tenho a perfeita consciência do poder das cinzas a não existência enquanto corpo, enquanto a pele, o osso. nesse dia em que os pulmões sequem o ar e o sangue se torne lento e grosso não mais pedirei licença ao mundo será tarde para que a lua desça serei eu que subo
habitarei uma cratera no infinito do tempo e no silêncio serei mudo -
estou insuportável meu amor neste refúgio de silêncio desço no crepúsculo de Agosto a rua inclinada que leva ao mar. aqui e ali alguém sem ruído. a brisa suave treme e imana morna breve volta. na sequência de um instante coloco mentalmente uma estrada de tijolos que leva além de um arco-íris. contrariamente ao vulgar, o improvável desconhecido - um rosto plano, um vestido branco uma pequena cesta pendente oscila na descida; malmequeres, dedos de fetos, bagos de mirtilos.
estou insuportável meu amor na inquietude de uma ausência agora penso nas linhas de um carro eléctrico amarelo, eléctrico amarelo que revejo metálico e ronceiro, lentamente não soa a campainha, no fim, no término de um cordão de pele sem condutor nem paragem, a paisagem desfocada e difusa.
estou insuportável meu amor corro, agora corro fecho a porta com estrondo.
no jardim crescem heras escondem as rugas das pedras do outro lado a glicínia agora esparsa de flores violetas daqui a um mês as amêndoas daqui a oito o aroma doce doce doce.
estou insuportável meu amor instável e inseguro, que tolo de braços á volta da figueira como um aeroplano.
já é tarde no plátano um pio de coruja aproxima a noite o sino bate doze badaladas e a lua crescente permanece naquele canto a iluminar o vidro antes de adormecer .
estou insuportável, insuportável meu amor mas a sombra de uma estrela abraça-me a testa e as arestas em vez de duras e pontiagudas são de veludo e uma voz embala-me os ouvidos
Bebo consciente, bebo p´ra me libertar da solidão aquela que paira dentro de mim; Bebo p´ra me sentir feliz ou porque me encontro feliz; .... Bebo porque sou livre, e nunca p´ra me apoderar da liberdade! .... Bebo p´ra compreender o ser humano que tanto me desilude, bebo p´ra sentir de forma efémera que o mundo afinal é feliz, e que ele permite por instantes que meus sonhos sejam viáveis! .... Bebo porque sou livre mas nunca p´ra me apoderar da liberdade! .... Bebo para fugir à rotina que me desnorteia e trucida, mas não bebo por paixão ou sequer por dependência; Bebo por lúcido desafio p´ra sentir que vale a pena a Vida; Bebo p´ra sentir que há um amigo ao dobrar de cada esquina, bebo p´ra mitigar a tristeza e p´ra compensar a incredulidade, o desamor e a frustração. .... Mas juro que acima de tudo bebo porque sou livre, não p´ra me apoderar da liberdade nem viver o desvario de uma qualquer perversa emoção!
(António Luíz, in "Poesia pragmática: Poemas de vidas ", a publicar em 2010 ).
Kasimir Malevitch "complexo pressentimento de figura a meio corpo com camisola amarela" 1932
não é um campo aberto não correm cavalos selvagens não ressalta a claridade do dorso a escurecida crina o brilho largo e nervoso das narinas, do pescoço.
quieto. quieto por dentro. não me mexo. as mãos cobrem-me os ombros a cabeça descaída como as aves tristes que descansam e arfam, arfam um pouco. quieto. quieto e doente.
mesmo que se apresente o cientista o médico, o cirurgião exacto não há cura, não há láudano efectivo
apenas a evidente filosofia: não há cura para a alma quando está quieta, parada sem corda de uma roda de relógio
Falareis de nós como de um sonho. Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Pensamento arguto. Subtis sorrisos. Paisagens deslizando na distância. Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica, sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos, violência, escárnio, confusão odienta, primaveras morrendo ignoradas nas encostas vizinhas, as prisões, as mortes, o amor vendido, as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam - apenas uma angústia melancólica, sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados, falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
no lugar parado da estrada observo e escuto o outro lado do vidro a cortina onde tudo fica:
uma mesa pequena, uma toalha bordada uma bandeja clara e o espaço diagonal de dois livros de capas esbatidas, antigos; e não tem qualquer importância porque a resistência é das letras - a sua arte.
