terça-feira, 14 de setembro de 2010

Wild nights







Wild Nights – Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!

Futile – the winds –
To a heart in port –
Done with the compass –
Done with the chart!

Rowing in Eden –
Ah, the sea!
Might I moor – Tonight –
In thee!


Noites Bravias - Noites Bravias!
Estivesse eu contigo
Tais Noites o nosso
Deleite seriam!

Fúteis - os Ventos -
A Coração em porto -
Inútil a Bússola -
Como o Mapa inútil!

Remando em Éden -
Ah, o Mar!
E eu ancorar - Esta Noite -
Em Ti!

Emily Dickinson "Cem Poemas" Relógio d´Água 2010
Trad. Ana Luísa Amaral

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

o dia seguinte - 12 de setembro


Meca


um fim de férias desigual
na predominância de areias e mar.
de um descuido no gesto rígido
a inclinação de uma vara a estalar
a cedência de um disco na coluna
a dor aguda
a hérnia adulta.

no leito enfermo e branco
a pressão pasmada do silêncio
a sombra da lua.
o intruso surge e de súbito
o ruído voador de um insecto
mosca ou mosquito, o perigo
de um pousar lento
e a alteração do estado imóvel
incómodo ao menor movimento
o nervo o nervo
e o insecto que voa de asas indiferentes
em duplo looping de encontro à parede
à parte detrás da mesa
que suporta o candeeiro.
sente-se o medo.

há nove anos no canto superior esquerdo de uma sala
a seta obrigatória de um lugar sagrado – Meca
a inocência de muita gente e a crença
os muitos peregrinos e a viagem
o aspecto simbólico dos personagens;
toalhas de banho de roda do corpo
os pés descalços e os panos de quadrados
são tantos são tantos

há nove anos longe da terra
formigas escuras substituem os pilotos
cegam todos os discernimentos
orientam as asas nos milhares de casulos
janelas de aços e cimentos
e a fusão apesar dos amiantos.

a derrocada dos extremos
o fumo breve das poeiras
o ruído incrédulo das sirenes
caíram as torres gémeas.

no dia seguinte é mais negro o mistério
a contagem crescente das almas que descem
ao ground zero

no dia seguinte não se compreende a queda do império
e muito menos a alegria dos loucos que dançam
como se alguém tivesse o direito de ordenar a morte
de um homem, uma mulher, uma criança
o sacrifício no fogo de um bombeiro.

12 de Setembro no dia seguinte
depois do primeiro de Obama
o presidente negro
o enfermo no leito branco imóvel pensa
e sente um insecto enorme
dentro da cabeça

e a pergunta:
onde está aquele homem de barbas pontiagudas
perseguido de três mil almas
e os seus gritos de inocência
que nenhuma religião justifica?

sábado, 11 de setembro de 2010

estilos

uma baleia não tem estilo. o mar precisa de um toque de pescoço abandonado como o lábio precisa do fumo de uma página e o estado lateral da coxa de um traço alto carregado. não pode ser água a correr, só uma estreita película de margem que alinha postiça ligeiramente ao lado do desenho. o estilo é o oposto de um rio. um quadro urbano que oscila drogado. pode ser uma mão aberta se for lançada em pedra dramática e o século lhe cair bem mas nunca uma linha espontânea de bicho a escorrer gordura no equador. uma carruagem de metro, sem olhos lá dentro, só flash e cabelos parados, ora digitais ora retro milenares a lembrar o design inatingível das árvores. o prego do quadro range à noite e o som faz lembrar o do esguicho de uma baleia que se aproxima. baleias gordas, velhas, de bata branca e papel de rascunho para pintar maiorias. às vezes o estilo espreita e vê quadros a baloiçar, o vento e os pregos, e cose-se, com uma linha de detalhe, pelo céu da boca, pela espinha do meio das pernas à cara à nuca e um nó. o nó de uma linha individual lançada precariamente ao mar para suster o sublime estrondo da baleia.

