quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

este desejo imenso de fazer nascer chocolates


Caspar Friedrich " Homem e mulher contemplando a lua" 1820


este desejo imenso de fazer nascer chocolates
o sabor intenso de um intervalo doce
como uma mão sobre o ombro, que acontece
no abraço natural, um grande aperto
que apague a mágoa, o momento incerto
e estreite os seios como margens
um rio ao longo da natureza
que desce até ao mar
a um lago sossegado
onde a lua e as estrelas -

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A invenção do amor


Javier Clavo "Amor" 1970


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da
defesa passiva
Todos Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas


Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inex-
plicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicó-
logos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da
cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das
normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas


Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo


Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem a polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa


Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer
às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades
individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da
correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mullher
amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os
escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado
de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal
maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com
orquestra privativa
Não estarão nunca tu Procurem-nos nas ruas suburbanas
onde nada acontece


A identificação é fácil Onde estiverem estará também pou-
sado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem
à queima roupa
Um tiro no coração de cada um Vê-los-ão possivelmente
dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da
mulher

Mas ai de vos se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr
o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também per-
didos para nós
É preciso nesse caso ler coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige



Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido á vossa mesa crescido a
vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procuram a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do pais da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
una voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que situação vai atingir o climax
e a policia poderá cumprir o seu dever


Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchettes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS
ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócio
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de
automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em letra afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera


Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio do pressago da cidade inimiga


Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Enquanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as
saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de
ferro


É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um
crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo impulso de Salvação
Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio
Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do
Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as des¬-
culpas do Governo pelo engano comendo
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto
diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado



SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA


Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a
mulher escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante
recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura
do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de iodos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual

Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção científica

Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não linha televisão
Deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
Deixou em meio as «Crónicas Marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno nota
Gostava dos gatos dizem Mas mesmo isso não é certo

Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da
gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu


Esperam por ela em casa duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos


Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa
tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade


Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calcadas quebrando nas esquinas


Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo



Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)


Daniel Filipe "A Invenção do Amor e Outros Poemas" , Presença, 1972

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

como explicar-te a noite sem corpo, o véu escuro


Gustave Caillebotte "Dia de chuva" 1877

como explicar-te a noite sem corpo, o véu escuro
o estado exausto que convoca as estrelas
de pulsos apertados, olhos de círio, pés líquidos
e uma música de liszt nos éteres dispersos;
as tuas mãos flutuantes nas cordas de um piano

perdoa-me o silêncio, esta lágrima de sonho
a gota impossível na muda garganta rubra
onde guardo seiscentas palavras e o musgo macio

perdoa-me, não me julgues -

quando nos cruzarmos numa esquina de Lisboa
desarmados pela hipnose das pupilas, conto-te
conto-te dos gladíolos, dos lírios, das tulipas decididas
e dos caminhos de asas hirtas em voos nocturnos
planando como auras desertas nestes rostos fugidios
onde as sombras são as linhas descontínuas -

conto-te, numa rua de Lisboa -

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nocturnos


I

Há um inverno cansado nas copas extáticas
e as estrelas acendem-se de um vento alto
que azula o céu
de um azul que a noite vai roendo consigo

As grades, ao prolongarem-se por aí fora,
trazem-me um sinal contínuo de muro falso
e enferrujado.

As grades não apontariam nada,
se cada uma delas se prolongasse também
no voo completo de ambas as curvas da seta.


II

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
— os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.


III

Contaram-me, quando era pequeno,
a história de várias estrelas,
não a história dos nomes que têm e não conhecem
[por nós,
sim uma história em que eram estrelas,
verdadeiras estrelas nem pregadas no céu,


Muitas vezes, ouvir contar foi só:
estar de cabeça pousada no peitoril da janela
a vê-las tremeluzir...
e tornarem-se mais salientes com o escurecer.


Muitas vezes, foi só
aceitar o frio e fechar a janela
— e, em pequeno, não era eu quem a fechava.


IV

Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.

Nas noites claras de mar imenso,
enquanto a proa ia ensinando às águas
o murmúrio para depois, ao longo do navio,
os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.