as roupas diminutas de uma noite curta as pupilas erigidas na retina e a música suave de toada uma balada de cordas oscilantes no auréola circular de uma guitarra árabe, bonita, lugar de Alhambra.
as palavras dessa música nem todas transportam significado mas algumas abrem clareiras o vislumbre de sombras isoladas e profundas, são únicas embalam e deslumbram naquele verso que nos toca mais no fundo e descobrem a pura certeza sem alarme como um barco a deslizar, a tocar os braços os abraços sem ondas ferozes de mar.
não era preciso nomear, não foi não é preciso nomear esta linha recta e paralela de um entendimento saltitante no olhar:
substituímos as migalhas das torradas pelo sabor ainda fresco de um sumo de frutas um odor de um pouco de menta a vitamina C , o doce ácido da laranja e o desejo ainda aceso, claro como a lua - uma luz que prende, une, enleia, funde, imana.
vestimo-nos depois e houve algum tempo para sentir os primeiros sons da cidade as primeiras aves das árvores e algumas rotinas solidárias: deitar flocos desbotados ao peixe acariciar os gatos de pêlo encurvado;
as ondas da rádio tocavam uma peça de jazz permanecemos um pouco junto à janela enquanto se despediu a madrugada: os primeiros autocarros, o eterno movimento pessoas de sapatos altos, de sapatos rasos o burburinho.
saí primeiro, abatido como um flamingo sem qualquer líquido na secura do caminho. vestias uma camisa branca lembro-me da transparência.
seguro agora na mão fechada como um símbolo o outro lado do vidro, a cortina onde tudo fica -
são precisamente sete e trinta. o tempo não parou, não recua é indigno -
Espaço vazio Passos em silêncio Dor sem tempo só
Amanhece o sol Branca a luz é vida Ri por dentro o ar
1. O amor tem mil olhos e mil derrames oculares. Abrem-se e fecham-se portas, pálpebras, portas, a uma velocidade que a vertigem não pode imitar. É antes um permanente alerta mascarado com a espessura trágica de um quotidiano de estúdio, estupidificante, o amor quando sobe ao olhar proibido de olhar. Uma fonte de preocupações impudicas, um jacto de luz inconclusa, como um lago míope no meio da oportunidade obliterada da paixão. Uma comédia de lágrimas e algoritmos entrecortados por finas camadas de mal-estar geral, cefaleias e vassalagem.
2. Podias ter vindo comigo, quando te chamei, para debaixo de todas as possibilidades. E esta afirmação repete-se continuamente, enquanto o amor for imperfeito e pertinaz, na cabeça daquele a quem ocorrem todos os pontos de vista e, consequentemente, todos os derrames oculares. Na cabeça daquele que hesitou e não pôde comparecer debaixo de todas as possibilidades. Na cabeça daquele a quem foram dados mil olhos e – tal como Quixote – uma conjuntivite lendária e galopante, para tornar a coisa mais verosimilmente irreal.
3. E é na imprudência fétida desta festa primária, neste velório do acaso ao acaso abandonado por caprichos e preceitos culturais, que eu rendo os meus mil olhos injectados à tua total desaparição.
I- COM DECISÃO TEMPORÁRIA: Autodemiti-me do amor, porque há muito prometi fazer-te feliz e tu não o tens permitido.
II- COM DECISÃO DEFINITIVA: Destruí em mim o amor, porque acreditei que me farias feliz mas tu com ingénua teimosia dilaceraste um coração por ti perdido.
III- COM ULTRADECISÃO ( Platónica ): Apesar do amor ausente, serei à hora da morte um lutador, invulgar combatente para a génese de um amor eterno, ... mas secretamente!
(Antonio Luíz , 09-08-2010 - in "Poesia pragmática: poemas de Vidas", a publicar em 2010).