quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Há cidades cor de pérola onde as mulheres V


Matisse "A janela azul" 1913



Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.




Herberto Helder
Lugar
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sessão aberta e Jantar

Depois de recolher as preferências de todos os que responderam e após contacto com a Ana Luísa ficou marcada a última sessão aberta do Curso de Escrita Criativa de Poesia (III), seguida de Jantar, para as 19H00 do dia 16 de Dezembro.
Todos os anteriores participantes estão convidados para este encontro onde, se para tal tiverem oportunidade, podem também participar do último trabalho de casa que publicarei aqui no Blogue.

Continuação de festividades poéticas

Grande Abraço e Até breve

Haikai - Vários




Aurora Boreal Lapónia (retirado da Internet)

H1 Se...
SE a pradaria junta o trevo e a abelha
como a aurora a noite e a madrugada
- o sonho sopra asas e absorbe

H2 Revery
"revery" e som
- imperial o tom


H3 Peso em libras
O peso em libras de Deus
-é nada

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Os aromas discretos das flores de sal




Uma manhã moderna seguiu o mar
"foot by foot" na canção do metrónomo.
Passou o lago sem patos ao primeiro sinal
e de barro, pousados, na última passagem;
águas paradas, um vítreo plano de prata.


Uma manhã moderna os atletas
de gorros e luvas pretas
cumpriam uma corrida sem metas
atingiam clareiras de pássaros adormecidos
e o apito seria mais bonito se fosse corneta
o som possante, brilhante dos metais.

Uma manhã, manhã moderna
no intervalo de um cansaço, estava trémula
sentada na relva madura, a pele húmida.
longe estava o lago e era leve um sussurro
sem nexo, um sussurro de falésias
burilado no ruído de marés - estava perto.

Um manhã, manhã moderna
as nuvens caíram no mar
como flocos doces de um açúcar de feira;
as águas tornaram-se doces, calmas.
não era monótona a cor da areia: dois tons
de um lado mais branca e seca
do lado do mar o horizonte molhado, sem marcas
as marcas de um caminho de pés
que em segredo, nas costas, as mãos
as mãos brancas levavam aos barcos
longe, tão longe, sem remos, sem redes
porque sabia divertidos os peixes
sempre que as ondas descalças
cobriam as linhas, as gravadas plantas
e desnudavam aos poucos os vermelhos
os vernizes no rosto dos dedos.

Uma manhã, manhã moderna
a camisola longa, as calças azuis
as sapatilhas de corrida, sózinhas
e as meias, os desenhos das cerejas
- os brincos de princesa -
sorrisos de infância nos lábios
rubros, displicentes de sumo
ao afastar as águas.

Uma manhã, manhã moderna
sentia as ondas, os segredos do mar;
as nuvens doces e os aromas mais discretos
das flores de sal.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Uma flor para Di Cavalcanti


Emilio Di Cavalcanti

"Criar é acima de tudo dar substância ideal ao que existe." - Di Cavalcanti


Esta é uma flor para Di,
uma flor em forma di-
ferente: de flor-mulher,
desabrochada onde quer
que exista amor e verão.
Verão como a cor cinti-
la nas curvas, e sorri
nesse púrpuro arrebol
que Di tirou do seu Rio
coado de mel e sol.
Uma flor-pintura, zi-
nindo o canto de amor
que acompanhou toda a vi-
da do pincel, o gozo-dor
de criar e de sentir, di-
vina e tão sensual ração
que coube, na Terra, a Di.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Histórias extraordinárias



Tales of Mystery and Imagination
Edgar Allan Poe" (Narration Orson Welles)

For my own part, I have never had a thought
Which I could not set down in words
With even more distinctness that which I conceived it.
There is however a class of fancies of exquisite delicacy
Which are not thoughts and to which as yet
I have found it absolutely impossible to adapt to language.
These fancies arise in the soul,
Alas how rarely, only at epochs
Of most intense tranquillity
When the bodily and mental health are in perfection.
And those mere points of time
When the confines of the waking world
Blend with the world of dreams.
And so I captured this fancy
Where all that we see or seem
Is but a dream within a dream.

