segunda-feira, 8 de novembro de 2010
O maestro sacode a batuta
O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe ...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos ...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
Fernando Pessoa "Cancioneiro"
sábado, 6 de novembro de 2010
sintoma

Chagall " Adão e Eva "
a explicação célere do universo não revelará estrelas.
por isso bela a filosofia e a sua procedência de segredos.
há uma fábula feita de palavras que encanta
quando os pássaros falam e as nuvens trémulas de cinzas
se sentam a dar conselhos, objectivos de portas brancas
sem sombras pálidas nem lugares indomáveis.
duas a duas as linhas de um tracejado;
traço intervalo traço e na distância traço intervalo traço
olhos fechados e almas cobertas de folhas.
quase se sente o horizonte habitando o deserto
transformado num mar largo
onde inquieto balouça
um barco e uma imagem;
à ré, à proa , batendo de um lado, inclinando no próximo
nódoas negras de tábuas, tropeços nas cordas soltas
à direita, à esquerda, querendo saber qual a realidade
de mãos abertas e nós desfiados dos dedos.
gémeos batimentos leves nos vidros da ilusão .
o tempo ganha um lugar silente e o tempo pára.
pode ser uma hora ou um segundo
a pequena picada de vespa e a vermelhidão
o agudo sintoma expansivo
uma gota engolida como um comprimido que adormece
miligramas de seratonina como morangos de Viena
dando voltas pelos labirintos como um passeio de bicicletas
sem paredes , sem espelhos gastos de diferenças
que esticam os olhos e engordam as formas.
transforma-se em grande a pequena gota
tão real, que leva à sua volta toda a chuva miudinha
a um belíssimo lugar de desejo, guardião de sono
ao tocar indelével o desconhecido -
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
sempre que solto o meu pensamento
e te encontro
no espaço liquido de bolha de sabao
levada no vento a toa
em purpurinas de brilho
peco
sempre que imagino o teu gosto
e te beijo
sorvendo o sal e o doce que de ti se desprende
labios de carne rosada
tintos de sabor
peco
sempre que as minhas maos
desenham o teu rosto
contorno redondo e quente do amor
tatuado a ferro e fogo
no mais fundo de mim
e peco
neste lugar sem pecado
nuvem suspensa e leve
de algodao doce como tu
peco
mas nao tanto
Clara Oliveira
sem se fazer notar
discreta
em pezinhos de la
que as noites ja vao frias
instala-se
dominando
algures a meio do tempo
mais coisa menos coisa
e logo apos o zenite
descida primeiro leve
descida depois abrupta
espera-te no contorno da esquina
e vao-se enroscando
as heras pernas fora
num peso monstro
prendem-te raizes de sequoia
e a tela de pintor experimental
enche-se de manchas escuras
ao acaso e ao sabor do artista
e sulcos indeleveis
cada tempo mais profundos e vincados
em altura de terra lavrada a suor
o papel, esse, encarquilha-se
pergaminho amarrotado
desbotado e sem cor
o esqueleto, esse, encarquilha-se
num amontoado mikado
e o chao cada vez mais perto
perde-se altura
tudo se vai virando
com olhos rasos no fundo
atraiçoa-te a concha que ja nao obedece
atraiçoa-te quem comanda que ja nao reconhece
atraiçoa-te
tu a ti
Clara Oliveira
a faúlha acesa