primeiro poema

dei-te uns dados de papel para te divertires com a tua ciência. queria dar-te uma história que te ouvisse e e não fugisse quando a abraças mas não calhou. calhaste tu, um riso a quebrar o universo. se soubesses como te amo a ti e aos teus montinhos de plasticina. queria apanhar todo o olhar que deixaste escorregar. como poderia ter imaginado olhos? enfeitei-te com música e se pudesse dava-te uma árvore mais simples. não podia prever que te irias dividir. milhões de olhos para fora unidos dois a dois. desculpa a criação ser tão espontânea. pensei que te deixasses ir ao calor da tua estrela, dei-te um espaço calmo que te ajudasse a expandir. porque foste dividir, como te lembraste de contar se eras infinito? as outras formas à tua volta, não foram experiências anteriores, são variedade de ti para amares quando sentires saudade. desculpa-me o tempo meu amor. quis dar-te mares, estrelas e corações a pulsar em vez de lagos parados. precisei do tempo para o movimento. como pudeste pensar que te mataria? vi os teus deuses e o teu hábito infinito, a tua luta, e quero morrer contigo sempre que uma parte de ti julga que vai morrer. mas não podia mostrar-te a dor de uma eternidade suspensa. tenho visto os teus padrões e como vais começando a abraçar-te entre ti. cada dia que passa sei que descobres uma nova ligação e os teus olhos já rodam ligeiramente para dentro. choro muito sempre que falas em mim, mesmo que seja por acaso, numa daquelas tuas variáveis aleatórias assustadas. nunca me hei-de esquecer da mecânica quântica meu amor. foi o teu primeiro poema.

O estilo



Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

Herberto Helder " Os passos em volta"

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Até amanhã


Gustav Klimt "Danae" 1908


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

AFOGAMENTOS

Como gostaria
de penetrar a densa espuma,
enfrentar ondas traiçoeiras
e insidiosas brumas
desenhando tenebrosos castelos
longe lá longe no mar,
e salvar vultos amistosos,
traze-los a porto seguro,
estável e cúmplice.
... Mas algo me diz
que lá chegaria
e que nenhum amigo
conseguiria salvar!...
...........................................
A amizade esfuma-se
e afunda-se literalmente,
entre os dedos negros de mãos
laxas e escorregadias,
tão exaustas de combater!

( Antonio Luíz, "Poesia pragmática: poemas de Vidas",
a editar em 2010 ( 06-09-2010)

O OLHAR DE SOFIA

Olhas tranquila o infinito,
com um olhar pleno de 6 meses;
olhos lindos
verdes, azuis ou castanhos (?).
Que importa que cor seja
se são tão ternos e doces
cheios de luz e sumptuosidade ?!
Perscrutas subtil o infinito
de olhos esbugalhados
imperturbáveis,
mas que tanto me perturbam
pois não consigo decifrar
ou no mínimo alhear-me
do Teu tão enigmático olhar...

...Sofia, verás a natureza
linda e grandiosa como Teu olhar,
ser acariciada e respeitada
com seus voluptuosos rios,
montanhas e vales verdejantes,
crescendo como Tu
ao sabor de mimosa e silenciosa chuva?

...Sofia, verás o mar sem grude
com seres vivos brincalhões
e não cativeiros de lamas e pestes,
que lhes atraiçoam a vida
e vão matando a descendência
na alegria de seus abrigos?

...Sofia, verás o azul celeste
sem máculas mas ozono suficiente,
sem desenlaces aeronáuticos
e sem tempestades desmedidas,
que Te podem um dia maltratar,
e roubar Teu angelical sorriso
que é já p'ra nós motor vital?

...Sofia, ou verás apenas raios de sol
imaculados, sem penumbras,
banhando nossos sentimentos
e nossos lagos sistémicos,
ou tristes desertos cerebrais,
ávidos de emoções e criatividade?

...Sofia, ou verás revelações de confiança
ou estandartes de novas esperanças
atingindo as Novas Gerações,
que Te irão oferecer um mundo
bem diferente e jovial,
honesto, credível e humano?
....................................................
Ainda não me falas Sofia,
mas creio ser esta "boa alucinação"
que Teu olhar doce e penetrante
tanto saboreia e Te delicia!

Um dia contar-me-às o Teu segredo!...