Distraído




Gaudi era um louco de cerâmicas
pináculos adorados, pedras bordadas.
Imitava lagartos verdes e usava gabardine;
escorrida, pedinte e os olhos de absinto.
Um dia de linhas o eléctrico
infeliz e distraído -

-não terminou a Sagrada Família

Sessão Aberta com Jantar

Durante a última sessão foram acordadas duas datas possíveis para a sessão aberta seguida de jantar. Esta sessão, como a anterior, é extensiva a todos os participantes de outras fases do curso. Espera-se que venham muitos de forma a manter viva esta chama que há mais de um ano alimenta este "Mar de Azeite".
Era importante responderem com a maior brevidade para ser efectuada a marcação definitiva com a Ana Luísa. As datas propostas são as seguintes:

16 de Dezembro 18H00

ou

21 de Dezembro 18HOO

Um grande Até Breve a todos

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Não estou pensando em nada


Kasimir Malevitch "Meia figura" 1932


Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Informação urgente

Conforme estava destinado a próxima sessão do curso de escrita criativa realiza-se
na próxima quarta-feira, 2 de Dezembro às 19h00. Relativamente ao jantar ficou adiado e será acordada uma nova data e local durante a próxima sessão. Até lá toneladas de poesia para todos vós.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Nirintimba pintava - o pobre louco




Nirintimba perdia-se no clima azul-
a parede, uma de quatro, que sempre pintava.
De pupilas dilatadas reescrevia uma história-
minuciosas figuras, traços de paisagens.
Visitado de espírito na noite, acordava
premente de imagens que saíam de dentro
em sonhos de desenhos, linhas, sequências.
O seu mundo que colocava estático
de tigres, leões, elefantes
circunscritas serpentes em ramos altos
hienas primitivas de terapias futuras
rinocerontes vesgos iludidos nas distâncias
leões despenteados em rugidos de navios
girafas de orelha ao lado, ruminantes, calmas;
o seu mundo, ao centro, de uma selva africana.
A cor de um sol quente no país de Nirintimba
povoava um lugar sem ser o nosso e admirava
no sonho das suas diferenças, as pequenas
as pequenas diferenças que desde a manhã
na única das quatro Nirintimba pintava.

Diziam-no louco, o pobre louco, artista
que pena, louco.

Nirintimba só perdia a luz e sentia a sombra
quando algum pincel em teimosia de cerdas
esborratava a precisão de pés descalços
a ingénua infância. persistente nos erros
(quem os diria) perdia-se obsessivo.
E terminava todos os dias, todos os dias
ao fim do dia, cansado e sentado
na cadeira suja, de palha esfiapada.

De madrugada aquele outro pintor deslumbrado
chegava de máquina curiosa, película impressionada;
recolhia de objectiva a parede pintada, a vida breve
de um mural, os cimentos animados de um quadro.
Em todos os cantos, em todos os lados, um ritual
aos círculos no quarto, antes de Nirintimba acordar.

Um sonho louco, uma nova atmosfera, o clima azul
a selva que sabia ao primeiro raio de sol
seria destruída, aniquilada, para que Nirintimba
o homem louco, louco que sonhava, cobrisse
de uma nova camada. pois já não seria esse
o seu sonho na madrugada.

Diziam-no louco. o pobre louco. o artista
que apagava o indício, a mais ínfima memória
e ele sorria, revestia o dia, a bata
recomeçava -

Até quando?

domingo, 29 de novembro de 2009

Saudade



Edgar Degas "Retrato de M. Duranty" 1879

Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...

Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

o clip de prata


Kasimir Malevich "Pressentimento complexo: meia figura numa camisola amarela" 1932