Almor Loucao "retirado do site olhares"
a faúlha acesa? lembro-me. ainda frio.
um dia sozinho numa grande sala. a lareira.
muito tempo atrás de um mês antigo.
as labaredas altas tocavam o mármore.
uma imagem de rorschard, de fuligem.
o quarto poder da mente conduzia.
tremidas e quentes. madeira de pinheiro.
a faúlha acesa em salto aéreo, sem rede
directa ao tapete de franja descaída.
lembro-me do olhar distraído, plano, ausente
três cavaleiros de arraiolos, duas lanças.
a faúlha abriu a última faísca.
primeiro um ponto, depois um círculo
de bonanza, que expandia: hei Joe!
e os cascos, tambores de orquestra
e partículas que subiam e descendiam.
lembro-me
os joelhos de um instante, sucessivos
pose de angústia, o livro em desespero
a página ferida, um diálogo partido
e o fumo ascendente de um nó de lã.
George Orwel 1984.
lembro-me perfeitamente.
não esqueço a faúlha acesa
nem a réstea de luz de um postigo
is watching you - is watching you -
is watching you -
A bicicleta

fotografia retirada da internet
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
entre as rimas e o suor, aparece e
desaparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa
floresce sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
porque negas?

Salvador Dali
procurar a consistência na paisagem informe e negra
não traz equilíbrio no vértice da pirâmide.
porque negas o instante, a substância
o lugar ocupado do rio que desce consciente
pela encosta que a nascente desconhece?
porque negas a adição de transcendência
a cor branca, a cor verde, a cor laranja
uma a uma, e todas em uma
como genética de nova nuvem, via láctea, nebulosa?
porque negas o sonho e o tempo
a taça néctar de uma próxima época
inscrita no raio luminoso, no oceano de luz
sem a discrepância real, sem onírico?
porque negas a imprudência do trovão
como prédio alto ou deserto de silêncio
e não só e apenas como lugar indeciso
no compromisso?
porque negas a impressão digital
no limiar do inseparável
na pele porosa da distância?
porque negas?
porque negas o reencontro de uma seda intecida?
porque negas o fio frágil ?
porque negas a alma?
porque negas o sentimento?
porque negas?
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Estado Crítico em Ípsilon - Poema - Sylvia Beirute

ESTADO CRÍTICO EM ÍPSILON
o y. que diferença
faz o y no meu genoma. o meu
genoma outro: que não explica
a natureza intransmutável do acto de
dominar quer o hausto do silêncio-significante,
quer um todavia em toda a via, em
autogénese e absorção de objectos
para um futuro cómodo
com menos poemas e tecnologia.
o y. que diferença faz o contorno da
falta do y no meu genoma.
nada saberia dizer.
excepto que é o teu impulso contrário
aquele que interpreta a fresta
da minha violência em paz,
que as circunstâncias que rodeiam a linguagem
são impeditivas de um outro formato.
Sylvia Beirute
inédito
.
Noção
E onde está tempo, em anestesia
ou no sono sem sonhos?
Tempo, espaço, movimento, energia
que haveria antes, que seja eterno?
Só uma coisa começou, única criação
a vida, connosco precisa-se
qualquer coisa mais
Pensar faz existir? Ou será sentir?
Qual o comunicado que interessa?
Diz-se, tomam conta à vez, será?
No último momento
o que lembra a consciência?
Há milhares de canções
milhares de filmes
milhares de livros
milhares de poemas
e não é o registo
não é isso...
E hoje?
Por enquanto recomponho-me
e festejo
a invisibilidade de deus

Fotografia via deviantart
dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
Al-Berto "O Medo"
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Uma pequenina luz
.jpg)
manuscrito de Jorge de Sena
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha
Jorge de Sena "Fidelidade" 1958
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Estudo para um retrato da electrocussão