Para baixo do centro havia três estrelas juntas.
Quando calhava passarem por entre duas,
repetiam todo o princípio
e vinham passar por entre as outras duas.


V

Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.

VI

Há um inverno nas copas extáticas
e as estrelas acenderam-se de um vento alto
que azulou o céu
de um azul que a noite foi roendo consigo.

VII

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.


Jorge de Sena "Perseguição"

domingo, 5 de dezembro de 2010

Não: não digas nada


Paul Klee "Mulher a acordar" 1920

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa 1931

sábado, 4 de dezembro de 2010

Às vezes...quando acordava


André Kertész

às vezes... quando acordava
era porque tínhamos chegado

ficava a bordo encostado às amuradas
horas a fio
espiava a cidade e as colinas inclinando-se
para a noite lodosa do rio
e o balouçar do barco enchia-me de melancolia

a noite trazia-me aragens com cheiro a corpos suados
cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia
o ruído dos becos a luz fosca dum bar
se descesse a terra encontrar-te-ia... tinha a certeza
para o voo frenético do sexo
e num suspiro talvez alargássemos os umbrais da noite
mas ficava preso ao navio... hipnotizado
com o coração em desordem
os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira
os pregos ferrugentos as cordas

as luzes do cais revelavam-se corpos fugidios
penumbras donde se escapavam ditos obscenos
gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim
a vontade sempre urgente de partir

Al Berto "O medo"

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

divagação sobre três vezes mais estrelas


Georgia O'Keefe " Estrela da tarde" 1916


a descoberta maior de uma sexta-feira
foi três vezes mais estrelas
na galáxia inteira;
anãs de barrigas vermelhas.

as estrelas por mais pequenas
têm sempre a vida em chamas
não são como os planetas

mas sendo assim não têm noites nem luas
serão cegas a ver os dias
em eterna consumição

mas as estrelas quando estão no céu
brilham
e os planetas não

não saberemos se numa próxima sexta-feira
se descobrirá uma nova bactéria
que engula as chamas, seja feita de gelo
e habite o sol

mas atendendo ao frio
ainda bem que temos muito mais estrelas
por cima da cabeça -

(para que não pareça disparatado, este poema foi escrito com base em duas notícias do Jornal o Público que anunciou a descoberta de serem três vezes mais as estrelas devido à existência de algumas designadas por anãs vermelhas e também a descoberta de uma bactéria que conseguia digerir arsénico)

Para ser grande sê inteiro


Fotografia retirada da internet

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a Lua toda
Brilha, porque alta vive.



Ricardo Reis 14 - 2 - 1933

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

assim fechados tão perto do meu rosto


André Kertész


assim fechados tão perto do meu rosto, aos teus lábios
não os quero nunca
coloca-lhe rosas e perfumes de oriente
fumos divagantes, sopros sibilantes
subtilezas múltiplas de mente
porque aos teus lábios assim fechados, sem beleza
não os quero nunca

disse-lhe olhando o ponto fixo no canto da mesa
não desviando o olhar. tremia um pouco.

ao inclinar o oblíquo rosto
os olhos molharam-se na frente daquele lago
sem expressão, parado, como quem aguarda
o fim de um acto, o fim de uma cena
pediu perdão, desculpou-se com a pressão
o stress de uma última reunião
e repetiu de modo diferente. tremia um pouco.
aos teus lábios quero-os sempre, quero-os sempre.

serviu-se dos sons da alma e escreveu-lhe um poema
em caligrafia cuidada, larga e absorvida pela textura branca
um guardanapo, um novo vulcão reaberto de nova lava
que deslizava, que queimava como um espelho de raios
de um rio importante, muito longo, de verdes margens.