Gostava de te mostrar aquela pintura
feita de colagens, tecidos e mais
reflecte no fundo de aguarela
aquele mar que chega à praia
transparente, perdendo espessura
deixando os fios de alga, as espumas
brancas e breves, se puras.
Sentado no capacete sem cabeça
inscrevo a marca oval
como desafio do subir das ondas
e em cada movimento de água e sal
as cores permeáveis no pincel
rodeando as colagens, os tecidos
e um clip de prata.
era sim aquela praia deserta
de muitas dunas e mãos despertas:
"não confortável"- disseste-"mas que importa?
se são macios os olhares e na pele
a cadência dos gestos, a descoberta
depois de ausências dos heróis de silêncios
sobreviventes de horas mortas"-disseste e mais
que me ocorre, que sabemos, que tememos
quando caiu a corda surreal, imagética
magnética de dois hinos, o coro de vozes
lá fora e lá fora nada e mais
quando de novo o mar sobe e cede o areal
um pouco de granulometria seca e suja
um pó mate que sobe enquanto ergo o capacete
sem cabeça.
Esmoreço. já não meço aquela onda
que inunda os pés, capilar e húmida
invade a parte mais clara do indigo
reescreve uma auréola, granulada, branca
uma auréola de saudade na escura ganga.
quase terminada- a pintura - tamanho A4
rodeada de claridade, de linhas de luz
e a distância, feita de ondas, de sombras.
não te disse do lenço, o lenço de renda
sim esse, de linho. estava perdido
encontrei-o há três dias, no casaco de lã
de ritmos e agulhas nas noites mornas
e motivos de vasos gregos ou de Creta;
um pequeno triângulo no bolso do lado
em três anos de viagem pendurado no cabide
de um único guarda-vestidos onde caem calças
escorregadias, desamparadas, teimosas
nos sinais, nas dobras. nem sequer ligo.
O lenço. o adormecido amuleto sem sentido.
três anos passados. "E que interessa?"
- dirias- " escreves, descreves, o que foi dito.
"poemisas" aéreo os lugares agora interditos.
nem sequer me sabes. um jogo de ironias."
dirias.
É verdade. tudo. mas mesmo assim
gostava de te mostrar a pintura
as colagens de tecido, o clip de prata
as cores de água, de mar salgado e mais
o lenço de renda, de linho e mais
a proximidade em crescendo que invade
o tamanho das ondas nos meus olhos
e saber -

Será que? -
O futuro? -

a carta rodeada de nomes


René Magritte "A corda sensível" 1960

Pensei em guardá-los dentro de uma carta
- os pensamentos, os versos
quando caem na primeira página
um nascer de águas nos ritmos brancos de flúor
seguidos de gavetas indecisas na cor de camisas
nas calças justas ou de vincos; não se usam já
bocas de sino presas nos joelhos largas no fundo.
guardá-los na primeira prateleira
de olhar distante enquanto aqueço o leite
ou meço a consistência da manteiga
no pão fresco ainda estaladiço.
alguém me fala do tempo: “parou a chuva
ficou o vento, os primeiros frios”
não compreendo no receio de perdê-los
- os versos, os pensamentos.
assim escondidos em pequenos gestos
são segredos e sei-os de serem ternos
de estar comigo como folhas de fetos
ainda verdes, a crescerem e serem filhos.
plenos de sentimento são companhia
bater de dedos no tampo da mesa
contar degraus um a um de granitos
saber quantos os pássaros na longitude dos postes
no correr dos fios ou estudar as nuvens
as suas formas e feitios, vagas de espumas
mousse de cortinas no vagar da velocidade
esticar de rede que descobre o lugar do céu
imaginário, etéreo.

o medo de os perder – os versos, os pensamentos
não os tornar a ver, não mais conversar com eles
tirá-los da testa, alisar-lhe os cabelos.
por isso pensei que é melhor guardá-los numa carta
e nessa carta, para que cheguem a casa, pôr um selo
e rodeá-lo de muitos nomes, muita gente dentro deles.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Melodias de um desconhecido



Não são muitas as minhas melodias.
surpreendo-me quando chegam
perdidas como ilhas
num mar de faróis
de outras, tantas, tantas melodias.

pérolas, pérolas minhas.
são como células distraídas
que descem e sobem o meu corpo
sem a noção exacta de uma força
íntima, sísmica, que ensina acima
as estrelas, a lua de melancolias.
as minhas melodias sempre são
uma âncora em qualquer sítio
no recanto de uma rua, na livraria
no vidro entreaberto de uma limousine.

surprendem-me as minhas melodias.
talvez as achem ridículas.
mas mesmo assim sinto-as
sinto-as tanto, tanto tanto
que, se tivessem vida
da mesma forma que as canto
cuidava delas se tivessem frio.