Liga-se o tempo à tomada
e logo se projecta luz
sobre todos os acontecimentos.
Ninguém quer reprovar a Cronometria
Descritiva, fazer exame a Eternidade II,
ou ir à oral de Ciências da Condição
e ser expulso da única escola de ser
por motivos poucos nítidos,
entre a insurreição, ainda que terna,
e a inconsequência terminal.
Ninguém quer aparecer nos jornais
famoso por ter falecido da forma mais vulgar
de que há memória e registo,
ainda que saiba previamente dos pactos de união
entre a sua morte e a posteridade relativa
da sua morte feita notícia
e seja partidário do sofisticado sistema político
praticado por aqueles para quem a inexistência
passou a ser um modo de vida,
tentando inclusive ascender a lugares de topo
na empresa plena da dissolução.
Ninguém mesmo em vão denuncia
o prejuízo deste corpo profético,
e o seu porte atlético alterado
por gerações e gerações
de telómeros obscuros
e histórias de amor
e deficiências profundas
expostos como estamos às máscaras
de oxigénio
e ao cinema apócrifo
da sedação.
Afinal, é sempre a mesma gota que cai
uma a uma iniludível do céu,
e que cai sobre a tomada do tempo
e que veste de rosas uma electrocussão.
domingo, 31 de outubro de 2010
um café com o tempo
Vi-o espalhar-se pelos outros, por dentro de tudo, tudo que se movesse lhe servia e ele lambia. só há tempo se houver movimento e quando me chegou escorria pelas fendas certas e outras que abro só para ver quem entra. veio assim, em liquido vermelho polvilhado de azul, direito ao colo, onde nada se endireita pela curvatura que o alimenta. não tentou nada antes. se tivesse arriscado os olhos, mãos ou qualquer música horizontal com pescoço de tango eu tinha travado. um poço de líquido azul no colo e o ranger do embalo de um balde. enquanto me explicava a minha explicação ria-se muito e é sempre verde e verdade, sem saltos altos e sem algas nos olhos. a explicação era de pó verde tira-nódoas e depois de usada ninguém via a mancha da saia e pude sair, com muito pó nas fendas, para tomar um café com o tempo.
Quando entrei no café as cadeiras desenvolveram uma velocidade incómoda de sentido contrário à história e isso era tão real como o poço. não caibo continuamente. sentia-o por fora, a travagem à procura das linhas e o deslizar por dentro. o espaço de travagem à volta do meu corpo. em alguma das cadeiras mais lentas percebi que seria apenas eu a dançar, sozinha num lago vermelho de pó azul, que afinal não tinha entrado pelas fendas, mas saído lentamente do centro de mim. queria trocar de pernas, mostrar que a dança é só uma, com uma perna e milhões de braços em todas as direcções mas a minha explicação era verde e o tempo comia milhares de bailarinos em jejum à medida que empurravam os ponteiros.
E então dancei no meio do lago e fechei as luzes da margem. deixei o tempo observar-me. não estava mais ninguém no café, escolhemos um em que o movimento das cadeiras não perturbasse o lago. estava escuro e havia relógios parados que boiavam à minha volta. e senti faróis negros ao longe e já não sabia se tinham prazer em observar-me ou se registavam apenas. mas como ando cansada de ver os bichos a dançar sozinhos fechei os olhos enquanto o fazia. ouvi-o dizer, eu leio.
No dia seguinte, ou anterior, havia bocados de tempo, alguns meus, colados em folhas de um jornal. os faróis eram afinal lentes com a abertura temporal de exacta solidão. as imagens não sabiam parar e ele ria-se baixinho para o outro lado do universo. ângulos onde me via mas não eram meus e às vezes parecia que eram. e alguém na margem parecia dar-me corda. os ângulos eram de todos para todos e olhavam-se por infinitos. retalhos de bichos publicados, ainda vivos, e a forma como se causavam- jactos de luz rápida que me rebentaram as fendas e me iluminaram o corpo por dentro. nunca tinha vista o meu corpo por dentro. fechei o jornal.
Só voltei a encontrar o tempo em espaço público com granadas no bolso a correr numa circunferência de mínima possibilidade. estava disfarçado de outro líquido qualquer, talvez amarelo clean, mas a suspensão denunciava-o. tinha as mesmas lentes, reparei nas lentes e como fotografava outro movimento qualquer, entrado pelo pescoço em tango e saído noutro estado, talvez inter-ligado e afastei-me devagar. talvez pudesse passar-lhe ao lado, dar passos sem tempo. abri novamente o jornal. bocados de danças lambidas aos outros, feridas de caras esmagadas no papel e linhas sempre lógicas, sem umas não havia as outras e os novelos voavam ao plano de uma melodia horizontal. reparei que as linhas tinham sido sugadas com carinho para não partirem e imaginei o medo no tempo. que talvez não saiba que está espalhado por todo o espaço. pensei em dizer-lhe que não deixe parar o movimento do universo apesar da forma se ri dele. riu-se. só pode haver tempo se souber rir.
A terceira vez que o vi estava nervoso, a enrolar freneticamente a gravidade, e ouvi dizer que era preciso agarra-lo. cidades inteiras giravam-lhe à volta e as árvores ultrapassavam-nas em emergência de um velho saber. eu caminhava devagar na circunferência, desta vez sem granadas. começava então a perceber que o tempo é mais branco e o medo que o contínuo nos pode fazer. era preciso um referencial e até o meu espelho servia. como se organiza uma circunferência, e eu repetia, repetia sem centro. mais uma vez os bancos do jardim não se decidiam e eu percebia a necessária imprecisão do espaço quando o encontro. as árvores pararam, envergonhadas ao longe, e só nós em pico de energia de uma superfície subitamente alisada. numa cadeira uma pedra tentava o movimento e na outra magma doce directamente do centro a perguntar-me, tens frio? não tinha frio, estava só a transformar-me em pedra. teria sido convidada para assistir ao colapso de um buraco - nos buracos fecho os olhos para descansar, não são tristes são só negros dizia-me - teria o buraco rodado demasiado ou seria ainda só o velho poço - estava dentro do horizonte, não podia ficar sentada - isto é urgente, tens que inverter a seta, fazer voltar todo o magma para dentro do vulcão até um único ponto - perguntava-me se sabia que a probabilidade de eu não estar ali existia e ria-se. o riso do tempo é um passar de mão pelo pêlo da humanidade. despacha-te, dizia-lhe, e o magma ia derretendo a pedra que só tinha solidificada nas fendas. e eu corria e contava e contei tanto e corri tanto contra os ponteiros que julguei que o tempo fosse parar - no balde subiu só uma lágrima. perguntou-me: será que só se sai do horizonte quando se sabe amar o tempo?
nada mudou na janela acesa. nem as borboletas