duas semanas passadas, chove uma chuva gelada.
cinco folhas permanecem espalhadas pelo quarto.
a chama de uma pequena vela amplificada em círio, oscila.
as sombras movimentam-se sem ordem, é inverno.
as moscas não voam, a janela tem as cortinas fechadas.
vertical, olhando os quadros cegos nas paredes
fervendo, tremendo, soltou no ar as palavras, um eco imenso
por todo o lado, por todo o lado

aos teus lábios abertos de palavras duras
não os quero nunca

aos teus lábios abertos e combustíveis de palavras puras
quero-os sempre quero-os sempre

e rodava no eixo pesado dos pés como se preso
na rotação inexacta de uma estrela, rubro, ardente

nunca sempre nunca sempre nunca sempre -

O amor é uma companhia


Guy Bourdin

V

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uma abordagem científica de duas pedras de água num copo de whiskie


Pablo Picasso "Vin" 1926


cientificamente falando, quando duas pedras de água
caem no líquido, verticais e sonoras
flutuam, e tal era suposto, mesmo obrigatório.
nos cálculos gravíticos está incluído o primeiro ruído
ou seja, a breve queda no vidro.

cientificamente falando, as duas pedras de água
diluem e arrefecem como uma manta negativa
bastante razoável, para amaciar a garganta
diminuir o álcool, em toque mais suave, mais macio.

cientificamente falando não é apenas
caem e pronto. sobressaem e pronto. mas
antes, a ponderação cuidada na alteração da forma
não só o lentamente, mas a anotação cronometrada
de diâmetros, da forma elíptica, tridimensionada
de um gogo transparente à pequena areia
e finalmente a uma, quase invisível, lamela fina

e puff não há pedras de navio, só um quadro plano
oscilante e indiviso de ex-sólidos vazios.
.

cientificamente falando, se para tal não colocar os lábios
não beijar o líquido, o volume será o mesmo
na experiência e no pensamento de arquimedes
mas quanto ao néctar ardente
totalmente diferente
diluído, um pouco fraco, cheio de frio -

cientificamente falando, apesar de supostamente válido
não é suficiente, implica a verificação de todas as alíneas
num outro copo, com duas pedras de gelo
repita e registe todo o processo
servindo-se de um bloco , lápis
pequena régua de dez centímetros
um termómetro de mercúrio.
monitorize o estado sóbrio
e elabore relatório, analise e conclua.

nota importante, não plagie
refira sempre as fontes e a bibliografia -

mas sem abordagem científica, simbolicamente
as duas pedras de água num copo de whiskie
com suavidade e ardência
podem ser duas vidas, duas vidas que deslizam
até um dia -

como objectivo e metodologia
recuperando Aristóteles e a Biblioteca de Alexandria
o sistema é guardar todos os momentos
em papiros e pergaminhos
procurar a pedra por entre as pedras
criar mais pedras, partilhar caminhos -

As flores do mal




O nosso annus mirabilis tinha exactamente trinta minutos de vida.
Com a mão magoada pelos cristais que a delicadeza e o frio fortaleciam,
pediste-me que te ensinasse o desassombro do poema de Larkin ao espelho,
enquanto o teu corpo acrescentava cães com raiva ao meu reflexo
coagido, dedos de luvas cirúrgicas por todo o sítio
onde não houvesse paz na semelhança
e as crianças brincassem de vez aos parricídios,
ao invés de irem dormir
com um ursinho de sangue entre as pernas.

“They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.”

Não é porque a intenção não se detecta,
que a acção mexe menos ou enlouquece ou desiste,
caída numa herança sem fundo,
doadas já as suas extremidades e as suas réplicas,
os seus pólenes, potências, e as suas expectativas,
à descontinuidade da espécie
àquilo que por aí vem
de nunca vir.

Quisemos fazer uma cópia fiel da miséria,
para a qual servíssemos de modelo inquisitivo.
Mas nem isso nos impediu
de termos filhos indetectáveis de nascença
como flores obliteradas pelo descrédito,
postas à prova em livros e cemitérios
de oportunidades vazias.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Um dia de sol


Van Gogh "ceifeiro no trigal quando o sol nasce" 1889

Eu amo as coisas que as crianças amam,
Mas em compreensão funda, acrescida,
Que eleva a minha alma, de anelante,
Sobre aqueles onde inda dorme a vida

Tudo o que é simples e é brilhante,
Despercebido à mais aguda mente,
Com infantil e natural prazer
Faz-me chorar, orgulhosamente.

