheias que vêm dar à costa dos nossos dias partilhados.
Mas há um ponto em que, definitivamente, discordamos. Esse ponto é quando o poeta, depois de dar conta da perdição da sua alma (até aqui, não há nada a objectar), se reconhece ao encontrar, perto da sua solidão, primeiro um lago, e depois vacas.
Ora, parece-me muito pouco provável que haja lagos e vacas na actualidade.
imagens interditas

não me perguntes nunca Como me sinto.
é um convite à mentira. um apertar doído.
as palavras de fogo promovem o silêncio
e acendem um reino escuro. a implosão do templo.
a aparência externa de uma brisa segura
esconde a turbulência a grande nuvem
a poeira imensa de crinas selvagens
os ruídos de vento imperceptíveis.
a aparência externa comprime e limita as ondas
o bombardeamento de espumas marítimas
passos compreensíveis incompreensíveis passos invertidos
ao olhar de krípton que enfraquece os sentidos
e o esfumar de imagens interditas
dentro da verdade que não digo -
José Ferreira 1 Março 2011
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