Marc Chagall " a mulher e as rosas"
a folha em branco e uma chuva intensa.
tento escrever o poema como quem faz arqueologia;
calças de bolsos largos e bloco de notas moleskine
no meio dos sinais, dos labirintos
indiferente ao deserto, envolto de areias fluidas –
as palavras chegam na incerteza de um rosto indefinido
cobertas de pó como um cacho de uvas, uma a uma –
junto-as nas suas teias de polifonia e escrevo
sobre as memórias escondidas e súbitas
sobre o mar e sobre os rios, sobre os livros
sobre o calor e sobre o frio
sobre as ausências e a dualidade dos caminhos
colocando de um lado o cálice bordado de pratas
e do outro o vidro frágil de uma loja dos trezentos –
as palavras no altar sagrado rodeadas de pecados
numa rua escura de prédios altos, na cidade
junto-as em bando na primeira linha e escrevo
sobre a seringa e o copo de whiskie
de cabeça ao lado por cada um dos motivos
como queimaduras de um inferno
que provocam o grito, o sentido da dor
e um vago inconsciente alívio –
escrevo essencialmente por sobre a tua pele
como se fora um papiro de humana característica
em que as palavras vivas, dinâmicas e líquidas
entrem como lava ardente e sejam companhia –
e enrolo-me e enrolas-te pela noite dentro.
suicido-me pelas vastas madrugadas e pelos dias
tão longe dos alegres juncos
tão próximo de um caminho de ciprestes
quando se afasta aquele canto de flauta
e se arrasta uma nebulosa incorpórea
que transporta o fumo e a cinza do inverno –
nada mudou na janela acesa. nem as borboletas
soltas, epidérmicas e tímidas -