Eu amo o sol com o seu brilho intenso,
O ar, como se pudesse abraçar
Com minha alma sua vastidão,
Embriagado de tanto o olhar.

E amo os céus com tal alegria
Que me faz de minha alma admirar,
Uma alegria que nada detém,
Uma emoção que não sei controlar.

Aqui estendido deixem-me ficar
Diante do sol, da luz absorvida,
E em glória deixem-me morrer
Bebendo fundo da taça da vida;

Absorvido no sol e espalhado
Por sobre o infinito firmamento
Como gotas de orvalho, dissolvido,
Perdido num louco arrebatamento;

Misturado em fusão com toda a vida,
Perdido em consciência, impessoal,
Fico parte da força e da tensão,
Pertença duma pátria universal;

E, de modo estranho e indefinido,
Perdidos no Todo, um só vivente,
Essa prisão a que eu chamo a alma
E esse limite a que chamo mente.

Alexander Search 1908

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999

Fernando Pessoa por Sophia



Em sinal de sorte ou de desgraça
A tua sombra cruza o ângulo da praça (Trémula incerta impossessiva alheia
E como escrita de lápis leve e baça)
E sob o voo das gaivotas passa
Atropelada por tudo quanto passa

Em sinal de sorte ou de desgraça


Sophia do Mello Breyner Andresen In O Nome das Coisas

Minha imaginação é um arco do triunfo


De autor desconhecido "lugar arco-íris"

75 anos sem Fernando Pessoa

Minha imaginação é um Arco de Triunfo.
Por baixo passa toda a Vida.
Passa a vida comercial de hoje, automóveis, camions,
Passa a vida tradicional nos trajes de alguns regimentos,
Passam todas as classes sociais, passam todas as formas de vida,
E no momento em que passam na sombra do Arco do Triunfo
Qualquer coisa de triunfal cai sobre eles,
E eles são, um momento, pequenos e grandes.
São momentaneamente um triunfo que eu os faço ser.

O Arco de Triunfo da minha Imaginação
Assenta de um lado sobre Deus e do outro
Sobre o quotidiano, sobre o mesquinho (segundo se julga)
Sobre a faina de todas as horas, as sensações de todos os momentos.
E, as rápidas intenções que morrem antes do gesto.

Eu-próprio, à parte e fora da minha imaginação.
E contudo parte dela,
Sou a figura triunfal que olha do alto do arco.
Que sai do arco e lhe pertence,
E fita quem passa por baixo elevada e suspensa.
Monstruosa e bela.

Mas às grandes horas da minha sensação,
Quando em vez de rectilínea, ela é circular
E gira vertiginosamente sobre si-própria,
O Arco desaparece, funde-se com a gente que passa,
E eu sinto que sou o Arco, e o espaço que ele abrange,
E toda a gente que passa,
E todo o passado da gente que passa,
E todo o futuro da gente que passa,
E toda a gente que passará
E toda a gente que já passou.
Sinto isto, e ao senti-lo sou cada vez mais
A figura esculpida a sair do alto do arco
Que fita para baixo
O universo que passa.
Mas eu próprio sou o Universo,
Eu próprio sou sujeito e objecto,
Eu próprio sou Arco e Rua,
Eu próprio cinjo e deixo passar, abranjo e liberto,
Fito de alto, e de baixo fito-me fitando,
Passo por baixo, fico em cima, quedo-me dos lados,
Totalizo e transcendo,
Realizo Deus numa arquitectura triunfal
De arco de Triunfo posto sobre o universo,
De arco de triunfo construído
Sobre todas as sensações de todos que sentem
E sobre todas as sensações de todas as sensações...

Poesia do ímpeto e do giro. Da vertigem e da explosão,
Poesia dinâmica, sensacionista, silvando
Pela minha imaginação fora em torrentes de fogo,
Em grandes rios de chama, em grandes vulcões de lume.

Álvaro de Campos In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002