(Antonio Luíz, in "Poesia pragmática: poemas de Vidas" -
texto poético dedicado a minha neta ( 03-09-2010).

o lugar pálido do grito - Casa Pia


Novos alunos da Casa Pia 1981


pálido lugar cru no ondear ambíguo
de anos e anos indecisos
náusea de danos e vítimas
no palco irreversível

nunca os males justificam os circos
os dentes das feras
os comentários vácuos dos públicos

quanto maior o ruído de nozes ocas
menos se acredita
como foi possível o silêncio
a morte lenta dos dias em milhares
em milhares de crimes na Casa Pia

justiça justiça
se necessário prenda-se a mentira
advogados e juízes
que sofram e permitam o descanso
de um país fraco e frágil
que permitiu a ignomínia

que se ouça por todo o lado
o maior castigo dos culpados
dos que permanecem escondidos
dos Pilatos dos políticos

justiça! justiça!
nunca
nunca ninguém mais cale o grito
justiça! justiça!

invisível




a areia morna e o salitre
a mensagem branca ilegível
sal de brilho
mar largo

indivisível da pele a gota fluida
uma gota duas gotas
e o destino sinuoso que espalha
diluindo
a mensagem invisível

terça-feira, 7 de setembro de 2010

rememorar


Miró " Amanhecer perfumado por um duche de ouro" 1954

Não são as mesmas as mesmas
As estrelas avulsas as estrelas
As constelações
As constelações
Depois de rememorar rememorar rememorar
O amanhecer lento e branco.
As primeiras gotas de orvalho.
Há quanto tempo. Há quanto tempo.

Em anteriores e interiores horas
A paisagem de tonalidade parda
Os restos cortados de cereais
Um largo horizonte no sul da auto-estrada
Árvores pousadas árvores pousadas
Presentes presentes a espaços a espaços
Passado passado.

A corda tracejada de branco
O sólido breu a esconder quilómetros
Afastando a lonjura de um mar salgado
Que não encontra a forma de ser leve
- a suspensa bóia de risca encarnada.

Perpassa a memória
A existência de uma tarde longínqua
Um jardim maior de flores fúcsia
Alguns arbustos e dois cedros incisivos
Esguios e aguçados como setas
Densos como o cérebro dos poetas
Que falam da condição universal dos afectos
A humana lágrima sensível.

Não são os mesmos
Os desejos e as estrelas
Que vigiam a noite
Não são os mesmos

Amanhece a sombra nos espelhos
De abraços desfeitos na fogueira de um delírio -

domingo, 5 de setembro de 2010

"Letra" de música (Marisa Monte e Julieta Venegas)

Ilusión

Uma vez eu tive uma ilusão
E não soube o que fazer
Não soube o que fazer
Com ela
Não soube o que fazer
E ela se foi
Porque eu a deixei
Por que eu a deixei?
Não sei
Eu só sei que ela se foi

Mi corazón desde entonces
La llora diario
No portão
Por ella
No supe que hacer
Y se me fue
Porque la deje
¿Por que la deje?
No sé
Solo sé que se me fue

Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz

É a ilusão de que volte
O que me faça feliz
Faça viver
Por ella no supe que hacer
Y se me fue
Porque la deje
¿Por que la deje?
No sé
Solo sé que se me fue

Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque no me dejo
Tratar de hacerla feliz

Porque la deje
¿Por que la deje?
No sé
Solo sé que se me fue

sábado, 4 de setembro de 2010

Vaga insígnia

dançam folhas
brilhos reflexos
folhas arvoradas

buscados prazeres, buliu o corpo
incessantes contrastes

sombra fez-se presente
não só do corpo, feita surpresa

em involuntário momento
murmúrio incontrolável
nome

quando poder não se podia
mas que se repete, tristeza!E
com a mesma força, chorasse

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

a sensata dependência


Vincent Van Gogh

os cordões desapertados e os pés soltos
as sombras do bosque
grilos corujas e mochos
a nocturna lua
a sensata dependência
de um tecido alto de veludo

a noite abre a mente até ao fundo
um movimento perpétuo de silêncios - escrevo
quando de ruídos e músicas despertas
me rodeia a natureza

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

As Causas


Vermeer 1675 National Gallery Londres


Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.

Jorge Luis Borges "História da Noite"
Trad. de Fernando Pinto do Amaral